Cira e o Velho – Walter Tierno

Os próximos três posts – são duas resenhas certas e um artigo programado – vão fazer mais uma trilogia aqui no blog, pois tangenciam mais ou menos o mesmo tema. Mas vamos lá ao primeiro deles.

***

Quando eu tinha meus oito ou nove anos comecei a fazer a transição dos livros infantis para os com uma pegada mais infanto-juvenil (os voltados para uma faixa etária de uns 10-14 anos) e, entre eles, obviamente, os clássicos da Coleção Vagalume. E o que falar da Coleção Vagalume? Histórias, algumas de autores que acabaram se consagrando, para todos os gostos: mistério, aventura, policial, horror… A grande maioria dos cenários era o “hoje” e o “agora” (apesar de que o “hoje” e “agora” de algumas histórias acabasse sendo a década de 30 ou de 40, quando elas foram escritas, mas isso de forma alguma tornava a leitura menos instigante ou dificultava a imersão), tendo por protagonistas jovens (também dos 10 até uns 20 anos) metidos em altas aventuras e confusões.

Só comecei a ser torturada com estudar literatura clássica lá pela oitava série do ensino fundamental, antes disso os trabalhos escolares eram feitos com base em livros infanto-juvenis –  muitas vezes com os clássicos Vagalumes. Mais do que isso: eles me fazem lembrar com saudades de meu refúgio sagrado da escola, a biblioteca, de onde era frequentadora quase diária.

A leitura de Cira e o Velho me fez lembrar esses tempos de Coleção Vagalume no que diz respeito ao tom aventuresco e despretensioso da trama, além da forma como ela me fisgou. Na verdade, imagino que o livro seria excelente leitura para alunos do segundo ciclo do Ensino Fundamental (na minha época era de quinta a oitava série), os deixaria animados e instigados com o que vem pela frente. E, claro, me empolgou e instigou como adulta saudosista, mas me imaginei lendo esse livro aos 13 ou 14 anos.

O livro começa com o narrador, nos dias de hoje, pesquisando sobre Cira, filha de bruxa e criatura mística que viveu anos atrás quando o Brasil ainda começava a ser explorado e colonizado, por quem desde criança ele foi fascinado. Mesclada com sua busca está a história de Cira – e muitas outras histórias e mitos que acabam tangenciando sua trajetória.

Cira é filha do famoso Cobra Norato e precisa ser morta por causa de uma maldição lançada por sua tia Maria Caninana. O homem escolhido para executá-la é o Paulista, aventureiro truculento que atravessa o sertão em busca de dinheiro – e a perseguição de gato e rato entre os dois é a tônica da trama.

Cira, apesar do encantamento que o narrador sente por ela, não é uma heroína boazinha e determinada. Ela tem seus próprios assuntos a resolver, comete erros, para para descansar e dar voltas. É um espírito livre em missão.

E aqui entra um parêntesis: quando se fala em “fantasia nacional”, uma discussão chata e recorrente versa sobre a utilização dos elementos do folclore nacional em detrimento de importações estrangeiras como anões, elfos, vampiros, pixies, banshees ou o que seja. Para algumas pessoas, uma legítima “fantasia brasileira” seria povoada de sacis, mulas sem cabeça e boitatás como um ode à brasilidade e…

Na minha opinião? BOBAGEM. O autor escreve sobre aquilo que se sente confortável em pesquisar, escrever e criar, independente da parte do mundo onde ele esteja. E esse pessoal costuma esquecer que mesmo no Brasil existem vááárias regiões, mitologias e crenças diferentes entre si. Eu, da região do ouro de Minas Gerais, ao invés de falar dos mitos católicos coloniais ou dos lobisomens, mulas-sem-cabeça e assombrações (quando criança e menina de roça cansei de ouvir histórias dessas criaturas, mesmo nos dias de hoje), posso resolver falar de Ana Jansen lá de São Luiz – que está tão próxima de minha realidade quanto, sei lá, uma banshee. E pra ser muito sincera, um vampiro, um alienígena ou um zumbi está mais próximo do imaginário de uma moça urbana moradora da capital do que um boitatá, um curupira ou um saci. E aí, como esse raciocínio fica? Perde a validade?

Mas acho que o folclore é brasileiro demais para ser rejeitado e rechaçado pelos autores. Walter Tierno aqui descreve um mundo povoado por cobras mágicas, mboitatás, curupiras, animais falantes, assombrações e bruxas (com participação especial do Negrinho do Pastoreio), mas rico, colorido e que não parece uma aula de literatura/cultura nacional chata e arrastada. A trama passa por esses antigos conhecidos, mas sem ser panfletária ou querer fazer referência a uma pretensa “brasilidade”. É um material rico para se contar histórias – e o autor está fazendo isso, e bem.

(Outro autor que tem um trabalho maravilhoso sobre o Brasil colonial e nossos mitos é o Christopher Kastensmidt e seu maravilhoso The Elephant and Macaw Banner – e, nota, ele é um americano radicado no Brasil. Acho esse projeto tão lindo que ainda vou retomá-lo aqui com mais calma :))

Quanto ao desenvolvimento do romance, a história é contada de maneira ágil e dá para se passear pelas páginas do romance com fluidez e interesse. E já mencionei que o livro é ilustrado? Adoro livros ilustrados 🙂 E junto do meu exemplar ainda vieram cartinhas coloridas dos personagens, adorei. O autor mantém o interesse do leitor do começo ao fim, apesar de que acho que ele derrapa no final. Ele poderia ter usado mais um ou dois capítulos para fechar a história de maneira menos abrupta.

Outra coisa: alguns autores se ofendem quando lhes é dito que sua obra é infanto-juvenil. Não sei se tenha sido intenção do autor mirar esse público, mas acho que ele o acertaria com precisão. Pessoalmente, os dois gêneros que acho mais difíceis de escrever são o infanto-juvenil e o infantil. Como manter o interesse de um público jovem em sua trama e ao mesmo tempo não subestimar sua inteligência?

Minha única ressalva, pensando menos nesse público e mais nos censores das Secretarias de Educação, é dar uma maneirada nas cenas de sugestão sexual. Não tem nada explícito (tirando uma passagem que pedobear aprovaria, mas que está contextualizada e é até mesmo poética), mas sabemos como as coisas funcionam no país, né…

Enfim, valeu a leitura, achei interessante e me lembrou meus antigos dias na biblioteca, fascinada e deliciada pela Coleção Vagalume…

***

Dados técnicos: “Cira e o Velho”
Autor: Walter Tierno
232 páginas
Ilustrado (ilustrações do autor)
Preço sugerido: R$ 29,90
Giz Editorial

Página oficial

Blog do autor / twitter

***

Até a próxima!

E que trabalhão vai me dar colocar os dados técnicos de todos os livros anteriores!

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9 Responses to Cira e o Velho – Walter Tierno

  1. LidianyCS says:

    Quero ler o livro 😉
    Vou colocar na minha pilha.
    Eu adorava a coleção vaga-Lume.
    Quando descobri o skoob percebi que eu li uma boa parte.

    Quanto a ser torturada pela literatura clássica eu não considero assim.
    Eu adorei o realismo, o romantismo e um pouco de modernismo, o resto é um saco msm.
    Não gosto de poesias, o resto leio qualquer história.
    Mas eu nunca fui obrigada a ler livros pelos professores, minhas escolas eram tão ruins que eu lia pq eu queria.

    Li quase todas as obras de José de Alencar, adoro Senhora e Lucíola. Adoro Eça de Queiroz, Os Maias, A relíquia, O crime do Padre Amaro e O primo Basílio estão entre os meus favoritos.
    Gosto muito de Helena, D. Casmurro, O Alienista, A cartomante e M P de Brás Cubas.
    Falando nisso, me recuso a ler esses “lançamentos” da LeYa BRA, vc já viu esse crime?
    Gosto de clássicos internacionais também como Doryan Grey, Morro dos Ventos Uivantes, O amante de Lady Chaterley.
    Gosto muito de Érico Veríssimo também, só não li o Tempo e o vento inteiro pq onde eu estava lendo não tinha o livro completo.
    Também curto Jorge Amado, mas não li todos os livros dele.
    Falando em clássicos estou com Madame Bovary aqui pra ler.
    Acho que esse tipo de literatura, além de fornecer uma visão de tempos mais antigos te dá bagagem pra ler outras histórias e viajar pelo mundo…e pelo tempo.

    Vc conhece países, lugares, pessoas, culturas,viaja no tempo com esses livros antigos e clássicos. Por isso, não vejo como literatura chata.
    Da coleção vaga-lume eu me lembro que sou apaixonada pelo Escaravelho do Diabo =)
    Li esse livro umas 10 vezes pelo menos…
    Foi aí que percebi o quanto eu era aficcionada por romance policial-investigativo-com suspense. Minha paixão.
    Outro romance que me fez gostar muito de ler foi O reverso da medalha…

    Mas não sou uma pessoa mto normal, olha só o tamanho do meu comment, haha, deu até preguiça de revisar.
    vai assim mesmo o.O

    • Ana Carolina Silveira says:

      Meu problema é que não lembro todos os livros que li, depois tenho de fazer um apanhado e tentar lembrar TODOS os coleções Vaga-Lume que li para pôr lá.

      E “ser torturada com literatura clássica”, vou desenvolver melhor o tema nos próximos dois posts da trilogia 🙂 Digamos que meu ensino de literatura foi bem sui generis, não fui torturada com literatura clássica pessoalmente, mas é uma reclamação bem comum. Mas… aguarde 🙂

      • Lidianycs says:

        Meus professores nem sabiam o conteúdo dos livros que passavam, quando eu terminava de ler sabia mais do que eles UASHAUSH
        Mas eu comecei a ler muito cedo, antes mesmo dessa fase de leiatudoquevaicairnovestibular =/
        Acho que isso é desculpa do povo pra dizer que ler é chato que tem preguiça e que não gosta.
        Afinal, essas mesmas pessoas assistem Malhação e leem crepúsculo, aí fica difícil né?
        😛

  2. Lidianycs says:

    *Leem crepúsculo no sentido de que só conhecem esse livro e acham que a melhor obra ever.
    Sim, eu conheço gente assim.
    Não tenho nada contra o livro, só não acho que seja isso tudo que o povo fala…

    UHASUAHSAS

    • Ana Carolina Silveira says:

      Acho que o buraco é um pouco mais embaixo, mas vou deixar isso para os outros dois posts 😛

      Então espere, aguarde e confie 😛 😛 😛

  3. Pingback: Retrospectiva 2010 | Leitura Escrita

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