A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. LeGuin

O meu primeiro contato com este livro foi o famoso “ouvir falar”. Trata-se de um clássico da literatura de ficção científica, aonde a autora cria um planeta de seres que podem assumir ambos os sexos em seu período reprodutor. Foram exatamente estes os elementos que me apresentaram sobre o livro.

Ao comprá-lo, pensei: “mas e agora, sei dos seres ambissexuais, mas qual é a trama desse livro?”. Pois é. Ela é muito simples e muito sutil: a chegada à Gethen, o Planeta Inverno, de Genly Ai, terráqueo, embaixador da Comunidade Ecumênica, órgão paraplanetário que reune a humanidade dispersa pelo espaço. Lá, ele envolve-se com Estraven, político influente. A trama desenvolve-se então em torno da missão do Enviado, em fazer com que Gethen adera à Comunidade, e em seu relacionamento com Estraven.

Muito simples. Não é épico, nenhum acontecimento emocionante (exceto toda a parte final do livro). Trata-se de uma descrição, tanto ambiental quanto antropológica, tanto de um planeta gelado quanto de sua sociedade e cultura particulares. E, principalmente, de como seria uma humanidade em que a dualidade do masculino/feminino não existisse. Onde sexo só ocorreria em determinado período do mês e qualquer um tenha o potencial de ser macho ou fêmea.

O título do livro refere-se justamente a dualidades. No caso, a dualidade entre luz e sombra, mas que se aplica em várias outras: quente/frio, bem/mal, certo/errado… E as duas últimas são tão maleáveis… E ainda em uma sociedade em que a dualidade primária a qual um humano se submete não existe: a do masculino/feminino. O yin-yang que se mistura e se torna cinza.

Agora, o subtexto, que na minha visão se mostrou bastante óbvio. Nem é tanto a questão de gênero, porque a indagação sobre a eliminação de gênero é textual, mas sim a de se lidar com aquilo que é diferente. Com alguém que seja diferente. Como nos tornamos hostis ao diferente, ou mesmo como nos sentimos curiosos a desvendá-lo – e como precisamos nos utilizar de nossos próprios parâmetros e medidas para tentar encaixar a diferença. É a relação entre dois alienígenas que se encaram e julgam pelos seus próprios parâmetros.

Também, dos sentimentos humanos que transcendem o gênero, como os jogos políticos e de interesse – e, principalmente, a amizade, apesar de que um getheniano pode se reproduzir com seu melhor amigo.

Ainda, levando em consideração em que o livro foi escrito na década 1960, quando o mundo era bipolar, é interessante notar que em Gethen existem duas grandes potências rivais e alguns países periféricos – e que tanto faria para algum alienígena entrar em contato com EUA ou URSS – o outro lado logo também faria uma aliança que se estenderia pelo mundo. Fica aí a pergunta.

Outro ponto que achei curioso e que não sei se a autora estava consciente disso é quanto ao nome de Genly Ai. Em determinado ponto, um personagem afirma que “ai” parece quase um lamento de dor. Mas eu, imediatamente, lembrei-me que “ai”, em japonês, significa “amor”. Dentro do contexto da história, cai como uma luva.

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2 Responses to A Mão Esquerda da Escuridão – Ursula K. LeGuin

  1. Piaza says:

    Parece bom, mas não é o tipode livro que costuam me interessar. E toda essa dualidade…

  2. Pingback: A Wizard of Earthsea – Ursula K. LeGuin « Leitura Escrita

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