O Centésimo Em Roma – Max Mallmann

Todos os caminhos levam a Roma. A frase, um ditado quase tão antigo como a Cidade Eterna, surgiu da observação de que todas as estradas do Império tinham por destino último a capital.

A frase hoje também pode ser interpretada de outro jeito: nossa civilização tem raízes tão fortes em Roma que qualquer aspecto dela pode facilmente chegar lá. As instituições como conhecemos nasceram em Roma, o idioma surgiu do latim, o cristianismo desenvolveu-se em Roma… Mesmo os povos asiáticos, sub-saarianos e americanos foram imiscuidos por Roma, então hoje a Cidade Eterna vive em cada um de nós.

Tudo isso para dizer que tratar do Império Romano é tratar de nossos avôs, antecessores e professores, então não existe lugar na Antiguidade Clássica – e nem nos períodos posteriores – que nos seja tão familiar como o antigo império.

O  autor brasileiro Max Mallmann se aproveita dessa familiaridade para situar seu novo romance em Roma, no século I, no ano conhecido como “o ano dos quatro imperadores”, período de turbulência política que quase culminou numa guerra civil sangrenta.

O romance conta a história de Desiderius Dolens, legionário romano plebeu que sonha em galgar a hierarquia da profissão e se tornar cavaleiro, mas sabe que isso é complicado para uma pessoa endividada e sem um mínimo de QI (Quem Indica, no caso). Por meio de seus contatos, ele acaba chefiando uma das divisões das coortes urbanas de Roma (uma espécie de guarda municipal), que possuem menos prestígio mas já são um passo até seu objetivo de vida.

A história possui dois narradores: parte dela é contada como um livro de crônicas, as memórias de Dolens escritas por Nepos, seu braço direito. E, como livro de crônicas, traz apenas o relato rápido, feito anos depois, das lutas, crimes, viradas políticas e eventos ocorridos naqueles tempos em que se passa a trama. É um bom recurso para acelerar cenas que de outra forma seriam lentas e inserir detalhes históricos, alguns deles até mesmo reais, de forma sutil e não maçante. O outro narrador onisciente acompanha Dolens e as pessoas que o cercam em tempo real, observando todos os seus passos, olhares, palavras e ações apócrifas que não ficariam bonitas num livro de relato histórico. Os dois narradores se alternam e a transição de um para o outro é bem dinâmica: o leitor não se confunde ou se cansa, inclusive em alguns momentos as formas diferentes de narrativa servem para injetar oxigênio na leitura e fazer o leitor dar uma acalmada após uma cena mais intensa.

A trama é simples ao ponto da banalidade: a vida de Dolens e sua tentativa frustrada (ou nem tanto) de ascensão social. Há intrigas políticas nas quais o protagonista acaba se metendo e um assassinato a ser investigado (e que serve de pretexto para mostrar um grupo anárquico e subversivo que assolava Roma naqueles tempos, os cristãos – e a melhor cena de todo o livro é o culto cristão, disparado), mas a grande maioria dos fatos são acontecimentos cotidianos na vida de Dolens e das pessoas que o orbitam. Inclusive, apesar de ocorrer o assassinato, não faria a mínima diferença para o romance se a identidade do assassino fosse desvendada ou não, pois em quase nada influi na vida dos personagens.

Só que o livro também é uma aula sobre como transformar uma história banal em algo atrativo e interessante utilizando-se de dois elementos, quesão os pontos fortes do livro.

O primeiro é a reconstrução histórica. O autor estudou para falar sobre Roma, leu material histórico, clássico e tudo o que estivesse ao seu alcance para ambientar a trama numa Roma viva e pulsante, habitada por pessoas de carne e osso que passeiam por lugares reais. Verossimilhança, para mim, está muito mais ligada às pequenas coisas do que aos grandes eventos,e os personagens do livro falam, agem e pensam de maneira muito convincente para romanos da época.

E os personagens? São extremamente carismáticos, do idiossincrático Dolens, que deve ser ancestral de um pater familiae moderno até muito conhecido, que ao mesmo tempo em que é inábil para fazer as coisas certas para sua promoção, tem o raciocínio um pouco obtuso e não mede esforços para se dar bem, até consegue agir sem querer da melhor forma para si mesmo. Nepos, seu braço-direito, é um idealista romântico e uma espécie de nerd da idade antiga, o que serve de motivo para Dolens humilhá-lo constantemente aproveitando da prerrogativa de ser seu superior hierárquico. Aqui, as posições de Dom Quixote e Sancho Pança estão trocadas, além da dinâmica entre eles lembrar muito a de Holmes e Watson. Os outros personagens também tem seus momentos, todos eles tem a chance de brilhar ao menos uma vez.

E o humor? Ironia, escracho, nonsense… É um livro engraçadíssimo! As peripécias de Dolens, tanto as que dão certo quanto a grande maioria que dá errado, são observadas através dessas lentes, com resultados muito satisfatórios. Esse foi um dos poucos livros que tive de parar de ler, marcar, deixar de lado e rir à vontade até me recompor! E é o humor na medida, que não se torna cansativo pela alternância narrativa, responsável por delimitar as gags e dar oportunidade para o leitor respirar. Não que isso torne o romance uma comédia, de jeito nenhum, mas foi um ótimo tempero encontrado pelo autor para dar sabor ao seu retrato cotidiano.

Enfim, foi uma experiência recompensadora e é um livro recomendadíssimo, nem que pela reflexão de que Roma é eterna, assim como algumas coisas, como a odisseia para qualquer um sem berço e sem dinheiro se dar bem na vida, não mudam nem no período de dois mil anos.

***

Até a próxima!

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12 Responses to O Centésimo Em Roma – Max Mallmann

  1. ramirocatelan says:

    Ótima resenha, Ana! Me deu ainda mais vontade de ler o livro. Vou colocar na minha lista de prioridades 😛 Beijos

  2. Flávio Medeiros says:

    Também acabei de ler hoje, e o Max se supera a cada novo livro de maneira vertiginosa. Este, no caso, também me arrancou risos em voz alta, principalmente nos trechos onde Dolens se inteira dos detalhes acerca da estranha nova seita dos cristãos. Uma sacada de mestre para nos fazer rever dogmas antigos com olhos virgens. As referências a outras obras, algumas das quais identifiquei prontamente, também acrescentaram um sabor especial ao prato que já estava consagrado. Parabéns ao Max, e já estou esperando o próximo. Quem sabe até mais do mesmo…

    • Ana Carolina Silveira says:

      Esqueci de falar disso na resenha, as referências! Também esbarrei com meia dúzia delas, mas elas estão tão naturais, tão dentro do texto, que a gente acaba esquecendo que elas estão lá.
      E sim, eu também gostaria de ver mais aventuras do Dolens, se for possível!

  3. talkativebookworm says:

    Nem vou falar da pesquisa histórica, pq sou suspeita. Mas o Dolens é um dos melhores protagonistas que eu já vi, um anti-herói muito convincente. 🙂

  4. Muito boa a resenha, Ana. Gostaria de deixar aqui o link para uma que fiz do livro, baseada inteiramento no Histórico de Leitura, do Skoob. Este histórico de leituras do Skoob é ótimo!! uma ferramenta de análise literária super-legal, já que permite não só que avaliemos um livro, mas nossa própria evolução na leitura. Ler um histórico desses permite fazer considerações não só da obra, mas do avaliador também. Achei o resultado interessantíssimo, de tal forma que decidi não fazer a resenha e deixar tudo mesmo no formato de histórico. Escrever interativamente sobre um livro que se lê ao invés de fazer um apanhado final, nos prega peças. Permite que vejamos como mudamos de idéia sobre um assunto no decorrer da leitura ou como nosso ponto de vista se altera, já que passamos a notar certas coisas ou entendemos o autor sobre focos narrativo de forma evolutiva. Reparem nas notas que fui dando. Incentivo fortemente que as pessoas passem a fazer históricos de leitura, como se fossem diários. Fica a sugestão de o Centésimo em Roma para que os leitores deste blog vejam como fica legal: http://www.skoob.com.br/estante/livro/4702375

    • Ana Carolina Silveira says:

      Muito legal mesmo!
      E essa ferramenta do Skoob é bem legal também, justamente por esse fato de sua opinião ir se alterando ao longo do livro. Vou experimentar fazer isso de alguma leitura, mas tem no mínimo dois livros que só me fisgaram no meio, ou no fim, ou me decepcionaram porque nada que eu esperava aconteceu.

  5. Max Mallmann says:

    Oi, Ana,
    Muito gentil a sua resenha. Valeu!
    Beijos.

  6. Pingback: Os Portões de Roma – Conn Iggulden « Leitura Escrita

  7. Pingback: Retrospectiva 2010 | Leitura Escrita

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