A Fúria dos Reis – Tradução, lançamento e crítica

A Guerra dos Tronos foi o grande lançamento do ano passado (tá, tudo bem, reconheço, sou meio suspeita para falar), as Crônicas de Gelo e Fogo (ou A Song of Ice and Fire para os mais tradicionalistas) aportaram no Brasil, a série está encaminhada na HBO (inclusive o vídeo do último teaser lançado está aí embaixo no blog, ficou arrepiante demais), ao que parece A Dance With Dragons desse ano não passa e tudo vai bem no reino mágico de Westeros… não fossem por um pequeno detalhe.

Lembram-se do que houve com a tradução do Guerra de Tronos, assunto que cansamos de comentar aqui mas que nunca é demais repetir? Decepcionada com o tratamento que a LeYa deu para o lançamento, fiquei desanimada com os próximos lançamentos da série, mas com a esperança de que o burburinho que ajudei a causar revertesse numa edição mais cuidadosa e caprichada.

Ontem tive uma grata surpresa. 🙂

O Omelete divulgou novamente com exclusividade os primeiros capítulos de A Fúria dos Reis (A Clash of Kings), o segundo livro da série cujo lançamento está previsto para MARÇO/11. A tradução novamente foi a versão portuguesa da editora Saída de Emergência, pelo tradutor Jorge Candeias. Abri o arquivo com um pensamento de “putz, lá vamos nós de novo”.

Só que ao ler descobri que… O TEXTO FOI ADAPTADO!!!!!

Pois é, meus caros leitores! As reclamações foram ouvidas e, apesar de terem utilizado da edição portuguesa novamente, o novo livro está muuuuito mais próximo do nosso querido português brasileiro do que o primeiro volume da série. Claro, o tom do texto é mais formal, ainda mais porque emula uma linguagem passada, mas agora está fazendo jus ao texto original. Estou falando que é a perfeição em forma de texto? Não, faria algumas modificações para arredondar ainda mais o pt-br e reservo-me ao direito de discordar desta ou daquela traduções, mas isso é o de praxe.

Claro que dá para se questionar a escolha de comprar a tradução portuguesa ao invés de fazer uma tradução brasileira – e mais ainda a de jogar no mercado um texto com quase nenhuma adaptação para o idioma local, mas é bom saber que o maior problema do primeiro livro foi sanado no segundo.

E, claro, dá uma satisfação ainda maior saber que meu apelo, no post em que criticava e reclamava da primeira edição, teve esse poder. Se não houvesse um primeiro a reclamar, sem mimimi e com argumentos, vocês acham que haveria esse cuidado na segunda edição? Acho que não. Como fã da série e perfeccionista de carteirinha, não poderia estar mais feliz ao ler os capítulos disponíveis.

Porque, repetindo novamente se não tinha ficado claro para alguém até agora, havia três GRANDES questões envolvendo a tradução do primeiro livro: 1) não estar em português brasileiro, logo, trazer um formalismo até de certa forma pedante que não combinava com o texto original; 2) o desrespeito com o tradutor que nem sabia que tinham usado a tradução dele no Brasil e, principalmente, 3) imaginar que o público vai consumir qualquer coisa, sem se importar com a qualidade e adequação do produto oferecido.

E é isso. Não, não aceito qualquer coisa. Não vou consumir, isso é, gastar o meu dinheiro e fazer outra pessoa ter lucro, um produto ruim. E vou falar: está ruim, não é só porque a série que gosto está saindo no Brasil que vou achar tudo lindo e maravilhoso. A editora, no caso a LeYa mas vale para qualquer uma, não está fazendo nenhum favor em publicar livro algum – tem de fazer o serviço direito. Afinal, eu não estou PAGANDO por isso?

Muito bom saber que ao que tudo indica dessa vez estou sendo respeitada como consumidora. O blog será atualizado com mais notícias à medida em que elas apareçam – e espero que todas elas boas.

Até a próxima!

P.S.: O último teaser da série Game of Thrones, da HBO:

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76 Responses to A Fúria dos Reis – Tradução, lançamento e crítica

  1. Bruno says:

    Não tem muito mais o que dizer que já não foi dito… Pelo menos é um bom sinal que eles tenham escutado as críticas da primeira vez.

  2. mushi-san says:

    Só compro se souber que eles arrumaram a cagada no primeiro livro também. Dinheiro é caro ò_o

  3. Rafael Tinoco says:

    Minha irma me deu de presente de aniversario no ano passado o livro um , edição da Leya. No começo, nos primeiro capitulos , realmente tava muita estranho ler , mas naum sei, com o tempo acabei me acostumando mas claro , prefiro ler com o pt/br.

    Fico feliz que a Leya atendeu as reclamações dos leitores que compraram , pelos menos mostrou que é uma editora que se preocupou , mesmo que seja para não perder o lucro , mas atendeu … ja é um passo

    Agora se houver a primeira edição revisada EU QUERO RECALL DO PRIMEIRO LIVRO XDDD

    agora é esperar março para comprar o livro e com um bom preço e que não seja igual a Rocco

    • Ana Carolina Silveira says:

      Não é ilegível, depois de um tempo dá pra acostumar e ler tranquliamente, mas não é PT-BR também e não adianta fingir que é…

  4. raitoringo says:

    Aleluia! Ainda bem que viram que algo estava errado e tentaram arrumar. 1+ ponto pra LeYa! XDD

    • Ana Carolina Silveira says:

      A gente tem é de reclamar mesmo quando vê coisas erradas e que podem mudar, senão fica tudo na mesma… Ninguém se mexe sem provocação.

  5. Tibor Moricz says:

    Pois é, boca no trombone sempre traz resultados. O seu trombone é dos bons! Parabéns.

  6. Pingback: A Fúria dos Reis – Tradução, lançamento e crítica | Crônicas de Gelo e Fogo

  7. Heitor says:

    Ok. Eu confesso. Só comprei o primeiro livro porque estava na promoção e eu não tinha nada pra ler. Mas eu adorei!

    Problemas com a tradução a parte, e apesar de odiar algumas escolhas, depois do 3° capitulo, salvo uma parte ou outra, eu até que pude ler bem.

    No mais, eu e meia dúzia de amigos que convenci a ler o livro, estamos com “sanguenozóio” pra ler o Fúria dos Reis.

    E o Inverno está chegando minha gente…

    • Ana Carolina Silveira says:

      Então, depois de um tempo a gente se acostuma, não é que não dê pra ler ou entender, mas não é pt-br…

      E sim, o Inverno está chegando \o/

  8. Rodrigo Carreteiro says:

    Não é pra ser do contra ou pra gerar polêmica, mas acho que sou um dos (poucos) que se entristecem com esta notícia.

    Uma das coisas que eu mais me ressinto na história da nossa nação (sim, antes que surja a dúvida, sou brasileiro) é o distanciamento de Portugal que aconteceu. Foi necessário para que pudéssemos ter uma identidade enquanto nação, claro, mas na minha opinião, errou-se na mão e perdemos uma grande oportunidade de enriquecimento cultural, de ambos lados.

    O acordo da língua portuguesa veio, sobretudo, pra minimizar este impasse – das traduções de um país que ficam bizarríssimas no outro. Claro, depois do acordo, continuam existindo diferenças (como a escolha do vocabulário, que é, até onde entendi, a razão de sua reclamação), mas ao invés de um incômodo, vejo isso como uma OPORTUNIDADE de enriquecimento para minha própria expressão (pois lembro, apesar das preferências vocabulares de um ou de outro serem diferentes, não há nenhuma palavra com sentidos diferentes de um país pra outro, só mais ou menos usuais). E o brasileiro mostra um acômodo terrível no que concerne sua amplitude vocabular – uma extrema falta de criatividade no tocante a sinônimos ou construções. Conhece pouco e não demonstra vontade de aprender.

    Pessoalmente, torço pra que mais editoras façam com seus livros o que a LeYa fez com A Game of Thrones e tragam traduções portuguesas pra cá (e que o análogo tenha lugar em terras de além-Tejo). Entristece-me que uma decisão puramente comercial tire a LeYa de um caminho que (mesmo que não-intencional), a teria posto na vanguarda das tradutoras.

    E peço desculpas se alguém se sentir pessoalmente atacado (sobretudo a autora do texto). Em nenhum momento foi minha intenção atacar pessoas específicas, mas comportamentos do nosso povo que me irritam profundamente.

    • Piaza says:

      Bom, não acredito que seja questão de “acomodamento”, mas gostando-se ou não disso, o portugues de Portugal e o brasileiro são linguas diferentes, com especificidades próprias. Não é que o texto escrito ou traduzido em um seja incompreensivel ao outro, mas soa forçado, quase desrespeitoso por parte da editora mesmo. Respeito sua opinião, mas acredito que se um produto (sim, livros são produtos) é destinado a um país, o mínimo que a editora tem que fazer é publicar na língua desse país, e achoque isso está longe de ter a ver com “comportamentos preguiçosos e acomodados do nosso povo”.

    • Ghad Arddhu says:

      Beira ao ridículo essa mentalidade colonial, de que o Brasil deveria ter continuado condicionado à coroa e à cultura Portuguesa mesmo com um oceano de distância e diferenças.

      Enquanto nas terras do além-Tejo existe uma população de menos de 11 milhões de pessoas, temos apenas em São Paulo uma população de mais de 19 milhões de habitantes.

      Essa crendice da língua, e da unidade linguística entre nações tão monstruosamente distantes tanto em aspectos culturais quanto em aspectos demográficos, mostra um completo despreparo da opinião quanto a analisar e estudar, buscar fontes e um conhecimento com embasamento.

      A preguiça que existiu, no caso, foi por conta da Editora supracitada, em não custear uma nova tradução, em tentar empurrar goela abaixo do leitor Brasileiro um produto mal acabado, fruto de uma ganância mercadológica descabida.

      Dizer que o povo Brasileiro é acomodado em sua amplitude vocabular, e acusá-lo de ter uma extrema falta de criatividade no tocante a sinônimos ou construções, é de uma estupidez sem tamanho que somente posso imaginar algo assim vindo de uma pessoa de mentalidade colonial, adepto do “PURU OURU PURTUGUESH”.

      Agora, o mais escandaloso despaltério do comentário é de que a editora Leya estaria na vanguarda das tradutoras por disponibilizar um trabalho importado de tal forma preguiçosa e totalmente desrespeitosa com seu público.

      Poderia me alongar por inúmeras linhas nos meandros da sócio-linguística para demonstrar como a mentalidade dessa pessoa é preconceituosa e de cunho burguês-colonialista, mas irei me limitar a apenas isso em respeito à dona do blog e aos outros leitores.

      Vá estudar, Carreteiro!

      • Fábio Mendes says:

        Eu não costumo responder blogs ou matérias de jornal. Acho uma tremenda perda de tempo. Mas não pude ficar quieto depois de ler o post do cidadão acima.

        Aprenda a conviver com opiniões divergentes da sua. Fazia tempos que não via uma postura tão arrogante e prepotente como essa.

        Coisa de radicalzinho de esquerda metido a intelectual.

    • João Paulo ( Sapo ) says:

      Concordo com você nesse ponto…
      Uma bela maioria desconhece muitos dos termos usados no primeiro livro e com isso reclamam…
      Eu pessoalmente achei a “adaptação” do primeiro título algo desnecessário… assim como o nome da série em si…
      “As crônicas” da a impressão que será algumas histórias com Gelo e outras com Fogo, ou ambas até…
      “Uma canção” já deixa a impressão de algo que tem início, meio e fim… como uma canção…
      O segundo título ( A Fúria dos Reis ) eu achei até mais “legal”…
      Mas a primeira coisa que farei quando tiver o Segundo Volume em mãos é ir na contra-capa e ver como ficou o título do terceiro, pois A Storm Of Swords é perfeito demais para se adaptar para algo como:
      Uma CHUVA de espadas, ou uma Torrente, ou seja lá o que…

      • Catarina says:

        Olá, eu sou portuguesa e se o título ficar igual ao da versão portuguesa, vai ser: “A Tormenta das Espadas”. Não sei se vos agrada ou não. E devo dizer que realmente fazem bem em protestar, pois merecem o livro editado na vossa língua. 🙂
        Cá em Portugal, também temos (não em livros) mas outros produtos que vêem em brasileiro e é claro que não gostamos. Existem termos e expressões que parecem ridículas num língua ou outra.
        E quanto ao tentar aproximar a linguagem, se isso tiver de acontecer, acontece naturalmente. Não podemos impor às pessoas que de repente, mudem a sua expressão linguística e maneira de escrever para outra que desconhecem. E é por isso que o novo acordo ortográfico é uma idiotice.
        ps: Pensem que já tivessem há mais tempo a saga no país, mas acreditem só me falta ler o último que saiu e é incrível!

      • Ana Carolina Silveira says:

        Acho que no Brasil vai ficar o nome mais ou menos literal, A Tempestade de Espadas, mas temos de ver o que o pessoal da editora vai decidir.

        E sim, é isso! O acordo ortográfico é, sinceramente, uma bobagem, porque não é capaz de alterar vocabulário. Alteração de vocabulário só acontece com alteração de cultura – coisa que não ocorre do dia para a noite em lugar nenhum do mundo.
        E acho que você entende, ver um texto escrito em pt-br não deve ter muito a ver com sua língua de todo o dia, da maneira como você conversa com seus amigos ou conta histórias para eles. Claro que dá para ler e entender, não é esse o ponto, mas não é seu idioma.
        Muito legal sua opinião, acho legal ver um pouco do “outro lado” também 🙂

    • Raphael says:

      Ao longo de minhas leituras me deparei com escritores portugueses renomados como Antônio Lobo Antunes. Particulamente, escolhi naquele momento mergulhar nos Cús do Judas. Os refências culturais, linguínsticos e a narativa excessiva do seu stream of consciousness era naquele momento uma escolha pessoal minha. Resolvi buscar elemento a elemento aquele quebra cabeça de filmes, vestimentas, lugares, pessoas, comportamentos e valores contidos naquela obra. A sensação ao longo do texto era angustiante. Principalmente por ouvir aquele pessimismo de um homem velho de um VELHO MUNDO. Após terminar fiquei com óptimas lembranças. Mas acredito que seja mais pela busca pessoal do que pela obra. Mas sendo enfático e repetitivo “buscava um escritor contemporâneo da língua portuguesa naquele momento”.
      Agora o que observo aqui é um grupo de pessoas que esperam ler uma obra traduzida. Aí começa o problema! O ato de traduzir é um estado de arte, essencialmente ligado ao respeito da obra e claro a língua para qual estamos traduzindo. Cheguei a ler o Senhor dos Anéis quando não havia a versão brasileira da Martins Fontes. Encontrei na biblioteca Municipal uma cópia de uma versão portuguesa, um pocket book. E percebi que era uma versão que agradaria ao lusitanos mas jamais aos brasileiros. Precisariamos de uma tradução própria. Outra experiência que posso relatar era a que acontecia com os livros russos, até então traduzidos do russo para o francês e depois para o português. Logo um enorme contigente adquiriram livros clássicos como Crime e Castigo estavam lendo este tipo de tradução. Felizmente percebi isso e por sorte lendo no caderno Mais da Folha SP deparei com as novas traduções realizadas por quem entende de tradução como é o caso da primorosa editora 34. E foi assim que comecei a readquirir velhas obras vindo a serem novas obras jamais lidas anteriormente. O efeito da tradução foi chocante. Observaram-se grandes diferenças. Poderia citar o caso das obrar de Musashi mas não quero mais alongar em algo que é condição necessária e suficiente para uma boa leitura na sua língua materna: conhecimento profundo da obra e do idioma original(necessário) E conhecimento profundo do idioma e as particularidade do idioma LOCAL(pt-br). Acredito que haveria um enorme bom senso na editora ao realizar isto, não jogando um produto acabado, como já dito de vindo de um público que não passa da população do estado de São Paulo para um público muito maior e mais amplo. Acho que a editora foi imbecilmente ambiciosa sem construir um caminho sólido para isto.
      Mas pensando nos juízos de valores do amigo pedante que acredita que a MIMESIS do VELHO MUNDO ajudaria a educar uma população que precisa sair no anafabetismo FUNCIONAL por meio da glorificação do canones lusitanos. Vejo uma visão distocida do papel que cumprem a tradução e o seus valores pessoais bem abaixo da mediocridade, sei que somos uma nação forte e economicamente entre as maiores do mundo, não podendo pensar deste jeito retrógrado pelas consequências e por saber que era este o papel passado que nos destinavam: o de aceitar os valores do chamado primeiro mundo.
      Sei que quando falamos de população sei do fato de que apesar do Brasil ter uma população enorme a maioria não é leitora. Mas a solução é cultivar modelos de fora e deixar hermêtico aqueles que estão iniciando? Ou seria melhor termos primazia pelo desenvolvimento próprio o qual deve estar muito além de uma mimesis. As traduções são um entre outros campos de enorme interesse comercial. Visto que abrange muito dos livros ao filmes que possuem legendas. E fico taciturno quando meus compatriotas aceitam qualquer porcaria que aparece, nem todos os filmes merecem as traduções a La Adam Sandler observado ultimamente. Cito ótimas realizadas que encaram o espírito brasileiro. Adoro Guimarães Rosa e sua preocupação na captura dos regionalismos. Este sentimento pode ser observado no filme Rango(dublado). Foi um dos poucos filmes dublados prazerosos por perceber na tradução bem realizada, o cumprimento do espírito ali contido, que no caso recaia no jeito de se expressar bastante individual de cada personagens. E sempre acompanho o original para comparar e ver que toda tradução é uma nova obra.
      Para os que querem ver como ficam estas questões: tenter ler a obra no original e nas traduções que vamos cruzar, observem o respeito à inteligência dos consumidores.
      Desejo ao meus conterrâneos um estado de arte de nossos melhores tradutores, os quais sejam profundos conhecedores das riquezas e expressividade de nosso povo. Ao passo que o mesmo deva respeitar a obra como um todo.

    • rodolfo says:

      São paises diferentes, não ha necesidade de ser igual, me diz, o ingles ameicano é igual ao inglês?

    • Tamires says:

      Rapaz, até onde sei não foi o Brasil que se distanciou de Portugal, mas Portugal que mudou sua própria língua enquanto o Brasil continou com o português dos 1500… pelo menos é isso que explica a diferença da língua do nordeste pra do Rio de Janeiro, por exemplo. Bom, isso foi algo que li num livro de história da língua portuguesa no curso de letras, infelizmente não lembro o nome do livro nem da autora agora, mas posso voltar aqui depois e dizer.
      Quanto à questão da importação da tradução portuguesa, acho mesmo que é uma questão de falta de respeito. Se pelo menos deixassem claro pros consumidores que é a tradução portuguesa, aí quem tivesse a fim leria assim mesmo. A intenção que moveu a editora a importar a tradução portuguesa não foi a de enriquecer o vocabulário ou aumentar a cultura do brasileiro, acho bem mais provável que tenha sido motivos $$, e por isso é uma atitude deplorável. Pra conhecer melhor a língua de Portugal, temos a opção de ler Saramago, que até onde sei não permitia que traduzissem seus livros pra pt-br 😛

  9. cericn says:

    Carol marcando em cima da LeYa! =)

    Baci
    Eric

  10. Fabio Q says:

    Putz, eu havia lido isso em seu blog e me esqueci, acabei comprando o primeiro volume de presente para meu irmão. De qualquer forma fico feliz que seu protesto ganhou força e os leitores receberam um pouco de atenção, parabéns a você pela iniciativa!!

    Essa série da HBO promete!! parece uma ótima produção, vamos aguardar 🙂

  11. Fabio says:

    Ah, e essa capa é muito mais bonita que a do primeiro livro! 🙂

  12. Wendell says:

    Não ficou um livro dificil de ler, toda vez que eu pegava lia 50, 60 págs de uma tapa só, e isso porque o livro é enorme (nas dimensões) e tem a letra miúda. Mas os primeiros capítulos foram cansativos por que ainda não havia me acostumado.

    Porém, por ser um livro que fala de um mudo tão parecido com o nosso na Idade Média eu achei até legal, pois aproxima-se mais, porém não podemos nos aquiatar né ? Vai que eles pegam gosto e vão pegando os livros em pt/pt e trazem pra cá dizendo que estão em pt/ br ? não dá né ?

    Apóio totalmente sua atitude . 😀
    E que venha o Inverno !

  13. Maria Clara says:

    Acho que fizeram tempestade em copo d’água com esse lance da tradução. A leitura do livro não me incomodou nem um pouco, não senti isso que vocês sentiram, essa diferença enorme. Esse incômodo de saltar aos olhos , não senti mesmo. Já senti essa diferença ao ler livros de escritores portugueses, mas mesmo assim, não afetou minha leitura. Acho que vocês tomaram isso como uma ofensa, mas eu não me sinto nem um pouco ofendida com isso, pra mim, até aumenta a mágica do livro ter uma linguagem “diferente”. Concordo com o Carreteiro, parece até que deram um livro em espanhol pra vocês lerem. A língua é a mesma pessoal. E não precisam me mandar estudar só porque eu discordo, isso aqui é um blog.

    • Thiago says:

      Maria Clara, óbvio que você pode se expressar, assim como eu também posso. Ao menos para mim a questão não é o ” incômodo” ou se afeta ou não a leitura, mas sim a postura da editora. Lançar um livro com portugues de Portugal no Brasil não é problema se isso for justificavel, mas nesse caso não é, tratando-se apenas de uma decisão comercial, lançando o livro de qualquer forma, sem o cuidado de lança-lo na lingua do país alvo/consumidor. Seguindo-se esse seu raciocínio poder-se-ia justificar até lançarem livros em ingles aqui, ao invés de traduzí-los, afinal, muita gente entende inglês, não seria nenhum empecilho pra leitura de grande parte dos leitores. A editora quis ter o maximo de lucro com o minimo de esforço, e optou por deixar o livro “meia boca”, sem adequa-lo ao portugues daqui, que NÃO é o de Portugal. É a mesma língua? Teoricamente sim, mas isso é desrespeitar o consumidor/leitor brasileiro, afinal, é o mesmo que dizer que ele não merece que se faça uma tradução na língua dele, que não vale o esforço. Agora, se isso aumenta a “mágica”da leitura para você, ótimo, mas não se pode exigir que isso se aplique a todos os leitores brasileiros, servindo de justificativa para a postura da editora.

      • Ana Carolina Silveira says:

        Cara, é por isso que gosto dos meus leitores.

        É isso que eu acho, Maria Clara. Pode não ter atrapalhado sua leitura – e o texto é compreensível e “acostumável” depois de dez ou vinte páginas. A crítica é à postura da editora de “requentar” uma tradução ao invés de adequá-la ao país onde pretende lançar a obra. De você, como leitor, esperar no mínimo capricho com o material lançado e não encontrar isso.

        E concordo também, adequação por adequação, o melhor seria lançar o material original de uma vez, afinal inglês é perfeitamente compreensível e “inglês instrumental”, o mínimo requisito para ler, não é muito difícil de se aprender.

  14. Maria Clara says:

    Concordo, que rolou uma preguiça da editora, mas acho que também rola uma preguiça dos próprios leitores na hora de ler. Se tem uma palavra um pouco diferente ou o estilo de escrever é outro, e o leitor tem que se acostumar, a pessoa já faz bico.
    Se for analisar o preço que se paga num livro (não sei quanto custou o meu, pois ganhei de presente) temos que exigir o melhor, sim, até porque os livros são livres de tributação. Mas não acho que este seja o caso de melhorar a tradução. Acharia porco se tivesse vários erros ortográficos, ou de impressão. O que acho que deveriam melhorar são as páginas do livro que eu não gosto, mas isso é detalhe. Só acho que o português de lá não é tão diferente do português daqui, tirando a pronúncia que para mim não é tão fácil de entender.
    Dizer que no meu raciocínio se deveria publicar livros em inglês aqui, não tem nada a ver, pois o português é nossa língua mãe. É fundamental conseguir entender sua própria língua, mas não estou exigindo que saibam uma língua estrangeira. Vocês consideram o português de lá uma língua estrangeira? Alguém aqui tem curso de português para viajar para Portugal? Nunca ouvi falar… Quantas vezes nos pediram para ler livros clássicos, de português rebuscado, ou até mesmo de Portugal no colégio? Por isso, acho essa revolta um pouco exagerada. Foi um desleixo da editora dizer que foi traduzido para o Brasil, sim, mas nada que não possa ser esclarecido numa próxima edição.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Assim, concordo que um livro de vocabulário diferente, mais rebuscado, não deve por si só afastar o leitor – principalmente porque vocabulário se adquire e se exercita. Mas acho que também tudo tem sua adequação – uma coisa é pegar um livro clássico do século XIX, sabendo que você vai precisar adequar sua compreensão para um tom mais clássico, ou um livro em português continental não-traduzido, ou um texto escrito em um tom mais formal para se adequar, por exemplo, a uma regra de apresentação ou linguagem. Outra coisa é pegar uma literatura mais voltada para a diversão, que a linguagem original é menos rebuscada, e mimetizar um texto clássico utilizando uma forma diferente de linguagem.

      Sobre o português continental ser uma língua estrangeira, sim, considero. As regras gramaticais são basicamente as mesmas e várias palavras se assemelham, mas o vocabulário entre os dois idiomas diverge tanto que dá para considerá-los coisas distintas. ESPECIALMENTE no português informal, na linguagem coloquial de dia-a-dia, as coisas são bem diferentes. Não sei se tem o hábito de ler blogs portugueses, eventualmente leio e sinto que não é meu idioma. Mesmo a pronúncia me deixa confusa. Chego ao ponto de achar o espanhol latino-americano muito mais compreensível do que o português continental – e não sou a única.

  15. fabio says:

    Sou um leitor que gosta de palavras diferentes em uma leitura, é exatamente esse detalhe que me fez gostar tanto de ler Chesterton, Poe e Lovecraft, por exemplo.

    Em O HOMEM QUE FOI QUINTA-FEIRA (a) de Chesterton uma das coisas bacanas do livro é a linguagem, como gostei comprei outros livros do autor, um deles é uma coletânea de contos O CLUBE DOS NEGÓCIOS ESTRANHOS (b), embora a linguagem do livro (b) ser mais simples que a do livro (a), eu tive dificuldades em aproveitar, e não, nem de longe foi preguiça, o texto flui diferente. É diferente pois a edição faz parte de uma coleção chamada LIVROS DO BRASIL > LISBOA, exatamente, é o português/PT.

    Claro, quando comprei sabia o que estava levando, e no caso do livro aqui citado, as pessoas não sabem o que estão levando, as diferenças são claras, muda o clima de uma leitura. Creio que querendo ler e/ou estudar o português/PT devo comprar livros editados por lá, facilmente encontrados em livrarias on-line, mas comprar gato por lebre é uma ofensa ao consumidor seja qual for o produto, precisamos aprender a ter nossos direitos (todos eles) respeitados, parabenizo novamente a Ana pela iniciativa.

    Eu acredito que devemos sim manter uma relação legal com Portugal, deixar as magoas pra la (tem um programa da TV Cultura bem legal sobre isso), mas traduções nada tem a ver com isso.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Exatamente!

      E ressalto o final. O caso do livro não tem nada a ver com gostar ou não de Portugal ou negar ou não o papel que a cultura portuguesa teve na nossa, é muito mais de adequação, respeito (à obra e ao leitor-consumidor) e do papel da editora nisso tudo.

  16. Carlos Magno Consoli says:

    De fato, concordo com absolutamente tudo que foi ressaltado no texto, e é muito bom saber que através dos nossos protesto a LeYa resolveu adotar uma posição mais “respeitosa ” com o público brasileiro.Mas sabe o que é mais irônico?No meu caso em particular até gostei dos formalismo lusitanos acho que deixa tudo mais poético, mas sabemos que esse não é um conceito correto, a tradução deve passar a mensagem que o autor desejava e sabemos que Martin não adota essa linguagem absolutamente formal, o saldo geral é: queremos atenção com uma tradução que incorpore nossa forma de falar ou mesmo pensar, uma versão brasileira e já que a LeYa foi mais atenciosa no segundo livro porque não nos presentear com uma primorosa tradução pt-br no próximo volume?

    • Ana Carolina Silveira says:

      Ao que parece, o segundo livro vai vir em pt-br mesmo (e espero que todos os próximos). Espero que tenha sido a única experiência 🙂

  17. Mello says:

    Sinceramente não sei qual é a dificuldade da Editora em cumprir o prazo para entrega em Fevereiro, não aguento mais esperar!!!

    Olha, as ilustrações das capas (por Marc Simonetti) estão sendo copiadas das edições francesas, como podemos conferir todas elas no link (Ana Carolina Silveira, pra você):
    http://aidanmoher.com/blog/2009/12/asides/cover-art-amazing-artwork-from-grrms-a-song-of-ice-and-fire/

    E os 4 livros já estão traduzidos no portugues de portugal, como podemos ver no blog português:
    http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=ThemePages.ThemePageView&theme_page_id=34.
    (No blog tem 8 volume, mas sei que é pq eles dividiram cada livro original em 2 edições)

    De qualquer forma, não é tão dificil traduzir de portugués PT para o portugues BR, como se fosse traduzir do Inglês ou Frances para o Português.

    A tradução do 1º Livro, por mais que tenha deixado a desejar, pra mim valeu a pena!

    Sei que estão tentando “ajustar mais” a tradução para o português do Brasil.
    Mas esperar pelo volume 2, sendo que já estão com as capas e as traduções quase prontas dos 4 livros, é demais!!!

    • Ana Carolina Silveira says:

      Vou voltar ao tema posteriormente, mas é porque não é simplesmente pegar e traduzir. Tem trâmites legais, problemas com gráficas, questões com distribuidores, mil coisas. Posso garantir que não vai sair em fevereiro porque a editora é preguiçosa e sádica, mas porque coisas atrasam. Agora, se começar a atrasar DEMAIS, são outros 500, mas atraso de um mês ou dois é até o esperado quando anunciam data de livro…

  18. felps says:

    sinceramente, eu li o primeiro livro de cabo a rabo e não notei nada de errado

  19. felps says:

    ( continuando, dei um enter sem querer ;p)

    não notei nada que atrapalhasse minha leitura, merito da estoria imagino.

  20. Wilson says:

    É bom saber que algumas editoras se importam com nosso julgamento, até porque como fãs da série merecemos o respeito adequado.
    Isso me lembra de quando a Record queria mudar a capa do livro “Crônicas Saxônicas” por alegar que era muito cara, para a sorte de quem coleciona, eles mudaram de idéia e isso graças aos fãs.
    Parabéns pela iniciativa!!!

  21. João Paulo says:

    Cara, obrigado mesmo por tu ter posto a mão na massa e feito todo o “auê” a respeito da tradução! Sério mesmo, valeu ao extremo.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Valeu! 🙂

      A gente tem de tomar a atitude por nós mesmos, se formos esperar alguém tomar a iniciativa…

  22. sergio leitão says:

    pois é, estou lendo o segundo livro, a furia dos reis, e absolutamente envolvido na trama!! o livro vai me deixar assim por muito tempo, pois a série é grande!!
    que venham os outros livros!!!! parabéns!

  23. MArcelo says:

    Po , me responde uma coisa.
    Eu comprei o meu livro A guerra dos tronos, agora, em abril. Vi voce reclamando da tradução dando como exemplo o lema Stark, que no livro é o Inverno está a chegar.
    Mas aqui no meu O lema é O inverno está para chegar, e n tem expressões claramente de Portugal. O que me leva a pensar que dps das reclamações a editora reviu a publicação na reposição dos livros nas livrarias.
    Sabe, se isso aconteceu de fato?

    • Ana Carolina Silveira says:

      Sempre é possível, apesar de eu achar improvável. Quem sabe? Tem de dar uma folheada e ver se algo mudou de uma impressão para outra…

    • Rita de Cássia .L says:

      Ah e no meu livro está assim como o seu e de excelente compreensão , pode ser mesmo que alguns foram então “modificados” pelo que vi o pessoal reclamando eu tenho sorte então rsrs

  24. Pingback: Game of Thrones – o seriado – HBO | Leitura Escrita

  25. Rita de Cássia .L says:

    Oi eu Queria saber quando a série vai começar a passar aqui no Brasil, algum de vocês sabem e podem me avisar por favor?

  26. Rafael de Queiroz says:

    O marcelo está certo Carol, explico:
    No sábado 23/04 procurei o livro, a guerra dos tronos, em várias livrarias grandes de Fortaleza, como Cultura e Saraiva, e estava em falta. Alegaram que o livro chegaria essa semana. Até que achei na Siciliano vários livros novinhos, ainda no plástico.
    Eu não sabia destes “erros” na tradução, acabei de descobrir. O fato é que meu livro é a 2ª reimpressão! Estou na página 157 e aparentemente está tudo em português-BR, inclusive o lema dos Stark é “o inverno está para chegar”!
    Quando tiver um tempo vai em uma livraria, procura essa 2ª reimpressão e confere as mudanças.
    Obrigado e parabéns pelo trabalho, acabo de descobrir que fui beneficiado pelo seu post!

    • Ana Carolina Silveira says:

      Então, acho improvável, e se houvesse havido a mudança, não seria nem mesmo “o inverno está para chegar”, mas “o inverno está chegando”.

      Enfim, é bom saber que já está na segunda reimpressão e quero crer que houveram mudanças mais profundas. Mas o livro tá lá, apesar das palavras *diferentes* tá tranquilo de ler, mas espero que tenham aprendido a lição para o resto da série.

      É isso!

  27. Ricardo Brandão says:

    O 3o livro dá série, ” A tormenta de Espadas” já tem previsão para lançamento aqui no brasil? Acho que se for demorar muito n vou aguentar e comprar o de Portugal mesm rs.

  28. Pingback: A Game of Thrones | Comic City

  29. Vicente Brison says:

    Bom, em primeiro lugar, meus parabéns ao blog. Encontrei-o justamente ao procurar o nome de Candeias, que desconhecia, e fiquei surpreso ao ver que era um português que traduzira o livro para a Terra Brasilis. E não precisei ler mais de duas páginas do Prólogo para constatar que eu tinha algo de muito estranho em mãos. Tendo lido sua entry sobre o primeiro livro, constatei o que já suspeitava.

    Ainda me resta centenas de páginas de leitura, visto que acabo de comprar o livro, mas minha postura já é outra, muito menos entusiástica. É uma pena, mas já percebo que terei que comprar o original também, o que devia ter feito desde o início. Resta torcer para que o segundo livro (que vi na mesma livraria em que comprei o exemplar em mãos mas resisti e não comprei) seja realmente uma obra mais trabalhada.

    Lamento informar que nem nessa “segunda reimpressão” do primeiro livro a LeYa fez as adaptações que os leitores merecem, em um português fluido e não apenas gramaticalmente correto. Aproveitando o “traduttori traditori” que você já mencionou, o que buscamos nas traduções é que sejam “belles infidèles”.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Nossa, irretocável o comentário. Sério. Não há o que falar, é por comentários assim que o blog vale a pena. 🙂

  30. Raphael says:

    Como detesto ser injusto e primo pela verdade, ou pelo menos apurar ao máximo que somos capazes. Coloco um texto muito interessante realizado pelo próprio tradutor da obra para português. O texto pode ser encontrado no blog pessoal dele http://lampadamagica.blogspot.com/2010/08/sobre-traducao-de-martin-no-brasil-o.html

    Título: Sobre a tradução de Martin no Brasil: o processo

    Bom. Vamos lá então falar por extenso sobre este assunto.
    Para quem não está por dentro dele, aqui fica um resumo: A Leya vai publicar no Brasil a série As Crónicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin. Para esse efeito comprou a minha tradução à Saída de Emergência e adaptou-a ao português brasileiro. Eu soube que era eu o tradutor da edição brasileira ao mesmo tempo do público brasileiro, através duma mensagem no twitter que remetia para a divulgação dos primeiros capítulos da edição brasileira no site Omelete. Quem estiver interessado, pode obter esse PDF aqui. Reagi, como se compreenderá, com completa estupefação.

    Houve, claro, uma falha de comunicação entre mim e a SdE, mas entretanto a comunicação fez-se, conversámos e o problema está resolvido a contento. Infelizmente, não foi essa a única falha de comunicação que existiu em todo este processo. Houve outra falha de comunicação com consequências mais sérias para a qualidade final do trabalho, entre mim e a própria Leya.

    Parece ser razoavelmente consensual entre os leitores portugueses que a minha tradução destes primeiros livros da série do Martin não é má. Tem até havido quem a tenha apelidado de excelente ou fantástica. Alegra-me que assim seja, mas tenho de confessar aqui com toda a clareza que não partilho do entusiasmo. A Guerra dos Tronos foi apenas o quarto livro que traduzi de fio a pavio na minha carreira. Hoje, três anos e meio mais tarde, sou um tradutor diferente, muito mais experiente, que olha para o trabalho que fez nessa época e não consegue evitar torcer de vez em quando o nariz. Cometi alguns erros por inexperiência. Se a Leya tivesse comunicado comigo, esses erros poderiam ter sido corrigidos na edição brasileira. Infelizmente não o fez. Cometi outros, em especial nos topónimos, por não ter lido toda a série antes de começar a traduzir o primeiro livro e por isso não saber ao certo qual a origem deste ou daquele nome. Agora, já a li. Se a Leya tivesse contactado comigo, esses erros poderiam ter sido corrigidos na edição brasileira. Infelizmente não o fez.

    Depois há a questão da adaptação ao português brasileiro. Também aqui, a falta de comunicação foi total mas não devia ter sido. O trabalho ficaria muito melhor se tradutor e adaptador tivessem estado em contacto permanente. Ter-se-iam evitado erros, ter-se-iam evitado opções que desvirtuam algumas das coisas que considero melhor conseguidas na minha tradução. Mas infelizmente, tradutor e adaptador não contactaram nem por uma vez ao longo de todo este processo. E o resultado deixa-me perplexo.

    Não percebo, por exemplo, por que motivo se adaptaram algumas coisas e não se adaptaram outras. Não percebo porque “A minha mãe disse-me que os mortos não cantam” é transformado em “Minha mãe disse-me que os mortos não cantam” e não em “Minha mãe me falou que os mortos não cantam” ou pelo menos “Minha mãe me disse que os mortos não cantam”, que soa bem mais natural aos ouvidos brasileiros. É uma questão de registos de linguagem. Quem fala é um homem humilde que deve falar como pessoa humilde. Também não percebo porque foi “E a noite está a cair” adaptado para “E a noite está para cair” e não para “E a noite está caindo”, que seria mais correto porque o “a cair” comum no português de Portugal se refere a algo que está a acontecer no presente, tal como o gerúndio que se prefere usar no do Brasil, e não ao futuro próximo que está implícito em “para cair”.

    E é mais do que incómodo aquilo que sinto por adaptações erradas que desvirtuam o próprio significado do texto, como a transformação de “Estava há quatro anos na Muralha. Da primeira vez que fora enviado para lá dela” em “Estava havia quatro anos na Muralha. Da primeira vez que fora enviado para lá”. Ser-se enviado para lá de qualquer coisa significa ser-se enviado para além dessa coisa, para os territórios que se estendem do outro lado; ser-se enviado para “lá”, sem mais, é ser-se enviado para a própria coisa. A personagem, aqui, reflete sobre as suas primeiras patrulhas pela floresta assombrada, mas a adaptação brasileira faz com que reflita sobre a própria Muralha.

    Também não percebo porque em “Aposto que foi ele próprio quem as matou a todas, ah pois aposto” a única adaptação foi a remoção do “a” de “a todas”, mantendo o “ah pois” que é usado (exageradíssimamente, diga-se) pelos brasileiros como sinal inconfundível de identificação do português de Portugal. Trata-se uma fala, de outra personagem de origem humilde, ainda que na recordação do protagonista deste capítulo. Se eu tivesse sido consultado, teria sugerido algo como “aposto que foi ele mesmo quem as matou a todas, aposto sim”. Mas não fui. E, no sentido inverso, não consigo perceber porque “Alguma vez vistes uma tempestade de gelo, senhor?” foi transformado em “Alguma vez viu uma tempestade de gelo, senhor?” Ao contrário do que alguns brasileiros possam pensar, o uso da segunda pessoa do plural não é português de Portugal padrão; é a forma que encontrei para, por um lado, ampliar a minha escolha de formas de tratamento e níveis de linguagem e melhor separar o que é formal e respeitoso do que é informal e, por outro, melhor inserir as personagens num ambiente antiquado e respeitar o texto do autor.

    Sim porque, ao contrário do que tem sido dito por aí, Martin utiliza estruturas fraseológicas e algum léxico arcaicos. Surgem com alguma frequência ao longo das Crónicas palavras que nem sequer vêm nos dicionários (tive mesmo de o consultar um par de vezes sobre o significado de algumas delas) e com mais frequência ainda surgem palavras que aparecem nos dicionários mas antecedidas da notazinha “arc.” Ele próprio me disse, quando esteve em Portugal há um par de anos, que só não utiliza mais desse tipo de coisas porque o editor não deixa. O texto dele está salpicado de arcaísmos, e o uso de “vós” no texto português foi uma das formas que encontrei para respeitar esses salpicos. Para a generalidade dos leitores portugueses, esse uso é precisamente tão estranho como para a generalidade dos leitores brasileiros. A exceção é uma zona dialectal do Norte do país, perto da fronteira com a Galiza, onde a segunda pessoa do plural ainda é de uso corrente. São talvez 5% dos portugueses. Para os outros, não é nada que estejam habituados a encontrar, mas nenhum deles se queixou de que isso prejudicava a fluidez do texto. No máximo, exigiu-lhes umas páginas de adaptação. As mesmas, suponho, que os arcaísmos do Martin terão exigido aos leitores anglófonos. Por isso custa-me mesmo muito a aceitar que a adaptação ao português do Brasil destrua este aspeto da tradução. Quem sabe, se tivesse havido comunicação talvez não destruísse.

    E chega. Tudo isto aparece nas primeiras duas páginas. Não vale a pena dizer mais.

    Um trabalho deste género exigiria um contacto e colaboração estreitos entre tradutor e adaptador, que infelizmente não existiu. Não sei porquê, nem me vou pôr a especular. Mas não posso estar contente com o resultado final tal como aparece no PDF que foi disponibilizado. Esta, embora seja a minha tradução, não é a minha tradução.

    E é isto o que tenho a dizer sobre este assunto em concreto. Ainda tenho mais umas ideias gerais sobre a questão das traduções únicas entre países (e portanto mercados) e dialetos diferentes, mas isso ficará para mais tarde, porque são ideias que tenho vindo a desenvolver ao longo de anos e com maior premência durante a recente discussão à volta do acordo ortográfico, portanto a única coisa que têm a ver com este assunto é o facto de eu ter sido tocado diretamente por um caso destes. Por ter sido tocado diretamente por um caso destes, farei um post sobre esses assuntos em breve, mas porque eles não têm diretamente a ver com a tradução concreta que aqui se discute, acho aconselhável separar as coisas.”

    Alguém já tinha lido isto?
    Espero que muitos aqueçam as discussões pois “Winter is coming!”.

    • Sim 🙂 O link para esse post dele está no post “Guerra dos Tronos: Tradução, Lançamento e Crítica”, tem o link para ele nos mais acessados do blog ali do lado 🙂

      • Antonio Marcos says:

        Ah pessoal, o q é isso!
        Eu tava querendo compra a versão de portugal…
        dai saiu este que já ta bom…

        Pra mim ficou perfeito… rsrs

      • É que para mim e para muitos aqui gostamos de pagar por qualidade, não achamos que editoras façam favores em publicar… 🙂

  31. Pingback: Lançamento: A Tormenta de Espadas – George R. R. Martin | Leitura Escrita

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