Eclipse ao Pôr do Sol – Antonio Luiz M. C. Costa

Livros de contos de um só autor podem ter efeito duplo: a amostra de temática e de estilo pode ser enfadonha ou instigante. A publicação de estreia na ficção do articulista Antonio Luiz M. C. Costa cai no segundo grupo – estava planejando ler um conto por dia, mas foi impossível largar o livro antes de ler tudo.

Existe uma certa identidade temática nos contos escolhidos para comporem o livro: o sobrenatural e o mágico em terras tão distantes e tão próximas, no espaço e no tempo. Temos amostras da lírica do amor, de investigações mágicas, de reflexões…

Bom, vamos a uma análise rapidinha dos contos:

O conto de abertura, A Nascente da Serra, é o melhor da coletânea. Não sei qual seria a melhor palavra para descrevê-lo. Lírico? Agridoce? Ambos? A escrita, uma emulação do português clássico, trouxe uma dose maior de poesia para o conto. A identidade do protagonista ficou óbvia para mim logo no comecinho e me colocou um sorriso no rosto. Sua musa tem uma face diferente a cada época da humanidade e cultura: princesa sacrificada, ninfa, santinha… É uma história sobre um amor singelo e puro, mas que não é eterno (algum amor é?) e nem será o único na vida dos protagonistas. O final, com easter egg para quem gosta de literatura clássica, também me provocou um risinho. Caso eu fosse professora do Ensino Médio, levaria o conto para ser lido por meus alunos em alguma atividade complementar. O livro tem outros bons contos, mas já vale a pena ser adquirido só por conter essa preciosidade.

O segundo conto, O Anhangá, é uma ficção alternativa (ou seja, reune personagens preexistentes) sobre a solução de um mistério na Santos do século XIX. Demorei a estabelecer empatia com os personagens e com a trama, o que só aconteceu quando começou o thriller – e foi impossível parar de ler até a solução final. É o duelo entre o ceticismo e o sobrenatural (e a vitória e explicação são bem coerentes com a ciência positivista da época). Não gostei do final, achei que faltou um pouco do sal e pimenta que temperaram todo o conto, mas no balanço geral é uma boa leitura.

Não gostei de Louco Por Um Feitiço, o próximo conto. Sei de onde saíram os personagens e as situações, por ser um spin-off de um projeto anterior do autor. Achei o conto bem construído, bem narrado, tem um background interessante (um dos machos-beta da comunidade que se ressente do macho-alfa, digamos assim), mas achei que partiu do nada e chegou a lugar nenhum. Sei lá. Ficou parecendo mais uma desculpa para uma cena de sexo interespécie e menos uma história a ser contada (e não tenho pudores literários para cenas calientes, até as narradas nos mínimos detalhes – e isso o autor faz sem cair no ridículo, mas achei que faltou… história).

O quarto conto, Papai Noel Volta Para Casa, traz as reflexões do bom-velhinho, que não gosta de seu serviço mas depende dele para tirar uns trocados, pois já não possui as glórias do passado. Uma reflexão sobre o balanço de poder da humanidade através dos tempos, e também sobre como quem algum dia foi rei jamais perde a majestade. A composição deste conto é bem diferente da dos demais, mas é imperdível, com um desfecho que não surpreende mas é bem conduzido.

O Cio da Terra é uma espécie de continuação do primeiro conto, A Nascente da Serra, onde um jovem do século XXI encontra a musa do primeiro conto e se apaixona perdidamente. E, como todo louco de amor, sua razão e bom-senso sucumbem ao reino das emoções e sentidos. O ponto alto do conto é a caracterização da linguagem, que ficou bem interessante – e apesar do atrevimento linguístico, em nenhum momento o conto perde a fluência. Quanto ao final, tenho sentimentos dúbios. Gostei, mas não gostei (apesar de que quem viu o mundo mágico não pode mesmo querer voltar para o mundo real). Fica para o leitor decidir 🙂

Agora vamos ao último conto, o que nomeia a coletânea, Eclipse ao Pôr do Sol. Também foi um conto que demorei a criar empatia, só aconteceu depois da passagem do oráculo – antes disso, me pareceu mais um desafio do tipo “quantas deidades gregas consigo colocar dentro de contexto”. Mas após o oráculo e quando a investigação começou, o texto fluiu que foi uma beleza. O subtexto é algo como a ciência, e não a superstição, é capaz de levar o homem à liberdade e felicidade, e da superação de um pensamento místico com o desenvolvimento da ciência (e meus problemas aqui são mais ideológicos, por não concordar muito com o ponto, do que em estilo e desenvolvimento em si). É um conto rico em referências e fiquei feliz por pegar pelo menos grande parte delas, o que torna a trama e a mensagem mais claros.

Enfim, são sabores diferentes que levam a um denominador comum. Vale a leitura, os contos são bem fluentes e interessantes. E se você conhece o trabalho do Antonio Luiz como crítico, então fica mais interessante ainda acompanhá-lo agora do lado oposto.

Dados técnicos:

Eclipse ao pôr do sol e outros contos fantásticos
Antonio Luiz M. C. Costa
ISBN: 978-85-62942-05-1

Gênero: Literatura fantástica
Páginas: 128
Preço de capa: R$ 27,90

Compre em: (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!

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2 Responses to Eclipse ao Pôr do Sol – Antonio Luiz M. C. Costa

  1. Achei muito interessante o vínculo que o Antonio fez entre a criatura da obra original com a criatura do folclore brasileiro, em O Anhangá. O conto soube manter a coesão do cenário e cria uma base legal caso se queira supor que tais criaturas existam. Achei essa adaptação bem sucedida o ponto forte do conto.

    Mas, de resto, ele repete bastante as dúvidas e indagações do protagonista da obra original, o que o deixou um pouco repetitivo.

    O Louco por um feitiço é interessante, mas se eu não conhecesse a história da qual faz parte, provavelmente não acharia tanta graça.

    Por fim, discordo, o melhor conto é O Cio da Terra 😛

  2. Pingback: Retrospectiva 2010 | Leitura Escrita

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