Espelhos Irreais – Vários

Capa do Espelhos Irreais

Capa do Espelhos Irreais

Espelhos Irreais é um livro sobre cinco diferentes visões da realeza fantástica, em contos de cinco autores: Aguinaldo Peres, Ana Carolina Silveira, Ana Cristina Rodrigues, Daniel Abreu e Roderico Reis. Há a visão da realeza em uma fábula, no tênue limite entre o real e a imaginação, na alta fantasia clássica, na ficção científica… São abordagens diferentes, histórias diferentes entre si, autores diferentes, narrativas diferentes. Como uma degustação literária de estilos e autores.

É também a primeira publicação de papel da Fábrica dos Sonhos, organização que há quatro anos reune autores, escritas e projetos. Uma estreia, uma forma de demonstrar o que andamos fazendo neste tempo todo e também nos apresentar, como autores e como grupo.

Declaro-me suspeita para fazer uma resenha. 🙂 Mas podem ficar com a feita pelo Eric Novello e pelo Fernando Trevisan. 🙂

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E se meu namorado fosse um movimento literário?

Às vezes ficamos pensando sobre nossos namorados, sobre como eles poderiam ser. Árvores, CD’s, livros… Mas e se meu namorado fosse um movimento literário? Uma pequena piadinha de minha autoria (então favor darem os devidos créditos se forem replicar esse texto).

E se meu namorado fosse um movimento literário? – por Ana Carolina Silveira

Classicismo: Ele possui um quê épico, apreciando grandes combates e navegações, até mesmo de descobrir terras novas. Pode ser também que ele goste de introspecção, e de conversar com uma caveira sobre os dilemas da existência.

Barroco: Ele se veste de preto, seu músico predileto é Bach. Passa os dias se questionando sobre a existência ou não do inferno e, em caso positivo, se vai direto para lá ou não.

Arcadismo: Ele largou a agitada vida na cidade grande pela vida bucólica do campo. Gosta de passar feriados em Ouro Preto, de novelas das seis e de música sertaneja de raiz. Flerta com a política.

Romantismo: Ele é um cara lindo, maravilhoso e sensível, que monta um cavalo branco e pega onça na unha só para me agradar. Há o risco que ele se vista de preto, fique pelos cantos de madrugada bebendo cachaça e vendo fantasmas, e morra cedo por causa disso.

Realismo: Eu não presto. Ele é um idiota. Eu o traio com um cara bonitinho e gostosinho, e me ferro gostoso por isso.

Naturalismo: Sexo. Sexo sexo sexo sexo sexo.

Parnasianismo: Ele é tão lindo!!! E é só isso o que importa.

Simbolismo: Ele busca explicar com a ciência as suas angústias interiores. Nem sempre consegue. Às vezes ele fala coisas estranhas e incompreensíveis, algumas até mesmo repugnantes.

Modernismo: Teve uma adolescência agitada, quando se vestiu de mulher e andou pelado na rua apenas para chocar os seus pais. Na época de faculdade, consciente dos problemas sociais do país, estudou as diferenças regionais brasileiras. Após a formatura, sentiu vergonha das estripulias adolescentes, e passou a escrever um diário.

Pós-modernismo contemporâneo: Ninguém se importa que meu namorado more na China, ou que ele na verdade seja ela. Há a possibilidade de que ele/ela goste de autoajuda. E de varinhas mágicas.

Aposto que sua professora de literatura nunca explicou assim!

A Game of Thrones – George R. R. Martin

Toda a época – e todo o grupo – possui os seus modismos.
Se pararmos pra pensar na literatura de fantasia, podemos ver com clareza a “onda Tolkien”, bem como a “onda RPGista”: anões, elfos – que são inimigos entre si -, fireballs explodindo, um guerreiro que precisa salvar o mundo de uma ameaça maligna… Essas temáticas vão além do clichê, chegam a um ponto de recorrência que praticamente anula o processo criativo. E, a bem da verdade, o autor que se utiliza desses elementos não está mesmo criando nada.

A influência de Tolkien na literatura, explodida pelo hype dos filmes da trilogia O Senhor dos Anéis, parece exacerbada hoje. Se o caro leitor parar para pensar, quantos livros poderá dizer que são filhos ou netos diretos dessa geração tolkeniana, principalmente de nossos autores pátrios? Ou mesmo se pensar em outras mídias, como filmes e quadrinhos?

Ainda, depois do sucesso da série de filmes Senhor dos Anéis, os estúdios cinematográficos contribuiram um pouco, mesmo que indiretamente, para a propagação de clichês. Alguns livros de fantasia, de qualidade questionável ou não, viraram filmes e viram seus exemplares, em novas edições caprichadas, pipocarem em terras brasileiras. Posso citar de cabeça o clássico Crônicas de Nárnia, os recentes Fronteiras do Universo, Eragorn e Coração de Tinta, o acachapante Crepúsculo – e ele, o maior de todos, Harry Potter. Todos eles vão do infantil ao infanto-juvenil, ressalte-se.

Só que a fantasia não é apenas feita de Tolkien, Harry Potter e da prateleira do infanto-juvenil das livrarias. Essa é apenas a pontinha da pontinha da pontinha do iceberg – e, infelizmente, é a pontinha que chega ao leitor brasileiro. Salvo algumas editoras que se arriscam a publicar o diferente, como Conrad e Aleph, e algumas gratas surpresas como a publicação de um livro como Jonathan Strange & Mr. Norrell pela Cia. das Letras, a fantasia que não vem escorada em sucessos de cinema, em autores consagrados como Neil Gaiman ou Anne Rice, ou que vai direto para a prateleira do infanto-juvenil chega ao Brasil quase que por engano.

Enfim, uma dessas séries que vai além da pontinha do iceberg – e se revela quase um novo paradigma literário, como o próprio Senhor dos Anéis ou Fundação, para ficar em exemplos próximos – é A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin. A série está planejada para ter sete livros, os quatro primeiros já lançados, o quinto por sair ainda este ano e os outros dois em produção. A Game of Thrones é o livro inaugural da série.

Esqueçam os anões, elfos, bruxinhos, bolas de fogo, varinhas mágias e guerreiros salvando o mundo enquanto vivem a jornada do herói. A magia é óbvia, evidente, ululante, mas não faz uso de nenhum desses estratagemas para aparecer. Aliás, o prólogo já traz de imediato a certeza de que estamos diante de um livro de fantasia, sim, senhor!

Era uma vez o continente dos Sete Reinos de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno uma vida toda. O último verão durou mais de uma década, o que significa que um longo inverno se aproxima, e ele está chegando. Há uma barreira (“the Wall”) que separa o mundo civilizado do mundo selvagem dos Outros, e eles parecem se agitar quando o inverno chega.

Enquanto isso, a vida segue pacífica em Winterfell, castelo da família Stark, liderada pelo patriarca Eddard e por sua esposa Catelyn, até o dia em que são surpreendidos pelo rei Robert Baratheon, que faz uma proposta irrecusável a Eddard: ser a Mão do Rei – aquele que governa o reino de fato, enquanto o rei caça, bebe e se diverte.

Robert e Eddard são amigos de infância e lutaram juntos quando da tomada do reino das mãos de seu antigo monarca, Aerys II, o que torna o convite ainda mais difícil de ser declinado, e que obriga o patriarca Stark a mudar-se de sua casa para o palácio real, e a ser mais um personagem dentro das intrigas palacianas. Além da vida de Eddard, as mudanças na vida de sua família e das pessoas que se interligam com sua vida também estão em foco, com a criação de várias tramas paralelas que interferem nos acontecimentos principais.

Há ainda uma trama paralela que funciona bem como história à parte: é o destino de Daenerys Targaryen, última descendente de Aerys II, princesa exilada em uma terra distante. Inclusive, os capítulos que estão sob seu ponto de vista foram lançados como noveleta à parte, chamada Blood of the Dragon.

A história é formada por pequenos capítulos que correspondem ao ponto de vista dos mais diversos personagens. Em A Game of Thrones, são cerca de dez os personagens contemplados. E, sobre os personagens: o autor teve o dom de criar personagens reais: carismáticos, humanos com acertos e erros, críveis, que o leitor tem o dom de amar ou odiar se quiser.

Quanto ao ambiente, os Sete Reinos são em tudo um mundo em tudo parecido com o nosso. Sua tecnologia remonta à Baixa Idade Média no comecinho da transição para o Renascimento, mas com culturas e regras próprias condizentes a um universo particular. Há também inúmeras referências à nossa realidade, como a rixa entre as famílias Stark e Lannister – e que, devido a vários acontecimentos, só faz crescer – que é uma referência óbvia à dísputa de poder entre as famílias York e Lancaster, na Inglaterra, que culminou na Guerra das Rosas.

Bom, o leitor deve ter percebido que alguns termos estão em inglês. Pois é. O livro não foi publicado no Brasil, então as leituras possíveis são no idioma original ou em alguma tradução – a série está sendo lançada em Portugal, a quem interessar possa. Uma série no universo de A Song of Ice and Fire está em fase de pré-produção pela HBO e eu realmente espero que com o advento da série – como com o advento dos filmes impulsionou a tradução e o lançamento de livros – os livros possam ser publicados no Brasil. E, se há alguma editora me lendo: olhem com carinho para essa série, é uma grande história que merece ser publicada.

Ah! Me perguntaram nos comentários e achei interessante responder: você pode encomendar os livros na Amazon ou outros sites internacionais, mas há lojas nacionais que importam, como a Livraria Cultura. É também um livro relativamente fácil de ser encontrado em sebos, comprei meu exemplar por R$7,00 (sete reais).