Lançamento: Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009

ANUÁRIO BRASILEIRO DE LITERATURA FANTÁSTICA 2009

Cesar Silva e Marcello Simão Branco

Numa iniciativa dos jornalistas e pesquisadores de ficção científica e fantasia Cesar Silva e Marcello Simão Branco, o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica foi publicado pela primeira vez em 2005. Apresenta um amplo e profundo panorama do cenário fantástico nacional, em suas três manifestações principais, a ficção científica, a fantasia e o horror, além de contemplar também as criações híbridas entre estes gêneros e os chamados trabalhos de “fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.

Contém notícias sobre prêmios e personalidades, listas dos livros lançados durante o ano, artigo sobre o mercado editorial, com dados estatísticos e tabelas. Resenhas de vários dos principais livros de autores brasileiros e estrangeiros, entrevista com a “Personalidade do Ano”, ensaio de um especialista convidado, e uma seção histórica com datas e resenhas de livros importantes.

O Anuário tem por meta realizar um registro do estado dos gêneros no país, além de auxiliar tanto os leitores em busca do que há de novo, como aos escritores que desejam destrinchar as tendências do mercado. E também a editores e pesquisadores, que estão em busca de um conhecimento mais sistematizado e amplo do que está surgindo e das perspectivas para o fantástico no Brasil.

O Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica recebeu em 2010 o Prêmio “Melhores do Ano”, na categoria “Melhor Não-Ficção”, concedido pelo site Ficção Científica e Afins, da escritora Ana Cristina Rodrigues.

Repercussões:

“As suas carreiras críticas — existentes há anos em várias publicações, e há seis anos no Anuário –, são o balanço global dos gêneros literários que vocês analisam, o mais competente, sério e abrangente, dentro do universo crítico brasileiro.”  –André Carneiro, autor de Confissões do Inexplicável.

“O Anuário é uma das publicações de crítica de ficção especulativa mais independentes e de maior personalidade no país. Editores, pesquisadores, colecionadores de livros, escritores e fãs devem encontrar uma fonte de consulta, de avaliações e de opiniões críticas inestimável para dar perspectiva ao momento atual.” –Roberto de Sousa Causo, autor de Anjo de Dor.

“Um projeto raro e ambicioso, que apresenta uma perspectiva global e sistematizada a respeito do mercado no Brasil e confere-lhe uma unidade na qual os autores poderão posicionar-se. Além disso, contribui para o crescimento da crítica profissional e do estudo acadêmico, essenciais ao desenvolvimento de qualquer literatura.” –Luís Filipe Silva, site Efeitos Secundários (Portugal).

Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2009, Cesar Silva e Marcello Simão Branco. Capa de Cerito, sobre arte de Henrique Alvim Correa. São Paulo: Devir Livraria, selo Enciclopédia Galáctica, setembro de 2010, 168 páginas ISSN 2178-6240. Preço: R$28,00.

Sobre o selo Enciclopédia Galáctica:

Em 2010, a Devir Livraria inaugura o selo “Enciclopédia Galáctica”, destinado a obras de não-ficção voltadas para a discussão, análise e registro dos gêneros ficção científica, fantasia e horror na literatura, quadrinhos, jogos, cinema e televisão. O selo busca fomentar a produção crítica a respeito desses gêneros e formas de expressão, em um momento em que cresce muito o interesse pela literatura de ficção científica, fantasia e horror no ambiente acadêmico e literário nacional.

O primeiro livro do selo foi Visão Alienígena: Ensaios sobre Ficção Científica Brasileira, de M. Elizabeth Ginway, brasilianista e professora de língua portuguesa e literatura e cultura brasileira na Universidade da Flórida (em Gainesville).

Devir Livraria: Rua Teodureto Souto, 624 – Cambuci – São Paulo-SP, CEP 01539-000

Fone: (0__11) 2127- 8787 – horário comercial

Mais informações: marialuzia.devir@gmail.com

Visite o nosso site: http://www.devir.com.br/

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E você, autor, que quer mandar seu release para o site, já sabe: mande o texto para blogleitura escrita @ gmail.com, sem os espaços!

Até a próxima!

Cira e o Velho – Walter Tierno

Os próximos três posts – são duas resenhas certas e um artigo programado – vão fazer mais uma trilogia aqui no blog, pois tangenciam mais ou menos o mesmo tema. Mas vamos lá ao primeiro deles.

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Quando eu tinha meus oito ou nove anos comecei a fazer a transição dos livros infantis para os com uma pegada mais infanto-juvenil (os voltados para uma faixa etária de uns 10-14 anos) e, entre eles, obviamente, os clássicos da Coleção Vagalume. E o que falar da Coleção Vagalume? Histórias, algumas de autores que acabaram se consagrando, para todos os gostos: mistério, aventura, policial, horror… A grande maioria dos cenários era o “hoje” e o “agora” (apesar de que o “hoje” e “agora” de algumas histórias acabasse sendo a década de 30 ou de 40, quando elas foram escritas, mas isso de forma alguma tornava a leitura menos instigante ou dificultava a imersão), tendo por protagonistas jovens (também dos 10 até uns 20 anos) metidos em altas aventuras e confusões.

Só comecei a ser torturada com estudar literatura clássica lá pela oitava série do ensino fundamental, antes disso os trabalhos escolares eram feitos com base em livros infanto-juvenis –  muitas vezes com os clássicos Vagalumes. Mais do que isso: eles me fazem lembrar com saudades de meu refúgio sagrado da escola, a biblioteca, de onde era frequentadora quase diária.

A leitura de Cira e o Velho me fez lembrar esses tempos de Coleção Vagalume no que diz respeito ao tom aventuresco e despretensioso da trama, além da forma como ela me fisgou. Na verdade, imagino que o livro seria excelente leitura para alunos do segundo ciclo do Ensino Fundamental (na minha época era de quinta a oitava série), os deixaria animados e instigados com o que vem pela frente. E, claro, me empolgou e instigou como adulta saudosista, mas me imaginei lendo esse livro aos 13 ou 14 anos.

O livro começa com o narrador, nos dias de hoje, pesquisando sobre Cira, filha de bruxa e criatura mística que viveu anos atrás quando o Brasil ainda começava a ser explorado e colonizado, por quem desde criança ele foi fascinado. Mesclada com sua busca está a história de Cira – e muitas outras histórias e mitos que acabam tangenciando sua trajetória.

Cira é filha do famoso Cobra Norato e precisa ser morta por causa de uma maldição lançada por sua tia Maria Caninana. O homem escolhido para executá-la é o Paulista, aventureiro truculento que atravessa o sertão em busca de dinheiro – e a perseguição de gato e rato entre os dois é a tônica da trama.

Cira, apesar do encantamento que o narrador sente por ela, não é uma heroína boazinha e determinada. Ela tem seus próprios assuntos a resolver, comete erros, para para descansar e dar voltas. É um espírito livre em missão.

E aqui entra um parêntesis: quando se fala em “fantasia nacional”, uma discussão chata e recorrente versa sobre a utilização dos elementos do folclore nacional em detrimento de importações estrangeiras como anões, elfos, vampiros, pixies, banshees ou o que seja. Para algumas pessoas, uma legítima “fantasia brasileira” seria povoada de sacis, mulas sem cabeça e boitatás como um ode à brasilidade e…

Na minha opinião? BOBAGEM. O autor escreve sobre aquilo que se sente confortável em pesquisar, escrever e criar, independente da parte do mundo onde ele esteja. E esse pessoal costuma esquecer que mesmo no Brasil existem vááárias regiões, mitologias e crenças diferentes entre si. Eu, da região do ouro de Minas Gerais, ao invés de falar dos mitos católicos coloniais ou dos lobisomens, mulas-sem-cabeça e assombrações (quando criança e menina de roça cansei de ouvir histórias dessas criaturas, mesmo nos dias de hoje), posso resolver falar de Ana Jansen lá de São Luiz – que está tão próxima de minha realidade quanto, sei lá, uma banshee. E pra ser muito sincera, um vampiro, um alienígena ou um zumbi está mais próximo do imaginário de uma moça urbana moradora da capital do que um boitatá, um curupira ou um saci. E aí, como esse raciocínio fica? Perde a validade?

Mas acho que o folclore é brasileiro demais para ser rejeitado e rechaçado pelos autores. Walter Tierno aqui descreve um mundo povoado por cobras mágicas, mboitatás, curupiras, animais falantes, assombrações e bruxas (com participação especial do Negrinho do Pastoreio), mas rico, colorido e que não parece uma aula de literatura/cultura nacional chata e arrastada. A trama passa por esses antigos conhecidos, mas sem ser panfletária ou querer fazer referência a uma pretensa “brasilidade”. É um material rico para se contar histórias – e o autor está fazendo isso, e bem.

(Outro autor que tem um trabalho maravilhoso sobre o Brasil colonial e nossos mitos é o Christopher Kastensmidt e seu maravilhoso The Elephant and Macaw Banner – e, nota, ele é um americano radicado no Brasil. Acho esse projeto tão lindo que ainda vou retomá-lo aqui com mais calma :))

Quanto ao desenvolvimento do romance, a história é contada de maneira ágil e dá para se passear pelas páginas do romance com fluidez e interesse. E já mencionei que o livro é ilustrado? Adoro livros ilustrados 🙂 E junto do meu exemplar ainda vieram cartinhas coloridas dos personagens, adorei. O autor mantém o interesse do leitor do começo ao fim, apesar de que acho que ele derrapa no final. Ele poderia ter usado mais um ou dois capítulos para fechar a história de maneira menos abrupta.

Outra coisa: alguns autores se ofendem quando lhes é dito que sua obra é infanto-juvenil. Não sei se tenha sido intenção do autor mirar esse público, mas acho que ele o acertaria com precisão. Pessoalmente, os dois gêneros que acho mais difíceis de escrever são o infanto-juvenil e o infantil. Como manter o interesse de um público jovem em sua trama e ao mesmo tempo não subestimar sua inteligência?

Minha única ressalva, pensando menos nesse público e mais nos censores das Secretarias de Educação, é dar uma maneirada nas cenas de sugestão sexual. Não tem nada explícito (tirando uma passagem que pedobear aprovaria, mas que está contextualizada e é até mesmo poética), mas sabemos como as coisas funcionam no país, né…

Enfim, valeu a leitura, achei interessante e me lembrou meus antigos dias na biblioteca, fascinada e deliciada pela Coleção Vagalume…

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Dados técnicos: “Cira e o Velho”
Autor: Walter Tierno
232 páginas
Ilustrado (ilustrações do autor)
Preço sugerido: R$ 29,90
Giz Editorial

Página oficial

Blog do autor / twitter

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Até a próxima!

E que trabalhão vai me dar colocar os dados técnicos de todos os livros anteriores!

Os Filhos de Galagah – Leandro Reis

Oi, pessoal!

Desculpem pela falta de atualizações, mas essa semana foi realmente complicada e tensa…

Mas indo ao ponto que interessa… Literatura e RPG são ideias imiscíveis? O ambiente e construção de cenários do RPG é estéril para gerar uma composição literária?

Vamos ver sobre a estrutura básica de um RPG (ou role playing game se você chegou hoje aqui no blog e não faz ideia do que eu estou falando), além de ser um excelente pretexto para reunir os amigos e ter horas agradáveis: cada um dos jogadores compõe um personagem com características próprias e o interpretará durante uma jornada, precisando portanto interagir com os demais jogadores e com o mundo onde ele está. A aventura é guiada pelo mestre, que tem o papel de fornecer a trama principal e guiar os jogadores-personagens por ela, levando-os a labirintos, a cidades, a clímaxes, conflitos e apresentando pistas e soluções. Não para menos, o nome correto do mestre é narrador 🙂

Narrativa de RPG é literária? Não e nem tem pretensão de ser (por mais que o Castelo Falkenstein tenha me ensinado o que era steampunk e Vampiro: A Máscara contribuiu e muito para aumentar meu rol de conhecimento sobre a mitologia vampírica :P). Um autor que se arrisque a transcrever uma campanha de RPG, por mais que ela tenha sido legal e envolvente, não vai ter um trabalho recompensador. Fora que um mundo que seja cópia de um cenário de campanha, seja D&D, Gurps, World of Darkness, Tormenta ou o que for, será apenas uma versão pálida de sua origem – para não dizer plágio – e colocar figurinhas de papelão para brincar nele não vai melhorar as coisas.

Mas o RPG – e a estrutura narrativa de um RPG – podem ser uma boa influência para a construção de um romance? Ora, por que não? A dinâmica do grupo formado por pessoas de características completamente diferentes e que precisam cooperar entre si e a maneira como encadear eventos, twists e clímaxes, se utilizados com cuidado e consciência, podem gerar bons frutos. O problema dos textos pejorativamente chamados “literatura de RPG” não é o uso do RPG em si – é a forma como ele é utilizado.

Outra coisa também, que já falei aqui antes em outras oportunidades, é a necessidade de originalidade e inovação de uma história. Uma história para ser boa precisa necessariamente ser original e inovadora? Depende. Para ganhar valor literário, sobreviver ao tempo, é óbvio que sim. Mas para diversão e consumo puro e simples, às vezes as histórias arroz-com-feijão (básicas) satisfazem muito mais do que as elaboradas – afinal tem dias em que tudo o que queremos é um arroz com feijão bem temperadinho e os literários são ótimos quando se quer desligar a cabeça e só aproveitar.

Conheço o Leandro Reis da Fábrica dos Sonhos e Filhos de Galagah é seu romance de estreia. Ele não esconde de ninguém que sua inspiração veio das campanhas de RPG que ele jogava com seus amigos – mas aqui entramos na questão da forma de utilização da referência. Tudo em Galagah lembra uma campanha de RPG – o universo mágico pseudo-medieval, o sistema de magia, a existência e influência dos deuses, os elfos e humanos que convivem em harmonia (cadê os anões???) e os orcs antagonistas, as classes de guerreiros… Mas apesar de não haver nenhuma novidade na caracterização desses elementos e da apresentação do mundo, não é possível dizer que Grinmelken seja uma cópia pálida de Dungeons and Dragons ou de alguma outra aventura medieval. É derivado, sim, mas não uma cópia – é um mundo verdejante de vida própria (e pelo parentesco, me lembrou com nostalgia disso aqui).

Acompanhamos a história de Galatea Goldshine, a princesa dourada escolhida pelo deus Radrak para se tornar sua paladina, em sua jornada para salvar sua família de uma maldição ancestral. É também a história de Iallanara, a órfã que jamais teve escolhas a não ser abraçar um destino maldito. As caminhadas de ambas se cruzam e aí é o ponto onde a aventura realmente começa.

O enredo não traz novidades: a paladina está procurando os três objetos mágicos (na verdade três poderes incorpóreos) que a permitirão enfrentar seu maior inimigo e, para tanto, vai ter de reunir aliados e escapar de inimigos antes do último desafio. Só que tal enredo é narrado de forma envolvente – depois que o livro engrena é difícil largá-lo.

(e essa é a primeira crítica – escusável – ao livro: demora a pegar. Para mim, a história só deslanchou quando Galatea e Iallanara finalmente se encontraram – mas, como eu disse, tem desculpa: é uma falha muito comum em autores iniciantes demorarem a dar ritmo à história, além do que como a trama está planejada para ser uma trilogia, a introdução pode demorar mais um pouco pois não ocorrerá nos livros seguintes, que já começarão com a ação).

Quanto aos personagens, apesar de não serem referidos com esses nomes exatos (ÓTIMO E EXCELENTE que assim o seja), correspondem a personagens típicos da composição de um grupo de rpg: a paladina, a necromante, o ladino, o mago. Os personagens que ganham maior desenvolvimento nesse primeiro livro são em parte Galatea – a paladina que é a encarnação da vontade e detentora de uma fé cega em seu deus e em sua missão (essa fé vai ser questionada nos próximos livros? Espero que sim, pois ao meu ver não existe fé verdadeira sem provação) – e Iallanara.

Aliás, um ponto a destacar aqui: a jornada de expiação de Iallanara a torna a melhor personagem de todo o romance. Ela é humana, conflituosa, é atingida pela dúvida e pela descrença, sente dor, sofre, tem seus momentos de relaxamento. Ela, mais do que Galatea, é quem faz a roda do destino se mover – e merecia ser a protagonista que em busca de perdão segue mundo afora ao lado da paladina.

O autor soube dosar bem os momentos de relaxamento e tensão (só perdeu a mão na cena de tortura) e apesar de já de antemão ser previsível que Galatea e seu grupo irão de sar bem, o “como” é interessante e instigador. O único ponto que achei realmente negativo do livro foi o excesso de deus ex machinas. Galatea nunca precisa resolver um problema sozinha!!!! Ela está em dúvida? Um de seus mentores espirituais sussurra algo em seu ouvido. Ela passa por necessidades? A ajuda extremamente conveniente aparecerá. Em nenhum momento ela é posta realmente à prova ou está em situação de perigo real. Está certo que ela é uma protegida divina, mas mesmo sua jornada de crescimento interior é prejudicada se ela não precisa aprender e crescer.

Mas enfim: como disse, não consegui desgrudar do livro! Não é o tipo de romance que agrada a todos os gostos, mas no cômputo geral me deu exatamente o que eu esperava que iria dar. E quando for possível lerei o livro 2, O Senhor das Sombras, onde sei que Iallanara ❤ tem um papel mais importante e decisivo!

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Até a próxima!

Série House of the Night – PC e Kristin Cast

Uma das várias séries voltadas ao público adolescente feminino que trata de vampiros é a chamada House of the Night, escrita pelas autoras, mãe e filha, PC e Kristin Cast.

Não tive interesse em ler a série, mas a amiga Mariana Ferreira leu e resenhou para mim. Com isso, estreiamos a seção “O Leitor Escreve”, onde é você, o leitor, que colabora com a resenha!

Claro, como não li a série, a respnsabilidade é toda da Mariana, reclamem com ela e não comigo se não gostarem 😛

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House of the Night -resenha por Mariana Ferreira

Dizem que se for para falar mal é melhor nem abrir a boca. Mas né? Vamos considerar isso uma ultilidade pública:

House of Night não é uma série que valha a pena ser lida. Li porque não tinha nada melhor pra fazer durante as férias e estava em promoção no Submarino. Até agora foram 5 volumes e diz a autora que serão 12. Como alguém consegue escrever 12 livros sobre praticamente nada é um grande mistério.

A série até o 5º volume se baseia em vampiros e índios Cherokees. Claro que os vampiros tem seu grau de estilização É assim: uma pessoa se torna vampiro por causa de uma mutação no DNA durante a adolescência. Então ela é marcada, se torna um novato e tem que ir para uma morada da noite para completar sua transformação. Não, não tem mordida, sangue, sedução nem nada. É puramente “biológico”. O mais impressionante é que a despeito de os vampiros serem bonitos, ricos e famosos (no livro, vários atores e cantores como Hugh Grant e Shania Twain são vampiros) os novatos e vampiros são discriminados pelos humanos. Sim, contradição pouca é bobagem. Já os índios só aparecem como referência cultural (o vilão desses primeiros livros é baseado na mitologia deles).

O grosso da história são os adolescentes e seus draminhas e conversinhas. Coisas do tipo: “Oh! Meu namorado humano aparentemente está em grande perigo. Vou ali assistir um DVD com meus coleguinhas depois eu cuido disso”. Então, ao invés de ação, o leitor se depara com uma boa meia dúzia de páginas de diálogos que parecem saídos de malhação com trocentas falas dispensáveis. Exemplo: se a protagonista está com os amigos e faz uma pergunta, aparece uma fala de cada um, mesmo que todos estejam respondendo, em essência a mesma coisa. Isso somado ao grau sandystico de perfeição da personagem irrita demais. Muito piegas para o gosto de praticamente qualquer um.

Além de piegas a narrativa é arrastada, cheia de detalhes que não são da sua conta e com pouca ação por livro. O primeiro volume, como eu já disse, é praticamente só ambientação. Tem um pouquinho de “coisa acontecendo” (nada de muito aventuresco mesmo, juro) e milhares de detalhes sobre a vida e obra dos vampiros e suas escolinhas. Totalmente dispensável. Os detalhes terrivelmente irrelevantes são coisas do tipo “passei a chapa para arrumar os cabelos”. Sério, se cada vez que a autora trocasse a descrição do ritual de make-up da protagonista por “me arrumei e saí” os cinco volumes juntos diminuiriam umas 50 páginas. Se não fosse tão angustiante ler esses detalhes sem importância, os livros seriam muito melhores, porque a história em si tem até seu charme.

Mas o que mais mata lenta e dolorosamente tudo o que podia ser bom na série é a previsibilidade feladaputa. Caro leitor, se você tiver a mínima suspeita de que uma personagem vai morrer, é porque ela VAI morrer. Se acha que alguém vai fazer alguma merda, é porque essa pessoa VAI fazer merda. Se suspeitar minimamente que a diretora da escola é mau igual a um pica-pau, tenha certeza de que ela é mesmo. Isso fica claro desde a primeira vez que ela aparece. Nem pra ter um conflito “será que ela é” igual a J. K. Rowling fez com o Snape.

Falar em Snape, eu devia ter lido a série do Harry Potter de novo nas férias ao invés dessa bobagenzinha. Talvez a única coisa boa desses livros é que vai virar filme ou série de televisão com muitos corpos malhados e rostos bonitos. Segundo a autora, todos os vampiros são muito belos e se o novato engordar ou adoecer, ele morre.

Bom, resumindo para você poder conversar com sua priminha de 12 anos retardada por definição e fã da série: A menina é marcada, aí a família de crentes loucos dela surta e ela foge para pedir ajuda à avó. Como a velhinha mora em uma fazenda e está pelo campo, a menina sai andando loucamente pelo bosque, cai, bate a cabeça e morre desmaia. Desmaiada, ela vê/sonha com a deusa Nyx, divindade que os vampiros cultuam. Aí a deusa tipo abençoa especificamente a ela. Quando a protagonista (Zoey) acorda, ela está na morada da noite em segurança porque a vovozinha a levou para lá. Depois de se recuperar, ela sai botando moral pela escola porque é muito mais poderosa do que qualquer novato que já existiu, então ela consegue acabar com a equivalente cheerleader local e ficar com o namorado dela além do namorado antigo que ela tinha na vida de apenas humana. Durante os outros livros, a melhor amiga dela morre e volta como uma criatura estranha, mas a incrível Zoey consegue salvá-la e a menina se transforma em um outro tipo de vampiro. Então ela descobre que tem mais um monte de novatos que não morreram e também estão assim. Além disso,  a cheerleader do primeiro livro vira amiga da protagonista. Como Zoey é a principal, estilo Seiya porém mais rainha da cocada preta, ela arruma mais uns 3 ou 4 namorados/pretendentes e geralmente está com mais de um ao mesmo tempo embora no fundo sejam todos uns malas. Em determinado ponto da história, fica claro que a diretora da morada da noite é má e ela invoca um deus antigo e mau. Então a perfeita Sandy Zoey, seus fiéis amigos, seus devotos namorados e sua fofíssima vovó descendente de Cherokees se unem com as freiras legais para exorcizar os capetas. Ah sim, importante lembrar que a Zoey é estilo Jesus, sabe? Ela é MUITO tocada pela deusa! O tempo todo acontece. É tipo RPG mesmo, sabe? Entra na dungeon, salva a princesa, ganha XP e sobe de nível. Isso só comprova o quanto a personagem é isenta de falhas. Sério, eu devia ter relido Harry Potter, que pelo menos era o “escolhido” mas era um sujeito loser como outro qualquer, com seus conflitos internos, suas fraquezas, suas incompetências e seus amigos que participam da história ao invés de só ficar pagando pau para ele.

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Até a próxima!

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Neon Azul – Eric Novello

A Literatura é uma coisa só, colocando debaixo de seu guarda-chuva todos os gêneros, sem preconceito por este ou aquele. Alguns dos clássicos universais são fantásticos, outros são thrillers, outros romances psicológicos, outras narrativas simples daquilo denominado como “mainstream”.

Mainstream, nesse contexto, significa mais ou menos a linha mestra principal, geral e genérica de uma manifestação artística. É o romance que não pertence a um gênero e o que se costuma definir erroneamente como toda a literatura.

Quando se está perto do gênero, parece que existe a dicotomia entre ele e o mainstream (para ficar em minhas preferências pessoas, literatura fantástica), que são ideias imiscíveis como água e óleo, como polos iguais de um ímã que se repelem. Só que essa dicotomia não existe: mainstream e gênero se complementam, se tocam, se influenciam.

Não é apenas a boate que dá titulo ao romance Neon Azul que está no limiar entre o mundo real e o sonho: o livro também está entre o mainstream e a fantasia. É o diálogo entre o gênero e a generalidade, um romance fantástico com toques do noir e do contemporâneo – ou um romance noir e contemporâneo com toques fantásticos? Fica para o leitor decidir.

O romance tem a estrutura fix-up, ou seja, são contos independentes entre si, que podem ser lidos em qualquer ordem e que se encerram em si mesmos, mas que lidos em conjunto formam uma trama. O livro trata da história da Neon Azul, uma boate diferente perdida no centro do Rio de Janeiro, e cada conto trata da vida de uma pessoa que orbita o bar, seja funcionário ou cliente.

O Neon Azul parece atrair pessoas perdidas – tanto aquelas sem rumo quanto as que encontraram o rumo da perdição. É como se o bar estivesse naquele limiar entre o real e o sonho, onde o impossível acontece de forma natural e onde as coisas mudam de forma se você para de prestar a atenção nelas. O Neon tem a lógica dos sonhos, onde os desejos se tornam intensos e estão ao alcance de um toque – entretanto, aqui, há um preço a se pagar pela satisfação da vontade.

Os contos são noir e, ao contrário do humor irônico de Histórias da Noite Carioca, aqui a melancolia é onipresente, bem como a sensação de aniquilação e de fatalidade. Não é um livro sobre escolhas fáceis ou finais felizes e redentores, mas sobre aqueles que já perderam tudo – o orgulho, a saúde, a sanidade. Há também aqueles que querem entrar num mundo que glamourizam, mas que mostra todos os seus tons de negro à medida em que se aprofundam.

Talvez o conto de abertura seja aquele que mais destoe dos outros: a solução do conflito é uma catarse parecida com aquela do filme Dogville, solução essa que não ocorre da mesma forma nos outros contos. Não são contos para estômagos fracos e sensíveis – sexo, drogas, assassinato, desejos perdidos e encontrados.

A parte fantástica é bem sutil, apesar de onipresente (e tenho no mínimo três teorias pessoas para a identidade d’O Homem). Tempo e espaço são apenas convenções que podem ser facilmente burladas, pessoas atravessam espelhos e guardam seres mágicos em garrafas. E o fantástico aqui é real, não metáfora ou fábula. Faz parte e compõe o universo onírico do bar. Por isso talvez seja muito mais mainstream com toques fantásticos do que fantástico escrito com a contemporaneidade mainstream.

É uma leitura altamente recomendada e, sinceramente, o melhor livro que li este ano (sorry, mr. Gaiman).

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Ficou curioso? Leia o livro! Compre em (Livraria Cultura)

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Até a próxima!

 

IV Fantasticon

O IV Fantasticon se realizou agora, em São Paulo, dos dias 27 a 29 de agosto. Trata-se de um encontro, como eu já disse, de escritores e leitores do gênero fantástico, que mescla simpósio e convenção. É lugar para fazer contatos, conversar com aquelas pessoas que só se conhece pelos livros, encontrar e reencontrar amigos, ficar por dentro das últimas novidades do gênero fantástico (que inclui a fantasia, a FC e todos os seus subgêneros)…

Vou dividir o post em duas partes hoje, fazer as coisas um pouco diferentes do habitual do blog. Para a parte informativa, continuem na linha, a parte pessoal está lá embaixo e não é necessário ler se não quiserem, mas vamos lá:

O Fantasticon

Estive presente no sábado e no domingo participando de oficinas, palestras e mesas-redondas. Infelizmente não pude assistir à mesa que mais me interessava (sobre transmídia), mas o saldo foi positivo – aprendi coisas novas, relembrei e fortaleci aprendizados antigos.

Fiz a oficina de pesquisa literária ministrada pelos autores Sergio Pereira Couto e Gian Celli, que foi bem interessante e elucidativa. Para quem já escreve e debate literatura há um tempinho, a ideia de que a pesquisa é essencialíssima já está gravada em pedra no cérebro, mas é sempre bom dar uma renovada nos conhecimentos e adquirir alguns novos. Fantasticon também é lugar de aprender.

Deu gosto ver a quantidade de livros lançados no evento. Tinha para todos os gostos, bolsos e tamanhos. Infelizmente, fui com o dinheiro contado e só deu para trazer comigo o essencial do essencial, mas é bom saber que nossas livrarias estão abastecidas com tantas opções. Fora que tinham vários descontinhos camaradas, uma pena que não pude aproveitar nenhum.

Para o leitor, vale muito a pena comparecer – pelos descontinhos legais, para ficar por dentro das últimas novidades, para descobrir que seu autor nacional predileto não morde e é até mesmo uma pessoa legal.

Para o autor (aspirante, publicado, consolidado) vale a pena comparecer para trocar ideias e contato  com os colegas mais experientes, ouvir o que as gerações anteriores tem a ensinar, ter consciência de que há uma nova geração chegando e ouvir o que ela tem a dizer. É bom para que a classe se una, pois sem união ninguém vai a lugar algum.

Para as pessoas entre o leitor e autor (blogueiros, podcasters…) também é interessante para entrar em contato com os dois públicos e conhecê-los, além de conhecer seus anseios. Claro, também dá pra ficar por dentro do que é o hype do momento e trabalhar em cima disso.

No cômputo geral, vale muito a pena comparecer ao evento. Não posso deixar de cumprimentar Silvio Alexandre e a organização por fazerem tudo funcionar direitinho. E espero encontrar a todos vocês no V Fantasticon, ano que vem!!!

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As Pessoas do Fantasticon

O Fantasticon serviu para mim também como processo de despixelização.

Como assim?

Bom, por mais que se conheça essa ou aquela pessoa pela internet, que haja contato por e-mail, redes sociais, mensagens instantâneas e tudo o mais, nada se compara em conhecer a pessoa pessoalmente, olhar para os olhos e ver o outro que está ali. Quando nos conhecemos, nos tornamos menos robôs e mais humanos, nos tornamos menos do que um amontoado de letras do outro lado do monitor e mais gente como a gente.

E é sempre muito bom tornar gente quem conhecemos de longe – sejam os críticos mordazes que são tímidos e contidos ao vivo, os autores que param pra trocar nem que seja uma ideiazinha de leve, já que o tempo é escasso e existem outras pessoas por ali, os autores da geração anterior que param para ouvir os jovens e dar dicas, os novos contatos e a troca de experiência.

E é bom conhecer pessoalmente autores que só vejo pelos livros e twitter – a fofíssima Nazarethe Fonseca; o atencioso, porém visivelmente cansado Eduardo Spohr, o André Vianco que é a simpatia em pessoa…

E por falar em Vianco, pra mim ele fez parte de um dos momentos inesquecíveis do evento: a apresentação do teaser de O Turno da Noite, seriado que ele está produzindo. Foi ver o pai orgulhoso mostrando os primeiros passinhos do bebê que aprende a andar, emoção pura para todos. Também pude ver autores novatos estreiando em eventos e publicações e autores não tão novatos assim demonstrando seus talentos até então desconhecidos de âncoras de talk show. E, claro, Raphael Draccon dando a fórmula mágica do sucesso: trabalho, trabalho e mais trabalho.

E, claro, meus amigos. Se não fosse por vocês, não iria a lugar nenhum. Foram dois dias mágicos, coloridos e encantados na companhia de vocês, para rirmos juntos, fofocarmos juntos, cantarmos juntos (é!) e termos segredos e material de chantagem coletivo 😛 E é isso o que tempera a vida, que dá força nos momentos difíceis e vontade de compartilhar as vitórias. É sempre um prazer enorme estar com vocês todos e desejar felicidade e sucesso em tudo o que quiserem fazer na vida.

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Até a próxima!

P.S.: foto-bônus para vocês. Na seguinte foto, temos uma blogueira, um podcaster, umautor lançando livro, um best-seller, dois autores iniciantes, uma vampira, o dr. House literário – e um outro best-seller bônus. Divirta-se encontrando AQUI :P.