Stardust – Neil Gaiman

Neil Gaiman é um escritor britânico que ganhou fama internacional como roteirista da série de quadrinhos Sandman, da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. Trata de uma das séries que revolucionou o próprio conceito de quadrinhos como entretenimento, dando-lhes um viés ao mesmo tempo literário e artístico, mitológico e pop. É uma grande releitura de Sandman, personagem clássico da editora, mas também do mito de Morfeu, o deus dos sonhos dos gregos.

Stardust, elaborado juntamente com o desenhista Charles Vess, lançado originalmente em volumes pela DC, traz uma proposta semelhante: um conto de fadas – ricamente ilustrado, diga-se de passagem – elaborado para leitores adultos.

A trama é bem simples: na Inglaterra vitoriana, em uma pequena vila que faz fronteira entre o mundo dos mortais e o mundo das fadas, um jovem faz a seguinte promessa para sua amada: capturar uma estrela cadente. Só que, como é natural em um conto de fadas, a natureza da estrela cadente não é exatamente o que ele quer encontrar…

Aqui, a mistura do clássico e do pop apresentada em Sandman dá lugar aos elementos típicos dos contos de fadas: a bruxa, a princesa desaparecida, o herói valente que tem um coração de ouro, criaturas que o ajudarão em seu percurso, um reino que precisa de um herdeiro, a simbologia de números como três e sete, a presença e o poder das cantigas… Tudo isso em uma construção interessante e intrincada.

Mas, acima de tudo, é um livro que, apesar de um autor experiente e com domínio de narrativa invejável, possui alguns problemas sérios. O primeiro deles: quando a história chega em sua metade, o ritmo se altera totalmente. Era como se a cadência de uma melodia, que se mantinha durante a primeira parte, fosse alterada de maneira radical. Os acontecimentos se aceleram mas não porque a narrativa e a condução dos mesmos assim o exige – parece que o autor detalhou demais os primeiros elementos e, tendo um número limitado de páginas a cumprir, saiu correndo no final.

Além disso, a aparição da Irmandade do Castelo aparece muito mais como deus ex machina do que como solução. São personagens totalmente isolados da trama, que não se amarram ou se encaixam e deixam mais perguntas do que respostas. Servem apenas de via fácil para o autor tirar seus personagens de uma enrascada.

Alguns acontecimentos do desfecho da história também tem esse gosto de deus ex machina. Um fato bastante relevante na vida de Tristram passa quase que batido, enquanto outro simplesmente surge, sem nenhuma indicação de que aquilo poderia ocorrer. Mesmo os finais de alguns personagens parecem forçados, não-naturais, mal trabalhados… Uma pena. Sinceramente, esse era um universo que merecia mais capricho. Prefiro acreditar que a DC Comics precisou diminuir o número de edições por alguma razão, fazendo com que o autor não pudesse concluir e colocar os detalhes necessários para a trama.

E aqui cabe um adendo. Em 2007, a adaptação de Stardust chegou às telas de cinema.

Adaptação sempre é uma questão polêmica, mas o roteiro do filme de Stardust corrige algumas das falhas grandes e visíveis do livro, transcrevendo-as em um filme delicado, interessante – e, até mesmo, algo que o livro não dá brecha, com cenas de ação. Os grandes buracos do livro são preenchidos, as falhas arrumadas, algumas adições bem interessantes. Vale, principalmente, por um personagem exclusivo do filme: o capitão Shakespeare, que inclusive é o dono das melhores tiradas.

É um desses raros casos em que o filme sai melhor do que o livro originário, talvez por se permitir uma exploração maior e melhor do cenário.

***

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3 Responses to Stardust – Neil Gaiman

  1. Não vi o filme nem os quadrinhos, mas li o livro, e achei a mesmíssima coisa. Do meio pro final, o livro acelera sem qualquer motivo necessário, e os deus ex machina são demais: a árvore que fala, o capitão do Perdita… acho que ateh o Encantado tava no meio. E no final, quando a trama vai se resolver, você nao sente o clímax… fica algo meio resolvido. Sei lá, gostei do livro, mas ficou aquém do que eu esperava do Gaiman.

    Abraços Ana Carolina

    • Ana Carolina Silveira says:

      A árvore que fala nem vejo muito como deus ex machina, já que é um elemento até comum em contos de fada.
      Mas a Irmandade do Castelo e a verdadeira identidade da mãe do Tristram para mim foram de doer. Esses dois, para mim, foram os mais tirados de lugar nenhum apenas para solucionar situações difíceis.

      E não saiu em HQ, só em fascículos mesmo. ^^

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