Os Filhos de Galagah – Leandro Reis

Oi, pessoal!

Desculpem pela falta de atualizações, mas essa semana foi realmente complicada e tensa…

Mas indo ao ponto que interessa… Literatura e RPG são ideias imiscíveis? O ambiente e construção de cenários do RPG é estéril para gerar uma composição literária?

Vamos ver sobre a estrutura básica de um RPG (ou role playing game se você chegou hoje aqui no blog e não faz ideia do que eu estou falando), além de ser um excelente pretexto para reunir os amigos e ter horas agradáveis: cada um dos jogadores compõe um personagem com características próprias e o interpretará durante uma jornada, precisando portanto interagir com os demais jogadores e com o mundo onde ele está. A aventura é guiada pelo mestre, que tem o papel de fornecer a trama principal e guiar os jogadores-personagens por ela, levando-os a labirintos, a cidades, a clímaxes, conflitos e apresentando pistas e soluções. Não para menos, o nome correto do mestre é narrador 🙂

Narrativa de RPG é literária? Não e nem tem pretensão de ser (por mais que o Castelo Falkenstein tenha me ensinado o que era steampunk e Vampiro: A Máscara contribuiu e muito para aumentar meu rol de conhecimento sobre a mitologia vampírica :P). Um autor que se arrisque a transcrever uma campanha de RPG, por mais que ela tenha sido legal e envolvente, não vai ter um trabalho recompensador. Fora que um mundo que seja cópia de um cenário de campanha, seja D&D, Gurps, World of Darkness, Tormenta ou o que for, será apenas uma versão pálida de sua origem – para não dizer plágio – e colocar figurinhas de papelão para brincar nele não vai melhorar as coisas.

Mas o RPG – e a estrutura narrativa de um RPG – podem ser uma boa influência para a construção de um romance? Ora, por que não? A dinâmica do grupo formado por pessoas de características completamente diferentes e que precisam cooperar entre si e a maneira como encadear eventos, twists e clímaxes, se utilizados com cuidado e consciência, podem gerar bons frutos. O problema dos textos pejorativamente chamados “literatura de RPG” não é o uso do RPG em si – é a forma como ele é utilizado.

Outra coisa também, que já falei aqui antes em outras oportunidades, é a necessidade de originalidade e inovação de uma história. Uma história para ser boa precisa necessariamente ser original e inovadora? Depende. Para ganhar valor literário, sobreviver ao tempo, é óbvio que sim. Mas para diversão e consumo puro e simples, às vezes as histórias arroz-com-feijão (básicas) satisfazem muito mais do que as elaboradas – afinal tem dias em que tudo o que queremos é um arroz com feijão bem temperadinho e os literários são ótimos quando se quer desligar a cabeça e só aproveitar.

Conheço o Leandro Reis da Fábrica dos Sonhos e Filhos de Galagah é seu romance de estreia. Ele não esconde de ninguém que sua inspiração veio das campanhas de RPG que ele jogava com seus amigos – mas aqui entramos na questão da forma de utilização da referência. Tudo em Galagah lembra uma campanha de RPG – o universo mágico pseudo-medieval, o sistema de magia, a existência e influência dos deuses, os elfos e humanos que convivem em harmonia (cadê os anões???) e os orcs antagonistas, as classes de guerreiros… Mas apesar de não haver nenhuma novidade na caracterização desses elementos e da apresentação do mundo, não é possível dizer que Grinmelken seja uma cópia pálida de Dungeons and Dragons ou de alguma outra aventura medieval. É derivado, sim, mas não uma cópia – é um mundo verdejante de vida própria (e pelo parentesco, me lembrou com nostalgia disso aqui).

Acompanhamos a história de Galatea Goldshine, a princesa dourada escolhida pelo deus Radrak para se tornar sua paladina, em sua jornada para salvar sua família de uma maldição ancestral. É também a história de Iallanara, a órfã que jamais teve escolhas a não ser abraçar um destino maldito. As caminhadas de ambas se cruzam e aí é o ponto onde a aventura realmente começa.

O enredo não traz novidades: a paladina está procurando os três objetos mágicos (na verdade três poderes incorpóreos) que a permitirão enfrentar seu maior inimigo e, para tanto, vai ter de reunir aliados e escapar de inimigos antes do último desafio. Só que tal enredo é narrado de forma envolvente – depois que o livro engrena é difícil largá-lo.

(e essa é a primeira crítica – escusável – ao livro: demora a pegar. Para mim, a história só deslanchou quando Galatea e Iallanara finalmente se encontraram – mas, como eu disse, tem desculpa: é uma falha muito comum em autores iniciantes demorarem a dar ritmo à história, além do que como a trama está planejada para ser uma trilogia, a introdução pode demorar mais um pouco pois não ocorrerá nos livros seguintes, que já começarão com a ação).

Quanto aos personagens, apesar de não serem referidos com esses nomes exatos (ÓTIMO E EXCELENTE que assim o seja), correspondem a personagens típicos da composição de um grupo de rpg: a paladina, a necromante, o ladino, o mago. Os personagens que ganham maior desenvolvimento nesse primeiro livro são em parte Galatea – a paladina que é a encarnação da vontade e detentora de uma fé cega em seu deus e em sua missão (essa fé vai ser questionada nos próximos livros? Espero que sim, pois ao meu ver não existe fé verdadeira sem provação) – e Iallanara.

Aliás, um ponto a destacar aqui: a jornada de expiação de Iallanara a torna a melhor personagem de todo o romance. Ela é humana, conflituosa, é atingida pela dúvida e pela descrença, sente dor, sofre, tem seus momentos de relaxamento. Ela, mais do que Galatea, é quem faz a roda do destino se mover – e merecia ser a protagonista que em busca de perdão segue mundo afora ao lado da paladina.

O autor soube dosar bem os momentos de relaxamento e tensão (só perdeu a mão na cena de tortura) e apesar de já de antemão ser previsível que Galatea e seu grupo irão de sar bem, o “como” é interessante e instigador. O único ponto que achei realmente negativo do livro foi o excesso de deus ex machinas. Galatea nunca precisa resolver um problema sozinha!!!! Ela está em dúvida? Um de seus mentores espirituais sussurra algo em seu ouvido. Ela passa por necessidades? A ajuda extremamente conveniente aparecerá. Em nenhum momento ela é posta realmente à prova ou está em situação de perigo real. Está certo que ela é uma protegida divina, mas mesmo sua jornada de crescimento interior é prejudicada se ela não precisa aprender e crescer.

Mas enfim: como disse, não consegui desgrudar do livro! Não é o tipo de romance que agrada a todos os gostos, mas no cômputo geral me deu exatamente o que eu esperava que iria dar. E quando for possível lerei o livro 2, O Senhor das Sombras, onde sei que Iallanara ❤ tem um papel mais importante e decisivo!

***

Até a próxima!

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3 Responses to Os Filhos de Galagah – Leandro Reis

  1. Que ótima resenha, bem detalhada, com todas as nuances que interessam aos possíveis leitores da obra, desde a trama até o estilo narrativo.

    É disso que a literatura nacional precisa para crescer, divulgação acompanhada de opiniões críticas sinceras.

    Parabéns pelo blog.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Obrigada pela parte que me toca 🙂

      E concordo, para a literatura nacional crescer é preciso ler, resenhar criticar (construtivamente), ressaltar acertos e erros. E é nosso papel como blogueiros fazer isso…

  2. Pingback: Retrospectiva 2010 | Leitura Escrita

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