A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Depois de muita fantasia e ficção científica, vamos a um livro que não pertence a nenhuma categoria de ficção especulativa (apesar de possuir alguns detalhes que não possuem exatamente verossimilhança…). Uma colega estava lendo este livro em minha sala, há uns dois anos, recomendando-o como boa leitura. Ainda, uma amiga comprara, também empolgada por comentários favoráveis.

Um parêntesis, antes de continuar com o livro. Sou apaixonada por livrarias – entrar, passear, folhear, descobrir este ou aquele romance, ver que esta ou aquela capa chamam a atenção, levar um pocket esperto por um preço bom ou procurar determinado livro específico – mas adoro as livrarias online e suas ofertas tentadoras. Descontos de mais de 50% por livro SEMPRE são tentadores, convites a encher cada vez mais minha biblioteca particular. Então, por que não aproveitar superdescontos?

Em uma das minhas compras, interessada em comprar algum livro que não fosse de ficção especulativa, descobri que A Sombra no Vento estava em uma adorável oferta por R$15,90. Não pensei duas vezes – tinha sido bem-indicado, e R$15,90 não representam exatamente um prejuízo para um livro ruim.

A história trata de Daniel Sempere, um garoto de dez anos órfão de mãe, levado por seu pai ao Cemitério dos Livros Esquecidos (ADOREI o cenário, por que não pensei nele?), onde encontra o romance A Sombra do Vento, escrito por um tal de Julián Carax. Encantado pelo livro, passa a adolescência em busca de seu misterioso autor, encontrando cada vez mais mistérios no caminho que o leva até ele, topando com amigos e inimigos.

É uma história de suspense e mistério, mas com uma leveza adolescente. E trata, também, justamente disso – essa transição leve e misteriosa entre a adolescência e a fase adulta, que diz respeito também à mudança nos relacionamentos que trazemos da infância, à descoberta do amor e do sexo, a assunção de responsabilidades e das consequências de nossas ações.

É também um livro sobre… a leitura. Sobre a importância do livro, sobre mergulhar de cabeça em histórias que nos sejam, como leitores, realmente empolgantes, sobre envolver-se com seus personagens e trama e levar isso às últimas consequências.

A trama, que possui como narrador seu personagem principal, é bastante ágil, com pistas (algumas falsas) e novas informações a cada capítulo. O seu desfecho é particularmente eletrizante – não dá para fechar o livro antes que todo o mistério trazido por Daniel se revele.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o cenário: é também uma história sobre Barcelona no pós-guerra e seus personagens – pessoas comuns, como empregados, ricaços e mendigos, que guardam consigo feridas ou não da Guerra Civil. É também a história de uma cidade, de uma época e das pessoas que a habitam.

Por fim, não é um livro que cause uma mudança de pensamentos ou que leve à reflexão, mas é uma leitura bastante tranquila e interessante para quem deseja desvendar livros misteriosos…

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Além da Terra do Gelo – Victor Maduro

O meu contato inicial com este livro ocorreu há vários meses quando, andando pela comunidade Escritores de Fantasia, encontro um tópico em que um autor falava sobre a crítica – tanto aquela desfavorável quanto aquela favorável demais, que em nada ajuda a apontar os acertos e falhas. Identifiquei-me com aquilo, com a vontade de que eu fosse lida por alguém disposto a apontar o que era bom e o que era ruim em meu texto e, movida por essa similaridade, propus a ler o livro e criticá-lo.

Só que muitos meses se passaram entre esse dia e o dia em que efetivamente pude ler, já que estava concluindo minha graduação e isso é totalmente caótico. Quando pude ler, o livro tinha sido mandado para a gráfica – fiquei muito feliz em saber de sua publicação, mas soube também que seria resenhista, não daria mais tempo de auxiliar no processo criativo. Ainda assim, pus-me a ler, curiosa com o que teria em mãos.

Essa é a história de Vanhardt, um garoto rejeitado pela vizinhança, mas que descobre ser algo maior e diferente do que jamais supos: o filho de uma deusa, no caso, a deusa do gelo (será que só isso mesmo?…). Como já diria Stan Lee, grandes poderes trazem grandes responsabilidades, e o bônus de ser o filho de uma deusa virá acompanhado de alguns ônus… Esses ônus não compreendem a salvação do mundo e nem nada semelhante, apenas uma jornada pessoal que irá desembocar em algumas situações muito maiores do que aquelas que ele pode imaginar…

Ele parte da isolada terra do gelo em busca de algo muito especial e importante para ele (não vou dizer o que) e descobre o mundo fora dela, com amigos e inimigos – bem como se vê envolvido num jogo entre os deuses, graças à sua mãe.

Temos a jornada do herói presente, mas com elementos muito interessantes.

Os personagens são simpáticos e o narrador conta a história de uma forma muito cativante, mas um erro básico de um romance de estreia é visível: a história inicia-se em um ritmo bastante lento, as peças do tabuleiro demoram a ser organizadas antes do início da partida. São muitos detalhes realmente desnecessários, que poderiam ser condensados sem prejuízo para o entendimento do leitor.

Entretanto, uma vez que as peças estão dispostas, a trama flui rapidamente: são reviravoltas e grandes revelações, que logo gerarão outras reviravoltas e revelações. Aqui há um movimento contrário ao que ocorre no início do livro: o clímax da história acontece rápido demais!!!! Poderia ter durado mais um ou dois capítulos.

Finalmente, é uma grata surpresa em se tratando de um livro de estreia de um escritor iniciante, bem como é bom saber que uma nova geração de autores de fantasia está a caminho.

E se a leitura da resenha animou para a história, então é só visitar a página oficial do livro. E lembrando a todos que, se eu não achasse que o livro merecesse, não daria espaço no meu blog. Então, caros autores-leitores, deem um jeito de escrever livros que mereçam estar aqui. =P

O Último Reino – Bernard Cornwell

Bernard Cornwell é um dos autores preferidos da Mariana. Ainda na minha crise de abstinência de livros durante o período de festas, ela, sentindo-se com pena de minha situação, emprestou-me este livro, “porque é de um dos meus autores preferidos, espero que você goste também”.

Ele acabou ficando por último da pilha, atrás dos livros que já coloquei aqui como lidos. Até que, finalmente, resolvi lê-lo, também pela curiosidade de conhecer a obra deste autor e pela oportunidade de saná-la.

O Último Reino é o primeiro livro da série Crônicas Saxônicas que, até o presente momento, é uma pentalogia com quatro livros lançados. Como ele já foi trilogia e tetralogia, então este número pode mudar. Trata da história do rei Alfredo, o Grande, que conseguiu enfrentar a ameaça de uma invasão dinamarquesa total e, a partir de Wessex, o último reino inglês, estabelecer a Inglaterra. É um romance histórico contado a partir do ponto de vista do ficcional Uthred, guerreiro inglês que se vê dividido entre dinamarqueses e ingleses, paganismo e cristianismo, a espada e a pena.

Este primeiro livro conta a história da infância e adolescência de Uthred, herdeiro de um senhor de terras que vê-se despojado de sua propriedade e passa a ser criado pelo dinamarquês Ragnar, que passa a considerar como seu próprio pai. Ele cresce, se torna um guerreiro, e o destino o coloca ao lado do rei Alfredo, a quem despreza imensamente, bem como contra os dinamarqueses, povo que adotou como seu.

O começo da história não me pareceu exatamente empolgante, as primeiras páginas foram bem chatinhas. Entretanto, ultrapassado o prólogo, o primeiro capítulo flui rapidamente com a história da infância e adolescência do guerreiro inglês entre dinamarqueses. Lá, desperta a sede de sangue e a selvageria em seu corpo, bem como outras paixões. As duas partes seguintes do livro, que relatam sua incorporação ao exército de Wessex e suas batalhas posteriores, também é bem empolgante.

Como romance histórico, com direito a espadas, paredes de escudos, lanças, membros decepados, sangue e tudo mais, funciona perfeitamente. A ação é uma constante e batalhas ocorrem o tempo todo, para todos os gostos. Como desconheço a história inglesa do século IX, não posso dizer se está adequado ou não à realidade, mas o autor apresenta uma atmosfera bem crível.

Quanto aos personagens, Uthred é nosso narrador e guia e, através de seus olhos, conhecemos as pessoas que o rodeiam: o padre feio e beato, porém gente boa; o general inimigo que vê como figura paterna; o velho e sábio skald, os demais generais, a garota selvagem que se torna seu primeiro amor, o rei carola e profundamente inteligente. Não os achei personagens profundos, mas também não creio que tenha sido a intenção do autor aprofundá-los. E Uthred soa como o garotão protagonista de mangá shonen que quer chutar umas bundas e cortar pessoas em pedacinhos, e que guia sua vida em função disso. Adolescência. Um dia ele crescerá, espero.

Entretanto, há três pontos do livro que me incomodaram bastante. A seguir:

1) Por que Ragnar poupou Uthred da morte? “Ele é insolente e atrevido, posso ficar com ele?”. No frenesi da batalha ele não cortaria um garoto em pedacinhos? Afinal, um a mais, um a menos… E, mesmo se sobrevivesse, seria um prisioneiro com tanta deferência? Lembrando que os dinamarqueses só conhecem sua origem nobre depois disso…

2) Mais para frente quando determinada fortaleza é assaltada, destruída e seus habitantes mortos, como um general, no meio de uma guerra, vai deixar sua fortaleza desguarnecida e não vai fazer rondas em torno de seu vilarejo para verificar que tudo anda bem, ainda mais com revoltas pipocando por toda a parte?

3) Descobrimos que determinado personagem é o antepassado de Chuck Norris além de tudo. Ele atravessa, sozinho, o acampamento inimigo, coloca fogo em uma frota de navios igualmente sozinho e não sofre um arranhão até que a batalha real comece? Essa foi ainda mais difícil de aceitar do que as duas anteriores e quebra o clima da batalha aonde está inserida.

Enfim.
Vale a pena se você gostar de ficção histórica, de lutas de espada e de Bernard Cornwell.