Fome – Tibor Moricz

É o costume, tanto na comunidade Escritores de Fantasia quanto na Ficção Científica, que aquele que publique um livro, caso deseje fazer propaganda deste, deve disponibilizar um exemplar para sorteio entre os demais membros.

Em novembro do ano passado, ocorreu o lançamento do livro de Tibor Moricz (que, apesar do nome, é um autor brasileiro). Como a premissa me interessou, resolvi arriscar minha sorte no sorteio – e qual não foi a surpresa ao ser escolhida?

Fome não é o livro de estreia de seu autor, tampouco um romance. É um conjunto de contos, interligados entre si mas não co-dependentes, que se passam em um futuro pós-apocalíptico, onde por alguma razão a comida do mundo acabou e os poucos sobreviventes precisam se virar como podem. É um livro sobre o mais básico dos instintos: a sobrevivência. Também o é sobre a mais básica das necessidades: a alimentação.

Então, veremos que o homem é o lobo do homem – em todos os sentidos. O livro traz contos que partem para o choque, para a agressão, para o repugnante.

Só que aqui entra a minha opinião: como existem apenas o instinto, a selvageria e a loucura, como qualquer resquício de sociedade se perdeu e sobraram apenas indivíduos solitários e famintos, não consigo enxergá-los como seres humanos. São, isso sim, bichos dispostos a sobreviverem. E para bichos em franca luta pelo pão de cada dia, o que são tabus ou choques?

É diferente da situação de um maníaco que gosta de comer criancinhas (nos dois sentidos de “comer”). Neste caso, onde existe uma sociedade e consequentes regras de convivência e do que é socialmente tolerável ou não, é uma atitude monstruosa e execrável. Outro exemplo, o caso do Milagre dos Andes, onde os sobreviventes precisaram comer os amigos mortos para sobreviver. É o desespero de uma situação traumática e extrema, uma luta pela sobrevivência e para voltar à sociedade dos comuns.

Agora, quando já não existe sociedade e humanidade, que diferença faz? É chocante jogar dois vermes famintos numa bacia e ficar esperando até que um devore o outro? É cruel, mas não envolve nenhum tabu ou sentimento. Ou, mais próximo da realidade do livro, algum zumbi canibal. Gera empatia? Pois então.

Sobre os contos, percebe-se que o autor tem um excelente domínio da narrativa. Os dois primeiros são os mais fortes, onde o autor coloca as cartas na mesa e demonstra o que virá a partir dali. Só que o desenrolar dos contos começa a se tornar repetitivo: são as histórias de diferentes sobreviventes, mas que partem do mesmo lugar e chegam a conclusões semelhantes. Começa a se tornar mais do mesmo.

Outro ponto negativo foi o choque pelo choque. Um dos contos específico, chamado O Observador, me soou especialmente repugnante. Praticamente um round house kick no estômago.

Um terceiro ponto negativo – não do autor, mas da editora – é que o livro se desfez durante a leitura. Mal, muito mal.

Um ponto que acho interessante em um livro de contos fechados é que a leitura pode ser fracionada. Um conto hoje, outro amanhã, até mesmo intercalados com outro livro.

Outro ponto interessante é a do autor aventurar-se em um tema assumidamente polêmico, com o poder de gerar as mais díspares reações. Precisamos disso, de pessoas que se arrisquem a escrever, de pessoas que matem a fome de leitura com novidades.

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