Annabel e Sarah – Jim Anotsu

É difícil, depois que você passa por ela, pintar um retrato fiel da adolescência – ou os adolescentes literários são muito caricatos ou totalmente irreais. Se a personalidade é complicada de ser emulada, pior ainda é todo o clima e ambiente em que se insere a adolescência – a cada cinco anos acontece uma renovação de gerações, de gostos e de cultura, é bastante difícil, quanto mais um autor vai envelhecendo, conseguir dialogar com esse mundo sem parecer um tiozão querendo parecer legal.

Annabel e Sarah foi escrita por Jim Anotsu (o autor é brasileiro, o pseudônimo uma homenagem a heróis de infância) quando ele estava no último ano do ensino médio e é uma incursão tanto à adolescência quanto uma homenagem a autores, histórias e personagens. É um livro planejado para a leitura rápida e fluente, para ser consumido em uma tarde chuvosa ou num momento de folga.

É a obra de estreia do autor – a história de duas irmãs gêmeas, Annabel e Sarah, totalmente diferentes entre si. A Annabel faz o tipo esquentadinha e revoltada, de personalidade forte e que não faz o menor esforço para ser amiga de sua irmã, uma garota meiga, delicada e que gosta de moda.

Sarah então é tragada por uma televisão e Annabel, única pessoa capaz de ajudá-la, parte para buscar a flor de Amor Perfeito, que poderá salvá-la.

Então, a trama se parte em duas: Annabel vai para um universo baseado nos romances policias hardboiled e na literatura beat (com direito à cidade chamada Kerouac e ao encontro de um gêmeo perdido de Sal Paradise), em que os animais são os seres racionais e os humanos bichinhos de estimação ou comida, enquanto Sarah vai para uma cidade onde todos são obrigados a serem felizes o tempo todo, uma realidade distópica que tem um pouco de George Orwell, Alice No País das Maravilhas (e do RPG Paranoia, também).

E dá-lhe referências e homenagens – mas o livro não se torna refém delas ou torna indispensável seu conhecimento para que se entenda a obra. Algum nome de banda ou de programa de TV é citado aqui ou ali, mas nada que torne a obra inacessível para quem nunca ouviu falar e não sabe do que se trata. As homenagens também acabam por ficar orgânicas (exceto Annabel que acaba se perdendo um pouco na homenagem aos beats), a composição do texto, ágil e cheio de twists, faz com que a leitura flua tranquila e agradável.

O fato de ser um romance de estreia, escrito durante a adolescência do autor, se mostran a composição dos personagens – falta delinear a personalidade das gêmeas, ainda que Annabel seja um pouco desvendada nos interlúdios entre os capítulos, mas Sarah permanece uma incógnita. Também falta algo no final, falta um elemento fundamental numa história em que as personagens precisam passar por várias provações para poderem crescer – elas não mudam. Mas, sejamos justos: não é que passem incólumes pela jornada, afinal o que elas descobrem no final é algo bem bonito, um desses segredos muito valiosos os quais passamos por ele sem nos darmos conta.

Enfim, se esse é o livro de estreia do Jim, eu espero ansiosamente pelo próximo. Vale a leitura, é uma aventura bem legal, muito bem conduzida, é como ver um encontro literário entre Quentin Tarantino e Tim Burton. E quero mais histórias no universo de felicidade imposta de Sarah!

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Lançamento: Meu Amor É Um Vampiro, da Editora Draco

Eu disse que teríamos boas novidades em breve, essa é uma delas!

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“MEU AMOR É UM VAMPIRO”, PRIMEIRO VOLUME DA COLEÇÃO AMORES PROIBIDOS

 

A coleção Amores Proibidos vem mostrar que o amor verdadeiro vence todas as barreiras, e pode fazer pessoas muito diferentes descobrirem que tem algo em comum, mesmo quando o coração de uma delas não bate há séculos.

 

Se apaixonar não é nada fácil. Rola ansiedade, expectativa e muito nervosismo pensando no primeiro encontro e, quem sabe, no primeiro beijo. Imagine então quando o pretendente é um vampiro?
Pode ser um bem tradicional de capa e longos caninos, um sombrio e misterioso que aparece de repente na sua janela ou um aventureiro de moto e calça jeans, louco para te levar em um passeio inesquecível. Nesses casos, a adrenalina é ainda maior!

Nas perigosas páginas de Meu Amor é um Vampiro você conhecerá histórias fantásticas das melhores autoras de literatura vampiresca nacional, repletas de casais apaixonados e situações surpreendentes. Mas não pense que tudo são flores e caixas de bombom, afinal de contas, encontrar o par perfeito pode esconder terríveis surpresas.

Proteja o seu pescoço e marque um encontro com histórias que vão do romance ao susto, do suspense ao riso, numa leitura com beijos de tirar o fôlego.

Quem nunca se apaixonou que enfie a primeira estaca.

Essa coletânea é organizada pelo escritor Eric Novello e pela editora Janaína Chervezan, leitores assíduos de literatura de vampiros, e tem o prefácio da dama morcega Giulia Moon, uma das maiores escritoras brasileiras dentro do gênero de terror vampiresco.

Sobre as autoras

Adriana Araújo é uma criatura estranha com idéias esquisitas. Cria histórias em tempo integral e estuda Química na UFMG para se distrair. Já publicou contos nas coletâneas Pacto de Monstros (2009) e Paradigmas 4 (2010) e mantém os sites de tirinhas Bram & Vlad, sobre vampiros, clichês e coisas da vida e Periódicas, onde a Química ri. Seu lema de vida é “não se leve tão a sério”.

Ana Carolina Silveira é advogada, blogueira, leitora inveterada e escritora eventual, não necessariamente nesta ordem. Tem residência variável, sendo a atual Belo Horizonte-MG. Jogou muito Vampiro: A Máscara durante a adolescência e até  hoje tem uma quedinha por Lestat de Lioncourt.

Cristina ‘Tziganne’ Rodriguez tem alma e vida de cigana. Muda incessantemente, procurando descobrir algo de novo no mundo que a cerca. Romântica, acha que o amor supera tudo, inclusive vampirismo. É casada e tem um filho. Dedica-se a escrever e a tentar cuidar de plantas, sem muito sucesso. ‘O vermelho do teu sangue’ é seu primeiro conto publicado. Para saber mais sobre ela, visite: http://tziganne.blogspot.com

Giulia Moon é paulistana, formada em publicidade e propaganda pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Já foi diretora de arte, ilustradora, diretora de criação e sócia de agência de propaganda. Giulia tem três coletâneas de contos publicadas: Luar de Vampiros (2003), Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros (2004) e A Dama-Morcega (2006). Em 2009, lançou o seu primeiro romance, Kaori: Perfume de Vampira. Participou das coletâneas Amor Vampiro (2008), Território V (2009), Galeria do Sobrenatural (2009) e Imaginários Vol. 1 (2009).

Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora dos livros de ficção Assassinato na Biblioteca, Lobo Alpha, Código Criatura, Kimaera – Dois mundos, Nanquim – Memórias de um cachorro da Pet Terapia (infantil), O Arqueiro e a Feiticeira, Aliança dos Povos e Despertar do Dragão (os três últimos da saga A Caverna de Cristais). É também coautora da não-ficção Memórias da Hotelaria Santista (1997). Publica contos em sites, antologias e revistas. Mais sobre seu trabalho em http://mundonergal.blogspot.com

Nazarethe Fonseca nasceu em São Luís, Maranhão. Começou a escrever aos 15 anos, após um sonho que se tornaria seu primeiro livro, uma trama policial. É autora da saga Alma e Sangue, iniciada com O Despertar do Vampiro e que prossegue em O Império dos Vampiros. Escreveu também Kara e Kmam, e publicou contos nas coletâneas Necrópole: Histórias de Bruxaria e Anno Domini.  Mora atualmente em Natal, Rio Grande do Norte. Seu e-mail de contato é almaesangue@gmail.com.

Regina Drummond é mineira e mora em Munique, Alemanha. Apesar da sua formação de professora, nunca deu aulas, mas sempre trabalhou com literatura. Autora de muitos livros, tradutora e contadora de histórias, fala alemão, inglês e francês. Já ganhou alguns prêmios e destaques, sendo o mais importante o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, como editora. Escreve ainda para jornais e revistas, nacionais e internacionais. Entre seus livros, destacam-se “Destino: Transilvânia” (Ed. Scipione); “Sete Histórias do Mundo Mágico” (Ed. Devir); “O destino de uma jovem maga” e “Histórias de Arrepiar” (Giz Editorial); “O Passarinho Rafa”, (Ed. Melhoramentos). Para conhecer seu trabalho, acesse a homepage http://www.regina-drummond.de

Rosana Rios é autora de Lit. Fantástica, Infantil, Juvenil. Em 22 anos de carreira produziu ficção, teatro, roteiros (TV e quadrinhos), Publicou mais de 100 obras e recebeu os prêmios: Cid. de Belo Horizonte (1990), Bienal Nestlé de Literatura (1991), Prêmio Abril de Jornalismo (1994), Menção Altamente Recomendável da FNLIJ (1995, 2006) e foi finalista do Prêmio Jabuti (2008). Mora em São Paulo com a família, uma enorme biblioteca e uma coleção de dragões. Site: http://www.segredodaspedras.com. Blog: http://rosanariosliterature.blogspot.com.

Valéria Hadel nasceu na capital do Estado de São Paulo. É descendente de húngaros e romenos, o que de certa forma explica sua familiaridade com vampiros. Graduou-se em biologia, fez pós-graduação em ecologia e zoologia, e mora em São Sebastião, litoral norte do Estado, desde 1984, quando foi trabalhar com biologia marinha. Sua área de atuação é a pesquisa e o ensino em ecologia e educação ambiental marinha e costeira. No quintal da sua casa moram cinco vira-latas, um dos quais é personagem do conto que escreveu para esta coletânea.

Meu amor é um vampiro
Organizado por Eric Novello e Janaina Chervezan
ISBN
: 978-85-62942-09-9

Gênero: romance sobrenatural (paranormal)

Páginas: 160

Preço de capa: R$ 31,90

DISPONÍVEL NA SEGUNDA QUINZENA DE MAIO/2010

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Aqui, segue o comentário do editor Eric Novello sobre a coletânea.

Aguardem, porque vocês vão gostar da coletânea!!! E já adianto que vai ter promoção aqui no blog!!!

 

Feliz Dia do Livro!

Hoje é dia 23 de abril, dia internacional do livro. Livros são a razão de ser deste blog, então hoje é uma data para ser lembrada e comemorada!

Então aqui deixo minha pequena homenagem ao padroeiro da data, desejando mais um ano de livros e bênçãos!

Salve, Jorge, dê-nos forças para vencer todos os dragões da vida!

Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário – Vários Autores

O Brasil, feliz ou infelizmente, é o “país do futuro”, que jamais chega. Tivemos várias oportunidades históricas de saltos de desenvolvimento, mas acabamos por ficar para trás. Nós, mais do que a grande maioria das nações, temos na pele o sentimento do que poderia ter sido, mas por várias razões não foi. Agora vivemos um período de crescimento e prosperidade, mas estaremos escolhendo os rumos certos? Será que finalmente viraremos o país do presente?

Mas quantos planos não foram frustrados, embriões de bonança abortados, sonhos partidos? Quantos futuros não poderíamos ter tido, não fossem os mais diversos fatores?

O steampunk lida, como já dito antes, com um futuro que não foi. Como nós, brasileiros, enxergaríamos então um passado glorioso que poderia ter sido?

Bom, primeiro é preciso dizer que o steampunk demorou a pegar no Brasil, tendo sido mais divulgado só a partir da segunda metade da década de 2000 (apesar de já existir como gênero desde 1990). Não saíram muitas obras steampunk estrangeiras no Brasil, dá para destacar principalmente o RPG Castelo Falkenstein e os quadrinhos d’A Liga Extraordinária, mas não muito mais do que isso.

O primeiro livro genuinamente nacional a tratar do steampunk foi a coletânea Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, lançada pela Tarja Editorial em 2009. A Tarja, como quem acompanha o blog já sabe, é uma editora voltada principalmente para a ficção especulativa nacional e vem lançando trabalhos bem interessantes de nossos autores.

A edição é muito bem cuidada, o projeto editorial é bem legal, é um livro bonito de se ter em mãos. Foram convidados para compô-los vários autores, de vários estilos, mostrando sua visão do steampunk.

Interessante perceber também que a coletânea teve repercussão internacional, ganhando resenha do crítico literário estadunidense Larry Nolan, em seu blog, que dá destaque à obra dentro do cenário da ficção especulativa latino-americana.

Agora, vamos ao que interessa, uma análise pequenina de cada conto:

O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli – Uma introdução aos demais contos e ao steampunk. É um conto policial, com uma boa dose de teoria da conspiração, passado em um cenário steampunk. Só que é um conto onde… falta algo. A narrativa e o desenvolvimento fluem muito bem, mas falta sal e pimenta, falta empolgação e empatia. Mas cumpre bem seu papel como introdutor do steampunk, o que faz muito bem, e sai como abre-alas dos contos que virão :).


Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes
– O conto, em formato de relato histórico, trata das consequências e mudanças que a humanidade sofreria caso o projeto de determinado cientista ficcional tivesse resultados mais positivos. Se uma borboleta que bate asas em Manhattan gera uma tempestade em Pequim, da mesma forma uma engrenagem bem-montada na Inglaterra vitoriana tem o poder de alterar guerras e revoluções. O desenvolvimento é bem interessante e factível, caso houvesse a mesma tecnologia, é bem provável que os fatos ocorressem como sugeridos no conto.
E, é claro, o final é de arrepiar.

A Flor do Estrume, de Antonio Luiz M. C. Costa – Steampunk no Brasil, uma ficção alternativa utilizando dois personagens bem conhecidos aos olhos do leitor em uma situação inédita, mas bem plausível pela personalidade de ambos. Uma história alternativa em que a história colonial foi um bocado diferente – mas, uma grande falha no conto, apesar de que a compreensão de que se trata de uma realidade alternativa estar implícita, faltaram “porquês” para o leitor: como existe um Instituto Butantã alternativo no mesmo lugar de nossa realidade, que trata de matérias semelhantes e tem o mesmo nome do nosso, por exemplo. Depois vim a saber que o universo alternativo do autor já tinha sido trabalhado antes e possui suas próprias regras internas, mas a reação à leitura foi um “hã?” inevitável.
Mas é bem interessante o enfoque às ciências biológicas, ao invés do combo física-química-engenharia tão comum ao gênero – e, é claro, pelo bom uso dos personagens consagrados.


A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster
– Este é um conto que tem uma pegada diferente de todos os demais do livro: é uma aventura juvenil ocorrida no Brasil Império, sob o reinado de D. Pedro II (ele mesmo, na nossa realidade, era um amante das ciências), com um clima bem próximo ao de desenhos antigos e das séries que acompanhávamos na infância e adolescência. Se o espírito steampunk diz respeito ao saudosismo de algo que poderia ter sido e não foi, é este também o espírito do conto, tanto na história principal quanto nas entrelinhas. O protagonista, um gênio adolescente cheio de sonhos, pode ter a capacidade de realizá-los, mas será que seu ambiente cheio de restrições, burocracias e politicagens permitirá?
O conto tem algumas falhas – um dos personagens me parece ingênuo demais em relação ao mundo em que vive e a “costura” do clímax da trama me pareceu um bocado frágil – mas sua diferença temática em relação aos demais é digna de nota.


O Plano de Robida: Une Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo
– o maior conto da coletânea e, justificando seu tamanho, várias twists. Piratas espaciais ameaçam o Brasil imperial, num ar meio Capitain Sky and the World of Tomorrow, para logo passar para todo um planejamento de guerra e mergulhar em uma aventura com arzinho de pulp fiction. Algumas passagens, principalmente as da guerra, ficaram arrastadas e o desenvolvimento lento. Inclusive, um personagem da primeira parte do conto poderia ter rendido mais na segunda, ele praticamente desaparece, absorvido pelos acontecimentos. E o final, apesar da extensão do conto, não é em aberto – o conto termina mais como o prelúdio de algo maior do que uma ideia que se encerra em si mesma.


O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa
– Um conto muito bem construído, homenagem sincera e bem elaborada ao horror lovecraftiano. Só tem um pequeno probleminha: não é steampunk. Não é porque aparece um navio a vapor que a obra se caracteriza como o gênero.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia – Provavelmente é o melhor conto do livro. Três coisas em especial chamam a atenção: a primeira, a ambientação. Estamos na Era Vitoriana sim, mas na parte suja dela, a do trabalhador explorado que luta pelos seus direitos. No caso de alguns deles, autômatos domésticos, a luta também é pelo seu reconhecimento como pessoas. A segunda, o new weird. O conto é estranho, os termos são propositadamente esquisitos e malexplicados, é proposital a busca de um ambiente em que pouco é óbvio, mas onde o principal, como a trama e o desenvolvimento de personagens salta aos olhos. A terceira… a trama. Apesar da estranheza proposital, em nenhum momento o leitor se perde nos acontecimentos ou nos desejos e intenções dos personagens, a trama é conduzida de forma tranquila e segura para onde o autor quer que ela chegue.
É uma aula de conto, de narrativa e de estilo – além da história ser bem interessante e envolvente.


Cidade Phantástica, de Romeu Martins
– Uma aventura steampunk no Rio de Janeiro imperial, onde alguns fatos políticos ocorreram de maneira diferente de nossa realidade, como a ausência da Guerra do Paraguai e uma abolição décadas antes da real, além da aparição de personagens ficcionais brasileiros, como o pai da Sinhá Moça, que faz uma participação especial, e certo vilão muito conhecido. Aqui acontece algo inverso ao primeiro conto do livro: o conto tem pegada, tem empatia… mas tem alguns probleminhas de desenvolvimento. A trama é um bocadinho confusa, como se três histórias estivessem fundidas em uma só e fossem contadas em conjunto, mas sem delineamento. Achei uma pena, porque faltou só uma acertadinha de pilares para termos aqui um conto muito bom.

Por Um Fio, de Flavio Medeiros – A configuração política mundial alterou-se graças à tecnologia do vapor e o Império Britânico acabou por ter uma configuração bem diferente daquele de nossa realidade – e a guerra entre as três superpotências deste mundo está em curso. Dois personagens clássicos de Júlio Verne, o Capitão Nemo e Nobur, o Conquistador. O que poderia tornar-se um mero conto de fetiche tecnológico se torna um texto tenso sobre a guerra, sobre as razões de guerrear e sobre a honra que se espera do adversário respeitado. É uma bela homenagem ao autor e aos seus personagens e uma experiência de leitura cheia de tensão e reflexão.

Enfim, são visões bem diferentes do steampunk, da ciência, da tecnologia e até mesmo de alguns personagens e figuras clássicas, usados mais de uma vez por autores diferentes ao longo da obra. Vale como leitura tanto pela introdução ao universo do vapor quanto pela variedade dos temas. Tire seu óculos de aviador do armário e desenferruje as engrenagens para curtir um pouco de agitação vitoriana!

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Steampunk

Todos nós somos um pouco saudosistas, alguns mais, outros menos. É comum ouvirmos coisas como “no meu tempo as coisas eram melhores”, “no meu tempo tudo era diferente” e outras variantes. A nostalgia é parte de nós, ainda mais quando estamos diante de tempos difíceis e precisamos recorrer a lembranças de quando tudo era seguro e agradável.

O Steampunk, como gênero literário, também é uma espécie de releitura do saudosismo. O gênero é uma derivação do cyberpunk (aqui cabe um parêntesis para falar da ironia de falar do cyberpunk como uma projeção de um futuro que já chegou), que trata de como a humanidade estaria em um futuro próximo dominado pela alta tecnologia, principalmente a computacional, e onde as diferenças sociais se agravariam ainda mais pelo fortalecimento e ascensão das megacorporações e pelo crescimento de uma classe social posta à margem do progresso.

Já o steampunk parte da seguinte premissa: a tecnologia do vapor (“steam”, em inglês) surgiu no final do século XVIII-início do século XIX e foi determinante tanto para a industrialização (Revolução Industrial, baby) quanto, por via de consequência, da expansão do Império Britânico ocorrida no período vitoriano (chamado assim por ter coincidido com o longo reinado da Rainha Vitória). O século XIX também assistiu a ascensão do positivismo – e da aplicação mais rigorosa do método científico – e avanços científicos como o delineamento da evolução, por Darwin, e maiores conhecimentos sobre eletromagnetismo e química, que muito influenciaram as descobertas e teoremas elaborados posteriormente por Bohr, Curie, Einstein… Foi um século de luzes.

Então por que não pensar que em um caldo cultural tão propício ao desenvolvimento e à expansão, a tecnologia do vapor tivesse avançado mais do que realmente avançou e gerado tecnologias que só conhecemos depois, como a computação, a robótica, o motor à combustão ou os eletrodomésticos? Como seria o século XIX com o maior desenvolvimento do vapor – e também os séculos XX e XXI?

A obra que definiu o steampunk como gênero foi o livro The Difference Engine (“A Máquina Diferencial”), de William Gibson e Bruce Sterling (que são dois autores clássicos do cyberpunk), de 1990 (para quem quiser conferir, a editora Aleph anunciou a edição em português da obra para este ano ainda), apesar de haverem trabalhos anteriores sobre a era vitoriana especulativa (e nem estou falando de Júlio Verne, que era definitivamente um visionário ;))

Claro que o steampunk é um prato cheio para quem gosta de estética retrô. Engrenagens mil, muito cobre, muita especulação em engenharia (aqui vai uma galeriazinha com alguns exemplos de objetos steampunk). Inclusive, graças à sua estética, o movimento foi adotado em parte pelo gótico (que também parte da estética vitoriana). Afinal, quem não gosta de imaginar máquinas diferentes e diversas entre si? 😉

Mas engana-se quem limita o steampunk à especulação tecnológica. O elemento “punk” que veio de seu tronco principal – o cyberpunk – diz respeito, também e principalmente, à crítica social. O século XIX e o Império Britânico foram o berço da civilização e da inovação científica? Foram sim, mas também promoveram a exploração, matança e divisão da África, o que gera consequências gravíssimas até hoje, assim como um sistema de colonização opressivo no Oriente Médio e Ásia (e que também foi responsável por vários frutos colhidos ao longo do século XX…). Também foi a época da exploração dos operários pelos industriais, o que gerou movimentos de revolta e propiciou o início de várias lutas sociais e movimentos políticos. Não houve apenas luzes, mas uma boa dose de trevas…

Dois outros gêneros literários que muitas vezes aparecem entrelaçados ao steampunk são a história alternativa e a ficção alternativa. O primeiro diz respeito a um certo “e se…?”, mas levado a fatos históricos. E se Francisco Ferdinando não tivesse sido assassinado? E se Napoleão tivesse morrido durante a infância? Quais seriam as consequências para nossa realidade? Se nós supomos que a tecnologia a vapor ocorreu de forma diferente, então é natural que fatos históricos tenham acontecido de maneira diversa, deixando a especulação livre para o autor. Já a ficção alternativa usa o mesmo raciocínio para personagens ficcionais visitando outras realidades: imagine só Dorian Gray flertando com Emma Bovary, por exemplo, ou o Bentinho “Dom Casmurro” se consultando com o Alienista? A ideia é mais ou menos essa, tomar emprestado personagens e cenários e misturá-los – o melhor exemplo de ficção alternativa steampunk continua sendo o quadrinho A Liga Extarodinária, do Alan Moore (o filme não faz justiça à obra, mas também serve para dar uma noção de como funciona a ficção alternativa).

O steampunk é um prato cheio para imaginar como as coisas poderiam ter sido, mas não foram. Coloquem o saudosismo de fora e curtam o poder do vapor!

Claro que não é minha intenção falar do steampunk como um todo, mas só dar uma introduçãozinha. Algumas pessoas fazem/fizeram melhor do que eu, aí uma lista de links para quem quiser se aprofundar no assunto:

Portal Steampunk: a maior página, com várias informações, sobre o steampunk no Brasil. Bem interessante.
Cidade Phantastica: Blog bem legal do Romeu Martins, também sobre steampunk em geral
Papo de Artista Steampunk: Do podcast do multiartista e multitarefas Rod Reis, com participação especial minha e do pessoal do Papo na Estante. Vale colocar no iPod.

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Até a próxima!

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A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte III: A Análise

Continuando com a última parte do especial aqui do blog, já que a Editora Leya anunciou a publicação da saga no Brasil.

Para quem não está acompanhando, aqui vão os links para a PARTE I e para a PARTE II do especial.

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As Referências

Claro que é impossível determinar todo o caldo referencial de onde uma série surge, ainda mais se a bagagem literária e cultural do autor é extensa. Às vezes o personagem X surgiu da observação de uma pessoa conhecida, ou o evento Y surgiu de uma “digestão inconsciente” de vários dados dispersos entre si. A fonte da inspiração acaba sendo essa, no fim das contas, a absorção ao longo da vida de fatos, eventos, leituras, personagens reais ou não, sensações pessoais, enfim, da vivência.

Não existe criatividade sem alimentação, não há como construir um cenário convincente para uma história sem alimentar-se de sua própria história (às vezes me dá desgosto em perceber o quanto algumas pessoas que querem seguir o caminho de escritoras desconhecem a história brasileira, que deveria ser o mínimo), geografia, um pouquinho de ciências naturais para não cair no física, quimica ou biologicamente impossível e muita literatura. Ler os clássicos é uma exigência “para ontem” – afinal, tem muita gente por aí querendo reinventar a roda, por que não descobrir e apreciar aquilo que foi feito?

Seria impossível para mim analisar todas as referências de George R. R. Martin ou de quem quer que seja, mas tem algumas bem interessantes e dignas de nota.

A primeira, e mais óbvia de todas, é a referência à Guerra das Duas Rosas e aos eventos históricos ingleses ocorridos do século XII até mais ou menos o século XVII. Para os desavisados, a Guerra das Duas Rosas foi uma guerra civil ocorrida no século XV entre as famílias York e Lancaster, que disputavam o trono inglês. Bom, o símbolo dos York era a rosa branca e o dos Lancaster a rosa vermelha, então aí está a origem do nome do conflito – e se pararmos para pensar, além da inspiração dos nomes, uma das cores dos Stark é o branco e uma dos Lannister é o vermelho 😉

Há também várias referências a nobres ingleses (a mais notória, a Ricardo III, que tem seu espectro dividido em dois personagens: o Ricardo III real inspirou Stannis Baratheon, enquanto o Ricardo III concebido por Shakespeare inspirou Tyrion Lannister) e a eventos ocorridos no período acima destacado.

Mas, claro, não apenas aos ingleses. Alguns outros personagens históricos europeus dão o ar de sua graça, bem como a inspiração das ricas famílias italianas renascentistas (dá para ver um eco bem grande dos Bórgias, na concepção da família Lannister, pelo poder, riqueza e devassidão moral. A própria Cersei tem muito de Lucrezia Borgia em si).

E também a visão de outros povos. Os Dothraki, o povo dos cavalos, tem muito dos hunos/mongóis históricos, assim como os Ironborn são uma mistura de vikings com os navegadores portugueses. As cidades-estado do outro lado do mar lembram a dinâmica das cidade-estado gregas e Braavos é inspirada em Veneza e seus canais.

E as referências ficcionais? As histórias de cavalaria do século XIX – se procurarem direitinho, vão encontrar o Ivanhoé lutando justas em Westeros, assim como uma versão dark do Robin Hood e de seus foras-da-lei. Dom Quixote está lá – como referência a personagens (dá para encontrar no mínimo dois Quixotes e dois Sanchos na série), ao cenário e até mesmo certa personagem que vai assistir a uma peça chamada Knight of the Woeful Contenance (“O Cavaleiro da Triste Figura”) 😉

Os clássicos, como Crime e Castigo e Moby Dick, marcam presença – e também a fantasia e a ficção científica clássicas. As referências a Tolkien, em temática e até mesmo em alguns nomes são tão claras que não precisam de comentários. Os Ironborn e sua cultura também são uma clara homenagem a H. P. Lovecraft – desde seu símbolo, o Kraken, passando por sua religião, que cultura o Deus Submerso, até Dogon, um de seus ancestrais 😉

Outra obra que é referência claríssima é Duna – tanto pelo papel assumido pela política e pela intriga social em uma obra ficcional quanto por pontos específicos, como uma releitura dos dançarinos faciais e dos mentats.

A fantasia mais contemporânea, como Black Company do Gleen Cook – em que o desenvolvimento dos personagens é forte e onde os personagens cinza começam a ter lugar de destaque – a obra de Jack Vance e, porque não, a saga Wheel of Time do amigo pessoal Robert Jordan também estão lá.

Partindo para a mitologia, talvez a primeira e mais clara das lendas referencias seja o ciclo arturiano – tanto as lendas quanto um bocadinho de Once and a Future King, do T. H. White – e, por que não, do meu “querido” Bernard Cornwell. Alguns dos personagens lembram Lancelot, Galahad, Merlin, Mordred e todos os outros. E, inclusive, o próprio rei Arthur – o filho bastardo do Uthred e único e oculto herdeiro de um trono vago.

Também há várias referências mitológicas gregas e celtas – quanto às gregas, não apenas as mitológicas, mas também os das tragédias, como a tentativa vã de escapar de profecias.

Enfim, essa foi só uma pincelada. Leiam vocês também e coloquem aí nos comentários as referências que vocês encontrarem ^^

A Resenha

O grande mérito de George R. R. Martin e de A Song of Ice and Fire é dar um passo adiante no cânon da fantasia contemporânea. Enquanto muitos repetem fórmulas – ou mesmo avançam pouco dentro do pré-estabelecido mas não conseguem ir além – essa é a inauguração do novo dentro da fantasia.

J. R. R. Tolkien é um dos cânons da fantasia moderna (e a utilização de “moderna” e “contemporânea” aqui é proposital). Não dá para negar sua influência em tudo aquilo o que veio depois – desde a alta fantasia de Gary Gygax e Dave Arneson (os criadores do Dungeons and Dragons – o RPG -, apesar de sua inspiração alegada ser Robert Howard e o sword and sorcery) até a fantasia urbana de Neil Gaiman.

Mesmo as séries mais contemporâneas, como Wheel of Time, tem uma raiz tolkeniana arraigada, por mais que os anões, elfos e fireballs – ou seja, o clichê e o lugar comum da alta fantasia – estejam distantes. São passos que caminham para a evolução e para a revolução.

Os personagens cinza – ou seja, aqueles em que o bem e o mal convivem igualmente – não são novidades na ficção fantástica, vide a série Black Company – do início da década de 1980 e que traz como protagonistas um grupo de anti-heróis. Como já disse antes, a política ter papel pivotal em uma trama, tendo suas nuances exploradas, também não é novidade, vide Duna – que também é uma obra-prima, um divisor de águas e um cânon dentro da ficção científica – que é de 1965. Então, A Song of Ice and Fire representa inovação temática? Não. Mas representa um modo de fazer inovador.

O que faz a saga funcionar – e destacar-se das várias similares – é a junção dos elementos na contagem da história: o cenário fantástico detalhado e profundo, a trama política que se assemelha a um romance histórico e os personagens humanos e carismáticos. Meu conselho hoje para alguém que quer escrever fantasia – ou entender os contornos do gênero: leia Tolkien. E leia Martin.

É fácil encontrar na obra vários dos clichês de fantasia: o príncipe prometido, a profecia, o cavaleiro andante, a linda princesa que se apaixona pelo guerreiro rude, a menina que se veste de homem para poder lutar… Só que a grande maioria deles vem com uma roupagem nova e não óbvia. É a inovação e a criação, não a mera repetição vazia do que se viu em obras anteriores. (para uma lista bem interessante E CHEIA DE SPOILERS dos clichês de A Song of Ice and Fire – e uma boa amostragem de como alguns foram subvertidos – clique AQUI)

Não posso fazer ainda uma análise completa da saga – principalmente porque ainda faltam no mínimo mas três livros para serem lançados e há alguns desenvolvimentos de personagem que precisam ser esclarecidos, mas mesmo que nunca haja uma conclusão, é leitura obrigatória.

E as falhas? A principal delas são algumas incongruências narrativas ocorridas no livro três (e que infelizmente não dá para explorar sem esbarrar em milhares de spoilers, mas se alguém tiver lido e desejar MESMO a explicação, cutuque), que culminaram no lançamento, em uma década, apenas do quarto livro, mas não sei se elas serão corrigidas nos próximos livros, então este ponto fica em aberto.


A Game of Thrones, o Seriado

Agora é oficial!

A HBO anunciou a produção da série A Game of Thrones, a adaptação de A Song of Ice and Fire, que deve estreiar no início de 2011. O elenco conta com nomes como Sean Bean (o Boromir de Senhor dos Anéis, entre outros) como Eddard Stark, Lena Headey (a Rainha Gorgo de 300, a Sarah Connor de The Sarah Connor Chronicles, entre outros) como Cersei Lannister e muitos outros. Bom, aqui fica o registro, falo mais sobre o seriado no futuro (ainda mais porque sou fã de Rome, Band of Brothers, True Blood… :P)


Westeros sob outros olhares

Aqui, duas resenhas nacionais sobre A Song of Ice and Fire, feitas por Ana Cristina Rodrigues e Rober Pinheiro.

Internacionalmente, indico a Westeros.Org, que é um fansite com as bênçãos do autor da série, bem como o Tower of the Hand, para informações mais rápidas. Sobre a produção do seriado, tem o Winter is Coming, com informações quentes.

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E com isso, acabamos nosso especial A Song of Ice and Fire e retomamos a programação normal! Caso vocês queiram ver mais informações sobre a série, análises e personagens, peçam, que terei prazer em atender 😛

O link de comentários está aberto, acima.

E até a próxima!

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Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis