Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

Continuando a trilogia temática do blog, vamos ao segundo post…

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Uma modinha literária que surgiu nos últimos tempos (e modinhas literárias surgem com a mesma rapidez do que qualquer outra modinha), talvez tendo como base a modinha musical surgida pouco antes, foi a dos mashups.

Como assim mashup?

Em linhas gerais, é uma mistura, uma infusão, uma fusão de dois textos. O livro responsável pela explosão dos mashups foi o paradigmático Orgulho e Preconceito e Zumbis – que pega o texto original de Jane Austen (85% do original) e insere algumas modificações – a guerra napoleônica vira a invasão zumbi, e as irmãs Bennet são exímias guerreiras prontas a combatê-los. Mas a história original, o romance entre os orgulhosos Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, continua lá.

Uma derivação dos mashups foram a apropriação de personagens (ficcionais e históricos) e a elaboração de outras histórias num contexto mais pop/moderninho: Jane Austen, a Vampira; Abraham Lincoln Caçador de Vampiros; Sense and Sensibility and Sea Monsters e por aí afora…

Então por que não utilizar a estratégia dos mashups, pastiches e paródias e reinventar os clássicos nacionais? Recentemente, a Leya lançou os seguintes títulos: Dom Casmurro e Discos Voadores; Senhora, A Bruxa; O Alienista Caçador de Mutantes e A Escrava Isaura e o Vampiro. Nenhum deles é um mashup no sentido estrito do termo, da preservação do texto original e sua mistura, mas todos parodiam os clássicos que povoaram as aulas de literatura.

E a Tarja lançou o livro que é o assunto do blog de hoje, Memórias Desmortas de Brás Cubas, do Pedro Vieira…

***

Brás Cubas é o defunto-autor (e não autor-defunto, note-se) mais conhecido da literatura brasileira. Ele conta sua história do além-túmulo, com muita ironia, humor negro e crítica social, narrando sua tentativa, frustrada ou não, de ascender socialmente em geral e se dar bem na vida em particular. Em 1881, Machado de Assis gerou polêmica pela estrutura do romance, mais um bate-papo com o leitor do que uma narrativa.

Mas o pressuposto de Memórias Desmortas de Brás Cubas é a de que nosso querido defunto-autor tornou-se um zumbi e por isso pôde narrar suas memórias. Ao despertar do túmulo, acordado por seu ex-escravo Prudêncio, ele descobre sua predileção por cérebros e procura descobrir porque está desmorto – e trocar algumas palavrinhas com Cotrim, seu cunhado e cupincha de carteirinha. No meio do caminho, ele vai esbarrando e conhecendo personagens do universo machadiano e aumentando sua horda de zumbis famintos por cérebros, invadindo o Rio de Janeiro um século antes de qualquer diretor sequer pensar em filmar A Madrugada dos Mortos…

A história é interessante, mas a revisão do livro poderia ter sido mais criteriosas. Tem alguns erros bobos que qualquer passada de olhos mais atenta eliminaria num piscar de olhos.

O livro é narrado em primeira pessoa e é novamente um bate-papo com o leitor – trocam-se as referências clássicas por referências pop e a crítica, mordaz,  também muda de foco: o livro é um cruzado de direita no academicismo.

Obviamente a literatura, seja como retrato de uma época, ideologia, política ou sociedade;  seja como valor artístico, evolução linguística ou estilística; é e deve ser objeto de estudos. O problema é a apropriação da obra e de seu sentido pela academia – é destrinchar e procurar um sentido próprio, que às vezes nem mesmo o autor desejou dar ao texto.

É uma crítica ao sistema de ensino que obriga o menino de quatorze anos a ler, entender e apreciar Dom Casmurro e surfar entre mesóclises e metáforas – e também ao repúdio das obras ditas como comercias.

É uma crítica a quem elege os clássicos como reduto de uma minoria – seus estudiosos ou “as pessoas cultas” e se esquecem que alguns deles foram feitos para consumo popular em sua época. Até engraçado ver as reações que os mashups causaram, de pessoas que se dizem iradas e escandalizadas  pelo vilipêndio aos clássicos. Ora, e alguma coisa é tão sagrada que não mereça uma paródia? E ninguém aqui quer substituir ou tirar o valor e validade dos clássicos, mas fazer uma piada com isso tudo. É difícil entender ou a proposição é tão ofensiva assim?

E Brás Cubas versão zumbi vem para dizer isso: nada é sagrado e intangível, nem mesmo a vida.

(e para quem quer ver uma coleção de comentários irados e ultrajados sobre mashups ou paródias, leia a coletânea no blog do autor).

Ficou curioso? Leia o livro! Compre em (Livraria Cultura)

DADOS TÉCNICOS:

Autoria: Pedro Vieira
ISBN: 978-85-61541-22-4
Páginas: 144
Formato: 14x21cm
Ano: 2010
Tarja Editorial
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16 Responses to Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

  1. Esses destruidores da Literatura Nacional vão queimar no Inferno!

    😀

  2. LidianyCS says:

    Quero jogar lenha na fogueira.
    Detesto esses mashups só de ler o nome.
    Não acredito que tem gente por aí dizendo que esses livros são melhores que os originais.
    Pra mim é algo como pegar a bíblia e dizer que vai fazer algo mais bem feito.
    Uma obra é uma obra isso aí é sacrilégio ou melhor fanfic!

    😛

    ps.: não sou fundamentalista reiligiosa tá?

    LOL

  3. Pedro Vieira says:

    Yay, valeu pela resenha, dear!
    Fico feliz q vc tenha captado direitinho o espírito da coisa. 🙂
    Vou colocar o link lá no meu blog qdo (finalmente) atualizar com o convite do lançamento.
    Beijão!

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  6. Pingback: Retrospectiva 2010 | Leitura Escrita

  7. Alexandre says:

    A lidiany deu uma ótima idéia: vou fazer um mashup a partir da bíblia – o evangelion de são joão e os robôs gigantes.

  8. Pingback: Boletim Leitura Escrita #4 « Leitura Escrita

  9. Alicia says:

    Oi, eu gostaria muito de saber se você ainda tem o livro.

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