Retrospectiva 2010

2010 está apagando suas últimas luzes e está na hora de fazer o balanço do ano. É um bom momento para pensar em tudo o que construímos nos últimos 12 meses, revisamos o que poderíamos fazer de melhor.

Então… Por que não dar uma revisitada nos livros lidos ao longo do ano? 🙂

Cá vão os resenhados e os não-resenhados com comentários:

Os Filhos de Húrin – J. R. R. Tolkien -> O primeiro livro do ano, presente de Natal ^^ Ler Tolkien é reencontrar-me com velhos amigos que não  vejo há muito tempo mas sinto carinho e saudades. Os Filhos de Húrin é uma narrativa, dentro da Terra Média, de duas vidas amaldiçoadas e fadadas, inexoravelmente, à tragédia. Não é uma trama inédita e nunca contada, nem no universo do autor e muito menos em relação às tragédias gregas,  mas vê-la narrada pelo Tolkien é uma experiência única. Recomendado.

Azincourt – Bernard Cornwell

Eragon – Christopher Paolini

Eldest – Christopher Paolini -> No quesito originalidade, BEM MELHOR, um salto qualitativo de 1000% em relação ao Eragon. Parece que só aqui o Paolini começa a contar a SUA história, no SEU mundo e com OS SEUS personagens. Claro, ele não está isento de clichês, lugares comuns e decisões fáceis, mas já deu uma melhorada boa do livro anterior. Um ponto alto do livro foi a cultura ateísta dos elfos – que é até bem montada, bem contada e não soa proselitista. Mas achei o livro em geral meio cansativo e arrastado, tanto que terminei saturada e não consegui sair do primeiro capítulo de Brisingr, o próximo da série.

Metamorfoses – Ovídio*

Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário – Vários

O Ladrão de Raios –  Rick Riordan

Para Sempre – Alyson Noel -> Não achei que esse livro valesse uma crítica. Na verdade, o comprei só porque, ao ler a sinopse, achei muito parecida com a de um rascunho com o qual estava trabalhando.  Li para ver se tinha alguma coisa a ver com minha história e não tinha nada, graças a Deus. A história em si é uma mistura de Crepúsculo com aquele mangá clássico Mai A Garota Sensitiva, está cheia de clichês, quer pagar de moderninha e vai perder metade das referências em menos de cinco anos.  O romance entre os protagonistas é morno (já que também é meio difícil criar empatia com a protagonista, apesar da vida sofrida), a trama está cheia de personagens chatos (especialmente a irmãzinha da protagonista – sendo que a própria e o namoradinho da vez não escapam muito da chatice não) e a autora joga uma tsunami de esoterismo no final, que ficaria melhor diluído ao longo do livro. Ela acabou me surpreendendo sobre a identidade do mocinho (qual criatura mística ele era, no caso, pensei que fosse um demônio pelo nome do personagem e atos), o que é um ponto positivo ainda mais se eu pensar retrospectivamente depois de ter lido Fallen. A trama é até criativa, mas não gostei da execução e não tive curiosidade para ler os próximos livros da série.

Conan: o Cimério – Volume I – Robert Howard -> NÃO TEM COMO falar de fantasia moderna e contemporânea sem falar dos pulps e sem falar de Robert Howard e H. P. Lovecraft. O Conan, ainda mais, é personagem que ganhou vida própria, como personagem de quadrinhos, filmes e da cultura popular em geral. Como separar então o personagem moldado pelo tempo à sua forma original pensada pelo autor? Essa coletânea (cujos volumes lançados no Brasil foram apenas os dois primeiros) organiza, de forma mais ou menos cronológica, os escritos de Robert Howard. O ambiente da Era Hiboriana, de uma antiguidade estilizada e ao mesmo tempo atávica, é bem divertido. A primeira história de Conan, ao contrário do que se pode imaginar, não é de um garoto descobrindo seus poderes, mas a de um velho governante que relembra seus dias de guerreiro. As garotas seminuas que acabarão nos braços do herói, que mata primeiro e pergunta depois, vão sendo acrescentadas aos poucos e toda a mitologia que passa em nossa cabeça assim que pensamos no nome “Conan” também se delineia aos poucos. Não falei do livro aqui porque ainda quero fazer um post ESPECIAL sobre os pulps algum dia, mas talvez também volte ao assunto quando tomar vergonha e ler o Volume II.

Memórias de uma Gueixa – Arthur Golden -> A jornada do herói aplicada num contexto não-épico. Leia esse livro com a tabelinha do Campbell do lado e vá marcando quais passos o autor seguiu. Isso é ruim? Não necessariamente. É, como o nome sugere, a história de uma gueixa, a ascensão da pequena Sayuri de menor pobre e abandonada a grande estrela do bairro dos prazeres e toda a trilha que fez para chegar até ali: a fome, as humilhações, o aprendizado da arte do entretenimento, sozinha e com a sua mentora, as disputas com as rivais e a chegada ao trono máximo. É difícil encontrar um paralelo entre uma gueixa e alguma figura ocidental: ela é uma artista treinada para o entretenimento – música, dança e conversas agradáveis (e só muito eventualmente pode acontecer envolvimento sexual entre ela e seu cliente: muito mais parecido com o paciente e a dentista acabam tendo um caso do que a relação entre um cliente e uma prostituta). É uma figura que me fascina desde criança e foi um prazer ler esse romance que se passa em seu mundo (nem sempre) mágico e colorido. E é sempre bom variar um pouco de cenário e temática. Acho que estava muito apertada de serviço na época em que li esse livro, porque vale uma resenha completa e detalhada.

Elite da Tropa – Vários -> Um livro de não-ficção que virou best-seller e serviu de base para um dos filmes nacionais mais legais já feitos. É a história, romanceada, porém recheada de realidade em todos os caracteres, do BOPE, a tropa de elite da PM do Rio de Janeiro. É um livro para refletir sobre a dureza do trabalho da polícia, da guerra urbana de todo o dia e sobre o quanto as coisas não são o preto-no-branco que nos fazem querer crer que sejam. É um pouco sobre o quanto, no mundo real, não existem “mocinhos versus bandidos” – a coisa é muito, muito mais complexa. E nós temos de ficar afiados e atentos para evitarmos soluções simples ou mesmo cair em discursos demagógicos que brotam como cataporas, ainda mais em épocas de crises, como a invasão do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, que todos pudemos ver ao vivo pela TV. Recomendado, ao menos como introdução sobre o tema.

Mar de Monstros, A Maldição do Titã, A Batalha do Labirinto – Rick Riordan -> Continuei lendo as aventuras de Percy Jackson. O segundo livro, Mar de Monstros, traz alguns personagens novos, o Acampamento Meio-Sangue e seus habitantes são melhor delineados e Percy cai de cabeça no mundo mitológico-contemporâneo atrás de seu rival Luke.  A ironia continua afiadíssima, assim como a adequação dos personagens ao mundo. Já no terceiro e no quarto livro, achei que o autor acabou perdendo um pouco a mão, não sendo mais tão irônico, e também deixando apra trás personagens (como o Grover), jogando na história outros (ODIEI a apresentação da Rachel, é aula de “como forçar um personagem numa trama”. Gostei MUITO do Nico e de sua irmã (e ele me lembra de alguma forma muito transversa o protagonista de Shaman King), que balanceiam um pouco mais as coisas (e tiram Hades do triste papel de “deus malvadão capetão dos infernos”). A série é bem divertida, mas achei que deu uma caída nos volumes 3 e 4. A ironia do narrador, meu elemento predileto da série, fica menos aguçada e o autor cede à tentação das soluções fáceis. Entra naquela coisa da pressão editorial de publicar um livro por ano, mas a série segue divertida, em especial se lida de uma só vez, como foi aqui. Ficou faltando  o quinto livro.

Melancia – Marian Keyes -> O pior livro do ano. Deixa colar aqui as considerações que fiz no Skoob:

Ninguém lê chicklit esperando uma história inédita e surpreendente (se por um acaso acontecer é lucro), então o fato da história ser previsível é o menor dos problemas.
A premissa é até interessante, da moça que é abandonada no dia do nascimento de sua filha e, passado o choque inicial, precisa se esforçar pra seguir em frente.
O começo é chatíssimo. Bem arrastado e enjoado mesmo.
Quando a Claire afirma que não amamentava a filha porque não queria deformar os seios, tive vontade de atirar o livro na parede, por mais que algumas mulheres tenham mesmo esse tipo de pensamento egoísta.
Continuei lendo e a história se tornou melhor e ágil quando Adam apareceu – rendeu momentos de boa diversão.
Mas achei que a autora se perdeu no final. Tudo bem que o ex-marido quisesse chantagear a Claire emocionalmente para ela voltar, mas ela foi tão completamente idiota em sua reação que ficou inconsistente com ela mesma e com a realidade onde ela vive. O final, inclusive a virada de Claire, ficou corrido e mal explicado, meio que feito às pressas, não sei”.
Confesso que só li o livro até o fim para ver até onde a autora conseguiria afundar em ruindade. Mas pelo menos é um dos chick-lits mais comentados e lidos e eu vi por onde a história se passava, né?

Annabel e Sarah – Jim Anotsu

Orgulho e Preconceito e Zumbis – Seth Grahame-Smith -> O livro é engraçadíssimo. Mas tão engraçado, tão engraçado, TÃO engraçado que o humor cansa. Larguei o livro pela metade porque cansei da piada =/ Até onde li, o precursor da onda de mashups literários é um achado: misturar Jane Austen e zumbis. E a situação fica totalmente insólita à medida em que a obra avança: temos cinco irmãs que desejam se casar e o embate entre os orgulhosos Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, mas tudo isso regado a um combate zumbi, técnicas ninja e até mesmo um dojo. Uma pena eu não ter dado conta de ler…

American Gods – Neil Gaiman

A Noite Triste – Frances Sherwood -> Romance histórico narrando um momento crucial da história do Novo Mundo: a queda do Império Asteca. A protagonista é La Malinche, Malintzin, Doña Marina: a tradutora (e posteriormente amante) de Hernán Cortez. É uma história que chega pouco a nós brasileiros, mas que traz um pouco da origem da expressão “tradutor, traidor”. Como julgar Malinche? Traidora, vítima – de Cortez ou das circunstâncias – ou primeira mãe de uma nova nação? Difícil dizer, mas como todas as pessoas da vida real, nem ela, nem Cortez e nem Montezuma eram 100% bons ou 100% maus; 100% ingênuos ou 100% calculistas. É uma reflexão sobre ser mulher quando isso é tão difícil, ser vítima mas não abaixar a cabeça para o opressor e saber utilizar-se daquilo que se tem em mãos para tentar ter um mínimo de dignidade. Vale também pela outra cultura, o outro lugar e a outra história, tb.

Meu Amor É Um Vampiro – Várias -> Esse não pude resenhar por questões éticas, néah? Não espero que todos os leitores do blog gostem ou se sintam atraídos pelo tema, mas para quem gosta de romance sobrenatural com pegada mais adolescente, temos aqui vampiros para todos os gostos. Como são autoras diferentes, cada uma tem seu estilo e temática, há pontos altos e baixos no livro, mas no balanço geral é bem legal.

E é pedir muito para que vocês leiam o livro também???? *-*

O Centésimo de Roma – Max Mallmann

Conquistando o Inimigo – John Carlin ->Uma das melhores histórias do ano, inacreditavelmente real. Como livro jornalístico não é lá a quinta maravilha, é mais um relatório, como uma reportagem grande, sobre os primeiros anos do governo de Nelson Mandela na África do Sul e de sua luta pessoal para tornar uma nação dividida uma união nacional. É também sobre como as pessoas, caso respeitada sua dignidade, podem revelar o que existe de melhor nelas. É sobre como vender uma ideia a dois grupos rivais, falar às suas cabeças e aos seus corações e dar os primeiros passos rumo à união, não à destruição. Não ganhou resenha porque não tem muito o que falar sobre o livro em si, mas LEIAM, SIMPLESMENTE LEIAM.

Morto Até o Anoitecer – Charlaine Harris

Nerdquest – Pedro Vieira -> Não resenhei por ser curtinho para dar um post inteiro (e por que já iria resenhar outro livro do autor futuramente, hehehe). É um livro que não esconde sua dose de autobiografia e que revela, com toques de nerdice e muita cultura pop a pior fase da vida de um jovem: a obrigação de se tornar um adulto, sem que isso signifique abrir mão de suas paixões. E essa, sem dúvidas, é a grande quest da vida real, não? Ser você mesmo, mas moldar-se e adaptar-se ao seu tempo e espaço. E ninguém nunca avisou que isso seria fácil…

Os Portões de Roma – Conn Iggulden

Neon Azul – Eric Novello

Os Filhos de Galagah – Leandro Reis

Cira e o Velho – Walter Tierno

Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

Eclipse ao Pôr Do Sol – Antonio Luiz M. C. Costa

Agosto – Rubem Fonseca -> Li esse no olho do furacão do segundo turno das eleições e não resenhei porque o que quer que escrevesse sairia mais virulento do que estou disposta a trazer aqui no blog. Trata-se talvez do mês mais tenso da história política brasileira – o que antecedeu o suicídio de Getúlio Vargas em 1954. O Brasil estava mergulhado numa crise institucional, o governo de Getúlio Vargas era contestado e a oposição, em especial a figura de Carlos Lacerda (que faz a dita “imprensa golpista” de hoje parecer colunistas sociais de jornal do interior). O atentado da rua Toneleiros, até hoje mal-explicado, foi o gatilho para que essa crise se agravasse e culminasse no suicídio do presidente no fim do mês.

O autor mistura aqui a história real desses dias atribulados com a de um policial conhecido pela honestidade e retidão que precisa investigar o assassinato de um empresário. O que ele não sabe é que o crime terá desdobramentos tanto políticos quanto pessoais e que manter-se como reserva de caráter em um mundo sujo e corrupto não pode acabar bem. Trama policial bem amarradinha – e o leitor já sabe na primeira página que pela personalidade do protagonista as coisas não tem a menor possibilidade de se encaminharem para um final feliz.

Satiricon – Petrônio*

Wizard’s First Rule – Terry Goodkind

Fallen – Lauren Kate

O Último Olimpiano – Rick Riordan -> Demorei para ler esse pq esperei o lançamento no Brasil.  Gostei porque aqui o autor retomou a ironia que tanto marcou o primeiro livro da série e também porque a saga ganhou um bom fechamento, com tramas paralelas concluídas e pontas amarradas. Não gostei do Grover ter desaparecido, ele é um personagem bem mais interessante do que a Rachel. Para fechar a opinião, achei a série Percy Jackson bobinha, mas divertida – talvez seja porque já não sou mais público-alvo. Só que realmente adoro o narrador e sua visão irônica e iconoclasta da realidade mítica ao seu redor.

Os Sete – André Vianco

Café da Manhã dos Campeões – Kurt Vonnegut -> Fiquei pensando se incluía esse aqui na retrospectiva ou se fazia uma resenha autônoma, mas como provavelmente vou “deixar pra lá” e esfriar mentalmente um livro, deixa colocar umas palavrinhas aqui. É um livro da década de 1970 e reflete uma época bastante diferente da que vivemos hoje: passa-se nos EUA imersos na Guerra Fria, mas a questão interna do racismo é muito mais pulsante em toda a obra – apesar de uma referência ou outra aos “vermelhos”, a tensão entre negros e brancos é bem maior, quase palpável. Também é um dedo na ferida de hipocrisias sociais, especialmente em relação a sexo (a história é a de um autor de ficção científica que só consegue publicar em revistas pornográficas, assim como a de um homem de classe-média que tem uma vidinha perfeita, mas surta). É aquela coisa: como explicar a um estrangeiro, ou alienígena, coisas que nos são tão banais, mas ao mesmo tempo tão inexplicáveis/sem explicação. É muito mais uma crônica social e de costumes do que uma narrativa – a trama fica em segundo ou terceiro plano, é só uma desculpa para o autor amalgamar seus comentários sociais – e personagens e acontecimentos não tem lá muita importância.

Também é um livro que seria melhor se fosse mais curto, já que achei que o autor se perdeu bonitinho da metade pra frente. A crítica começa a se repetir e a falta de uma linha narrativa mais clara começa a incomodar. Para mim, ficaria perfeito com umas 100 páginas a menos. E ah, sim, entra no meu rol de livros não-infantis ilustrados 🙂

A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

OBSERVAÇÕES:

1) Apesar da resenha de Alta Fidelidade ter sido publicada neste ano, eu tinha escrito em dezembro e guardado para uma época onde não pudesse atualizar o blog. Logo, não entra na lista 😛

2) Metamorfoses e  Satiricon estão sendo guardados para um post futuro, quem sabe.

3) Até li uns outros livros no fim do ano, mas falo sobre quando voltar das férias 😀

Bom 2011 a todos vocês! 🙂

P.S.: Posso demorar para aproveitar os comentários.

A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

Então é Natal.

Todo mundo de ressaca, 10kg mais gordo, depois de ouvir milhares de trocadilhos infames com “peru” e nós aqui do blog oferecemos a última resenha do ano! Êêêê!!!!

Aprendi a ler muito cedo, então posso dizer que os livros estão presentes na minha vida desde sempre. Mas não foram eles minhas únicas referências de narrativa, muito menos as únicas histórias que ouvi ao longo da vida.

Lá pelos meus inocentes sete ou oito aninhos regados a manhãs fazendo lição de casa na frente da TV ligada na saudosa Manchete, eis que surgia meio por um acaso uma obra que acabou por ser marcada a ferro e fogo no coração da minha geração: Os Cavaleiros do Zodíaco. Como esquecer as Doze Casas, do Mestre do Santuário, das batalhas épicas, armaduras, golpes gritados, do valor da amizade e da devoção à Atena? Podem falar o que quiserem da trama em si (e é fraquinha mesmo, ai essa história na minha mão…), mas o carisma dos personagens, o clima da série e suas passagens memoráveis  são inesquecíveis.

Depois ainda vi muitos animes na mesma linha: o grupo de amigos que luta contra o mal e que depende da força da amizade e do amor para avançar, com muuuuita pirotecnia (e meu segundo anime mais marcante de todos é Sailor Moon, tá, prontofalay). Mas a gente vai crescendo e procurando histórias mais elaboradas, já que não só de pirotecnia vive o espectador…

Até que, em um belo dia, cai na mão do leitor já crescidinho e escolado um livro que tem todo o clima de seus desenhos prediletos da infânca E um roteiro caprichado. Epic win. A Batalha do Apocalipse me conquistou por isso, por ser uma espécie de Cavaleiros do Zodíaco 2.0.

Leia mais deste post

Os Sete – André Vianco

Antes de começar a resenha tem “causo” pra contar: quando fui a São Paulo para o lançamento do Meu Amor É Um Vampiro, em junho, a Ana Cristina Rodrigues, também participante do livro, tinha um almoço marcado com alguns membros do Grupo Silvestre – inclusive, Felipe Pena, o dono do blog linkado ao lado, era um dos presentes no citado almoço. O manifesto tem a interessante proposta de valorizar a literatura de entretenimento, vista como marginal, secundária, pequena, de segunda classe… Enfim, voltarei ao tema no post e algum dia falarei disso com calma. E quem estava presente no almoço? André Vianco.

Almoçando, conversa vai e conversa vem, em um desses acidentes de percurso ele acidentalmente derrubou uma taça de água nesta que vos escreve. Lembrem-se: eu lançaria dentro de algumas horas um livro sobre vampiros e o mais conhecido autor brasileiro contemporâneo de terror e fantasia tinha me acertado água. A simbologia é óbvia e resolvi tomar como o melhor dos presságios – um batismo como escritora profissional. 🙂

***

Literatura não se limita à produção acadêmica, pelo contrário. Já falei um pouco sobre isso antes, mas nunca é demais repetir. Existem os autores que estão preocupados em utilizarem-se dos fundamentos da teoria literária para fazerem obras de arte atemporais (ou ao menos tentam), de usarem palavras e transformá-las em poesia, de utilizar a ficção para filosofar… E outros que querem principalmente entreter o público, garantir uma leitura leve e divertida.

E o que o André Vianco quer oferecer ao seu leitor é: entretenimento. Diversão. Como um bom blockbuster pipoca de ação, desses que servem para desligar o cérebro e curtir – e que jamais ganharão um Sundance, um Cannes ou um Festival de Berlim… mas farão grande bilheteria, arrasarão no boca-a-boca e alguns deles até gerarão mini-fandoms.

Claro, como o Vianco atingiu notoriedade e sucesso, começam os detratores. Os livros são ruins, são isso, são aquilo, são aquilo-outro e blablabla. Muito curiosa para saber a origem de seu sucesso, resolvi encomendar um livro e ver qual era e não gostei do que li por uma série de razões.

Mas da mesma forma que alguns outros autores, resolvi dar ao autor uma segunda chance para tentar entender por que ele tem tantos fãs, suas oficinas no Fantasticon estão sempre cheias. Como não gostei muito do primeiro livro que li fui deixando pra lá, deixando pra lá, até acontecer o incidente acima e aparecer uma linda e providencial promoção dos livros dele numa das lojas online que você encontra no banner aí do ladinho… -> 😛

Os Sete foi o escolhido por ser seu primeiro livro de vampiros e por ter só uma continuação realmente direta. Comecei a ler de coração aberto e preparada para encontrar diversão despretensiosa.

Agora eu vou dizer que o livro é lindo e maravilhoso e a melhor coisa que já li na vida? Não. Mas o autor entregou exatamente o que eu como leitora comprei: DIVERSÃO.

A história acho que todo mundo conhece: um grupo de jovens mergulhadores de uma cidadezinha do Rio Grande do Sul encontra uma caravela naufragada e dentro dela uma caixa de prata contendo sete cadáveres e avisos expressos para que eles continuassem selados. Não é preciso pensar muito para saber que são sete vampiros poderosíssimos, presos por caçadores na Portugal do século XVI e que despertarão no Brasil dos dias de hoje para continuarem seu rastro de destruição.

Mas os vampiros aqui não são só tradicionais chupadores de sangue e transmorfos em morcegos: eles têm poderes monstruosos como convocar o gelo, tempestades, acordar os mortos ou transmutar-se em lobisomem e farão uso deles para capturar novas vítimas e procurarem vingança do caçador que séculos atrás conseguiu prendê-los e distanciá-los de suas terras portuguesas.

Os vampiros aqui não escondem sua natureza de monstros. Matam sem dó, se alimentam sem remorso e lutam contra os humanos como se fossem baratas. Mas não é por isso que estão isentos de sentimentos: até determinado ponto, possuem uma aliança entre si, e como temos a oportunidade de ver o mundo pelos seus olhos, dá para criar empatia pelos personagens, em especial por Inverno e Gentil.

Os humanos são então forçados a tentar pará-los antes que o foco de destruição saia da pequena cidade – e o protagonista, Tiago, além disso, precisa salvar sua amiga Eliane, que parece atrair os monstros. Então dá-lhe exército, tiro, tática, mordida, porrada, sangue espirrando, tensão e perseguição. Para quem gosta de ação, é uma ótima pedida – assim como para quem anda enjoado de vampiros brilhantes e românticos, o pessoal aqui quer é tocar o terror.

E CLARO, tudo isso se passa no Brasil com personagens que falam português e que poderiam ser qualquer um dos leitores, além de passear por uma cidadezinha litorânea fictícia, Porto Alegre e principalmente Osasco, a terra natal do autor (e DÁ para ver a diferença quando o autor se propõe a descrever o mundo que está mais imediatamente ao seu redor).

Mas aqui entra o mais grave defeito do livro (que se repete em outros livros – curiosamente, a próxima resenha, que também vai ser de um livro nacional, vai voltar a esse ponto): faltou a mão de um editor, faltou aquele acabamento no material pronto.

Para começar: dava para fazer uma boa lipoaspiração no livro, cortar metade dos coadjuvantes com nome e sobrenome, que só aparecem para terem seus quinze minutos de fama e não influem em nada no transcorrer das coisas. Dava para fazer uma boa intervenção no desfecho – que ficou um pouco arrastado porque a sequência demorou demais para se resolver – e tornar as coisas mais ágeis. O livro tem 400 páginas, mas poderia facilmente e de uma maneira mais fluida, contar a exata mesma história em 300 – o que evitaria muitas passagens em que a leitura acaba se arrastando.

Outra coisa: tem umas falhas de construção de cenário (como o IML dentro de um cemitério e não dentro/próximo a um hospital, como é o usual ou o que o trem transporta, isso para não dar um spoiler) que um editor poderia enxergar e consertar, já que é coisa pouca – e até dava para deixar passar outras coisas grandes, já que a suspensão da descrença aqui é semelhante ao Duro de Matar ou o Máquina Mortífera – pensar “pô que apelação!” é meio parte da graça.

Uma reclamação comum que vejo por aí é em relação à linguagem do autor. Realmente, o Vianco está longe de ser o autor mais lírico que já li, mas a linguagem que ele usa é o coloquial que se conversa na lan-house, no cafezinho, no boteco. Inclusive, essa coloquialidade ajuda bem na naturalidade dos diálogos, que fluem bem.

Outra coisa é que a trama do interior do exército, que vai bem na primeira metade do livro, é esquecida na segunda, em que Tiago e Eliane vão para o centro da ação. Dava para ter balanceado melhor os dois focos da trama até o final (e deixar as coisas mais enxutas, tb).

Não é uma leitura que vá agradar a todos os gostos, como filmes de ação também não agradam, mas que vale para desligar a cabeça e curtir o prazer de ver as coisas explodirem.

E deu para entender perfeitamente qual apelo que torna o livro um best-seller (lembrando que não houve uma campanha de marketing na época de seu lançamento), mas pretendo voltar ao assunto algum dia… 🙂

***

Quer conferir também? Leia o livro! Compre em (Submarino)

***

Até a próxima!

Essa é a penúltima resenha de 2010, teremos mais uma e depois férias!