Revisitando a Disney – O Corcunda de Notre Dame

Não seria muita pretensão dizer que todos os meus leitores tiveram uma infância Disney. Meu pai, criança de roça, lia avidamente as histórias do Tio Patinhas nas décadas de 50 e 60 – e até minha avó, que era de uma cidadezinha do interior e acabara de se mudar pra Belo Horizonte assistiu Branca de Neve e os Sete Anões quando criança.  Eu, nascida no início da retomada da animação da Disney (e me lembro com carinho quando ganhei minha fita da Cinderela com cinco anos de idade – eu e minha mãe cantávamos todas as músicas juntas e cantamos até hoje :P) e de assistir religiosamente nos cinemas o Grande Lançamento de Julho.

Só que os anos passam, o interesse cai – e a entressafra de bons filmes Disney veio justamente na minha pré-adolescência e naquela fase de “não gosto mais dessas coisas de criança!” – e, posteriormente, seja por saudosismo, porque há crianças novas na família ou porque está passando na televisão mesmo chega a hora de rever os filmes. E, por que não, já mais madura tanto em idade quanto em apreciação de narrativas em geral.

Daí vem a ideia de revisitar clássicos Disney e observar hoje em dia camadas de narrativa que não foram feitas para crianças entenderem. Em alguns casos, só algumas piadas de “bônus parental” é que saltam aos olhos depois do amadurecimento (não vejo em Hércules hoje nada muito diferente do que via aos doze ou aos dezoito anos, p. ex., ou mesmo em Alladin ou nas princesas mais antigas), em outros dá para descobrir algumas camadas de subtexto que uma criança não enxerga (A Bela e A Fera é o exemplo mais óbvio disso) e há também a possibilidade da compreensão da obra mudar totalmente.

Então vamos ao caso onde isso aconteceu comigo: O Corcunda de Notre Dame.

O filme foi lançado em 1996 e é um dos três mais sombrios da Disney, junto com O Caldeirão Mágico (aposto com 90% de chances de acerto que você nunca tinha ouvido falar no filme apócrifo do cânon dos longas de animação da Disney até o presente momento :D) e A Bela Adormecida. São filmes não apenas com temática mais sombria, mas que abusam de tons escuros e da falta de luminosidade para reforçarem seu ponto.

Aos 10 anos de idade, quando fui ver o filme no cinema, não gostei. Talvez a falta de personagens alegres, saltitantes e fofinhos tenha me incomodado, ou uma mocinha bem atípica, ou um enredo que nada tem de mágico ou engraçado. Minha avó comprou a fita de vídeo para que víssemos nas férias enquanto estivéssemos em sua casa, mas via pouco e pouco me interessei. Não era o melhor exemplo de “filme Disney” para mim, que a essas alturas quase já tinha furado a fita do Alladin ou d’A Bela e a Fera.

Enfim, alguns poucos anos atrás, uns dois ou três, o filme passou na TV. Parei para assistir e a experiência foi muito diferente da primeira impressão – achei que minhas lembranças não faziam justiça ao filme. E dia desses resolvi rever o filme. Qual não foi minha surpresa com o que encontrei ali.

Para quem não sabe, o filme é adaptado do livro Notre Dame de Paris, clássico de Victor Hugo (só para lembrar os estudos de literatura do colégio: ninguém espera que um autor da terceira fase do romantismo – a da crítica social – faça uma história cheia de carneirinhos felpudos, né) e narra a história da catedral, além de alguns personagens: Quasímodo, o corcunda deformado fisicamente e sineiro da catedral; Esmeralda, a bela cigana por quem Quasímodo se apaixona da forma mais pura possível e Claude Frollo, o ábade que criou Quasímodo e que torna Esmeralda objeto de sua obsessão. Isso não pode – e nem vai – acabar bem.

Claro que estamos falando de uma adaptação Disney, então temos um final feliz (e para fins de adaptação as personalidades são totalmente alteradas) mas o cerne continua lá: em Paris, na segunda metade do século XV, o juiz Frollo persegue os ciganos e em um belo dia termina por matar uma jovem que fugia com seu bebê. O pároco, testemunha da cena, impede que ele atire a criança em um poço e ordena que ele a crie, como punição pelo sangue inocente derramado. A criança, deformada, é criada no interior da catedral de Notre Dame e é chamada de Quasímodo.

Um dia, vinte anos depois, o gentil corcunda, cansado de apenas assistir ao Festival dos Tolos do alto de sua torre, desobedece seu mestre e vai se misturar às pessoas que vê viverem suas vidas. E é aí que a história começa…

…bem como a certeza de que estamos diante de um filme da Disney totalmente fora da curva.

Quasímodo primeiro é integrado à festa até que sua identidade é revelada e ele passa por uma pequena humilhação e tortura públicas. Claro, quando eu tinha 10 anos ver essa cena não deve ter me deixado muito feliz…

E temos também Esmeralda, que tínhamos conhecido alguns minutos antes e percebido se tratar de uma moça esperta que sabe sobreviver nas ruas perigosas de Paris. No Festival dos Tolos ela apresenta a todos sua bela dança e… talvez por sua personalidade contestadora, resolve seduzir o grande vilão da trama e com isso constrangê-lo. E… bem, não sei se é a dança Disney padrão, decidam:

Daí continuamos acompanhando a história de uma anti-heroína rebelde que se põe em perigo para questionar a tirania de Frollo, do ingênuo (no melhor sentido da palavra) Quasímodo que acaba apaixonando-se por Esmeralda e ajudando-a a manter-se viva e em liberdade, do cavaleiro-numa-armadura-bilhante Phebo, altruísta desde o primeiro momento que entra em cena e que assim permanece até o fim do filme (ele salva Esmeralda e é gentil com Quasímodo gratuitamente, assim como arrisca o pescoço sem hesitar algumas vezes pelo bem de outras pessoas).

Bom lembrar também que os ciganos e outros párias sociais de Paris não são retratados como coitadinhos cor-de-rosa. São povo oprimido, sim, mas os cidadãos não hesitam em torturar o sineiro e os ciganos também não tem pudores ao eliminar o que julgam ser uma ameaça. Um exemplo disso é Clopin, o arlequim que apresenta a trama – de narrador e provável personagem humorístico para uma peça perigosa no transcorrer da história, que não vai ter pudores em deixar um inocente ser humilhado publicamente ou tentar matar, com certo prazer sádico, aqueles que vê como ameaça.

E, claro, o mais cruel – e mais humano – vilão Disney: Claude Frollo, o juiz que via o mal em tudo, menos em si mesmo, e que deseja possuir (no sentido mais carnal possível) Esmeralda – nem que tenha de incendiar a cidade para isso. Ele não tem nenhuma sede de poder – é a própria autoridade opressora, para que mais poder do que isso? – ou ganas de derrubar alguém, apesar de claramente xenófobo, como demonstra desde o começo da trama – mas sua vilania atinge o limiar da loucura graças à bela Esmeralda, criatura que deseja, mas também sente asco – afinal, apesar de bela e provocativa, ainda é, para ele, uma bruxa.  Além disso, com o perdão do pequeno spoiler, é um dos vilões com a mais assustadora “morte Disney” – o próprio demônio vem buscá-lo por suas vilanias.

E lá vai a talvez mais assustadora música do vilão da Disney, tanto pelo vídeo quanto pela letra. Uma oração pedindo para que uma mulher se entregue a um homem – ou seja assassinada, caso se recuse.

Não há criaturas fofinhas e saltitantes – os mascotes da vez são gárgulas que nada tem de bonitinhas ou criaturas mágicas. Na verdade, é um dos desenhos menos mágicos da Disney – e se você entender que as gárgulas são amigos imaginários do solitário Quasímodo, interpretação MUITO plausível dentro do contexto(apesar de que o cabritinho e alguns guardas discordarão :P), vai concluir que não há magia alguma no filme inteiro. A trama se baseia em escolhas e orientações morais humanas, sem nenhum elemento sobrenatural incluso – e aqui a realidade é muto mais cinzentas do que nos outros clássicos Disney, as pessoas podem ser cruéis, malvadas e manipuladoras sem serem necessariamente vilãs.

Além disso, é um desenho sem uma “moral da história”, apesar da vitória dos mocinhos éticos contra o vilão opressor e assassino. Dá para encontrar lá no meio uma mensagem de tolerância ao diferente, mas ao contrário d’A Bela e a Fera, que glorificava a beleza interior, a questão aqui talvez seja o outro lado da moeda: o que torna o homem um monstro não é o rosto, mas o caráter.

Enfim, é o mais adulto dos clássicos Disney e que VALE a pena ser revisto, principalmente como adaptação que apesar de suavizada, amplia, renova e faz justiça à obra original.

***

Quer aproveitar a onda de nostalgia e rever o filme? Então compre-o! (Submarino – DVD)

***

Pros leitores que eram crianças quando o filme foi lançado: vocês gostaram na época? Só para curiosidade estatística mesmo 🙂

Até a próxima! Espero que seja em muito breve!

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28 Responses to Revisitando a Disney – O Corcunda de Notre Dame

  1. Eu gostei, embora não tenha amado. Só ficava com nervoso na cena da tortura.
    Sempre gostei da música do Frollo. E cara, o Quasímodo Disney é o menino todo deformado mais fofo ever. u_u

  2. Nossa, amo Corcunda de Notre Dame desde pequena. Era o meu desenho da Disney favorito junto com Rei Leão (que é outro desenho com um ótimo vilão)! E a música do Frollo assim como a música que os ciganos cantam no pátio dos milagres são ótimas!
    As princesas são sempre um assunto delicado. Tem gente que ama, tem gente que odeia, eu as acho chatinhas… A única que gosto não é da Disney: Anastacia. =]

  3. Bruno says:

    Claro que eu também tenho muitos clássicos da Disney muito bem guardados no meu baú de recordações (A Bela e A Fera, Alladin, O Rei Leão…) =P Esse especificamente, no entanto, acho que eu não vi. Mas é de se esperar também que tenha um tom um pouco diferente de outros filmes do estúdio – afinal, não é baseado em algum conto de fadas, mas em uma obra de literatura romântica bem adulta no original, né =P Até imagino o porre que os roteiristas tiveram que dar no diretor do estúdio pra ele autorizar a produção, heheheh.

  4. Lucas Rocha says:

    O seu post me deu uns calafrios à medida que eu lia. Compartilho totalmente de seu sentimento: O Corcunda de Notre Dame nunca foi um dos meus filmes Disney preferidos – eu só tinha olhos para o Rei Leão e nada mais -, mas quando envelheci e revi o filme, tive sensações e sentimentos muito diferentes. O filme é extremamente triste, sombrio e solitário: o personagem principal não é um príncipe, mas uma criatura disforme que teve a mãe assassinada e é criada por um juiz enlouquecido e vaidoso. Percer as camadas e o subtexto soturno do filme só me faz ter mais admiração pelo trabalho da Disney, que sempre considerei excepcional.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Aí que tá: no caso do Corcunda (e consigo aqui pensar agora n’O Rei Leão e na Pocahontas como outros exemplos), não é nem questão de subtexto: o mundo adulto e seus dilemas estão na primeira camada, a trama principal parte deles e gira por eles. Claro que quando somos crianças a gente enxerga outras coisas, como os bichinhos falantes e as musiquinhas, mas a trama principal sempre foi mais “forte”.

      E sim: o Quasímodo NÃO é um príncipe, NÃO beija a mocinha e infelizmente NUNCA vai ser plenamente aceito. E assim o filme se encerra, um final feliz Disney (os finalmentes do filme são muito fofos), mas ainda assim agridoce…

  5. Confesso que o filme na época do lançamento nem me despertou interesse, aí foi passando o tempo e eu nunca assisti. Quem sabe um dia desses…

  6. Rafael Tinoco says:

    Eu vi quando era moleque, achei legal mas sem dar muita importancia. Não é mesmo um filme para crianças e ao mesmo tempo é (nossa ironico isso) . A tematica dele é bem parecida com wall-e, criança ve , acha legal mas quem se diverte mais e entende melhor a historia são os adultos(eu chorei com wall-e mas naum tando como o UP! q chorei do inicio ao fim ç.ç)

    e EU VI CALDERÃO NEGRO NA MINHA INFANCIA o.ov. Teve uma epoca que estava passando direto nas manhas de sabado da globo

    • Ana Carolina Silveira says:

      Pois é, a criança diverte porque é coloridinho, porque tem um subtexto de valor da amizade,, tem um bem-versus-mal, tem uma coisa compreensível pra criança tb. (e não vi Wall-E, falha mortal – e Up! é lindo e triste, a segunda animação a concorrer ao oscar de melhor filme, se ganhasse ia ser merecido)

      AHUAUHAHUUHAHUAHUAHUHAU pior que vacilei demais, um dia vi o DVD desse filme pra vender mas tava sem grana, foi uma vez e nunca mais!

      • Rafael Tinoco says:

        COMO ASSIM NÃO VIU WALL-E?????

        pecado mesmo u.u

        agora mudando de assunto o teaser da Guerra dos Tronos

        simplismente EPICO

      • Ana Carolina Silveira says:

        Nossa, eu ARREPIEI nesse trailer inteirinho, ainda mais pq tem o Jon no Iron Throne e dos outros, um deles vai ser rei no fim das contas

  7. Suely Ramos says:

    Concordo com você e adorei seus comentários. Sempre fui uma fã da Disney. Assisti e assisto muitos dos seus filmes. A Disney permenece no imaginário de muitos de nós, seus filmes trazem fantasias, sonhos, mas também podem, como no caso do no caso do Corcunda e outros filmes, trazer conteúdos sociais, com uma dosagem perfeita para permitir diversão às crianças e aos adultos, assim como, para os mais crescidinhos, uma boa dose de reflexão. Assim como cantei as canções dos filmes Disney com minha filhinha, espero poder cantá-las algum dia com meus netinhos, quem sabe? 🙂

  8. Bom, o Clopin do filme foi a maior inspiração para eu compor o protagonista do meu livro “O Jogo do Equilíbrio”, Cyprien de Pwilrie. Ele já existia antes do desenho, mas se o desenhasse na época sairia parecido com o Iznogud.

    O Corcunda é uma das melhores coisas que a Disney já fez. Realmente mudou a personalidade de alguns (e desapareceu com o Pierre Gringoire e o Jean du Moulin) e tem lá sua moral da história, mas é muito bom mesmo e tem uma trilha sonora DKCT. Depois houve uma continuação, onde o Quasi inclusive arranjou uma namorada (que era bonita e não era cega!), mas ficou bem aquém do primeiro, como costuma acontecer.

    Boa resenha a de vocês, parabéns!

  9. Pingback: Domingueiras « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  10. O nome em português é “O Caldeirão Mágico”.

  11. Ítalo Marques de Oliveira says:

    O Corcunda de Notre Dame me encanta desde quando foi lançado! Eu tinha um ano na época e era um grande apreciador dos filmes Disney! Até hoje sou louco pelo filme! Aluguei o dvd inúmeras vezes até que achei ele e comprei! É meio SINISTRO, mas o bom é isso, a historinha do mocinho q fica com a mocinha depois de derrotar o vilão, bem, digamos que se a Disney continuar sempre à base desse enredo, vai enjoar! O filme passa uma importante lição de vida e é imortalizado sempre que alguém se recorda da sua existência!

  12. Pingback: Retrospectiva 2011 « Leitura Escrita

  13. Acabo de rever o filme com meu filho. Concordo em tudo com o que escreveu e a história me toca demais em função do realismo do filme.

  14. Camilla Melo says:

    Tinha uma coleção de fitas da Disney, meu pai gostava muito do Corcunda, e quando criança assisti com ele e tbm gostei bastante, mesmo sem entender como hj q tenho 18 anos.Achava
    Esmeralda linda e queria ser igual a ela rsrs Era um dos meu filmes favoritos, repeti muito a fita, como a do Caldeirão Mágico(que nem todos conhecem). Mas é incrível revê-lo e poder entender a história ”direito”, super tocante e real

  15. Pingback: Frozen: Uma Aventura Congelante – Disney | Leitura Escrita

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