Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Este é um dos livros mais apavorantes que já li.

Ele é geralmente classificado como “distopia”. Distopia, em um conceito rápido e objetivo, é o contrário de utopia. De acordo com a Wikipedia, ” Uma Distopia ou Antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma “Utopia negativa”. São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. Nelas, cai-se as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. Assim, a tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, de instituições ou mesmo de corporações.”

Mas não se trata de uma distopia. Apesar de escrito como tal, é a nossa própria realidade. E isso é apavorante.

Na trama do livro, Montag é um bombeiro que, nesse futuro, possui a função de queimar livros. Um belo dia, após trocar palavras com uma garota da vizinhança, começa a se questionar sobre sua vida e, por fim, o que haveria de tão perigoso nos livros que os fizeram ser banidos.

Apresenta-se então uma sociedade dominada pela mídia, em que as pessoas não conversam mais entre si, mas apenas com sua “família” – os personagens da programação da televisão onipresente. Em que as pessoas são fúteis, vazias, egoístas, hedonistas e insensíveis. Não há nem o que dizer sobre alienação – a sociedade como um todo é alienada e alienante. O valor mais importante é a diversão, então por que pensar sobre si mesmo ou questionar sua realidade? Isso não é divertido.

Exatamente por isso os livros foram banidos: cada minoria se melindrava com um determinado trecho, que era suprimido. Por fim, por que as pessoas gostariam de ler livros e ficar tristes com a reflexão subsequente? O importante mesmo é se divertir.

Esse é o ponto apavorante da história.

Quantas pessoas não conhecemos que são vazias, que não se lembram de fatos relevantes sobre si e sobre os outros, que os assuntos se resumem a roupas, carros, esportes ou à programação da TV, por absoluta falta de qualquer outro conteúdo?

Quantos hedonistas não vemos por aí, principalmente em minha geração? O que importa é o prazer e a diversão, por que a reflexão se ela pode ser tão dolorosa? O melhor é não pensar muito e viver para se divertir. Melhor nem falar sobre a insensibilidade e sobre o egoísmo. Assim como na obra, é tão comum vermos jovens pegando carros, dirigindo a toda velocidade e atropelando pessoas apenas por diversão… e isso ser absolutamente normal.

A mídia? Há quem viva para as novelas e se importe mais com fofocas de artistas do que com sua própria vida – vide as vendagens de revistas como a Caras. A companhia é a mocinha da novela, a paixão platônica, o galã, o inimigo capital, o vilão.
Com o advento da internet então, torna-se perfeitamente possível uma vida totalmente virtual, em que as amizades acontecem no Second Life, as conversas se estabelecem no MSN, a intimidade se esvai.

E as minorias ofendidas? O politicamente correto vem com força total. Isso não pode porque as feministas não gostam, aquilo não pode porque o movimento negro não gosta, aquilo outro então ofende aos homossexuais. E a sociedade pisa em ovos para que ninguém se melindre.

Os livros libertam a mente, ensinam sobre a alma humana, provocam a reflexão. Por isso são perigosos – por que derrubar uma linda e confortável torre de marfim eletrônico se viver na ignorância (em todo e qualquer sentido que “ignorância” possa ter) é tão mais confortável e agradável? Para que pensar se isso vai entristecer o indivíduo? Cabe então aos bombeiros combaterem essa maligna ameaça.

Outro ponto interessante do livro é como a mídia escapa daquilo realmente importante. Em determinado ponto, a guerra foi declarada e é iminente, mas todas as câmeras estão em cima da perseguição a um criminoso comum. E quanto a nós? Quantas vezes investigações importantes, projetos de lei particularmente discutíveis ou escândalos políticos não são abafados por pais que atiram criancinhas pela janela ou por namorados ciumentos que sequestram namoradas? Afinal, a novela sempre é mais interessante do que a vida coletiva.

Alguns pontos da escrita, principalmente no que dizem respeito à tecnologia, soam datados. Achei particularmente inverossímel o fato de existir um rio que não estivesse totalmente degradado pela poluição e a existência de um bosque tão próximo a uma cidade.

Apesar disso, naquilo que os livros trazem de melhor – o retrato da alma humana e da sociedade – a trama continua atualíssima, talvez muito mais atual do que era em 1953, seu ano de lançamento.

Vale a leitura e vale a reflexão subsequente (porque a reflexão pode ser dolorida, mas é extremamente necessária).

***

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8 Responses to Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

  1. Luísa says:

    Obrigada pela resenha! Eu estou doida atrás desse livro, várias críticas positivíssimas, mas não fico muito tranquila em comprar livros até saber a opinião pessoal de alguém. Vlw mesmo!

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  3. Ana Carolina, sabe por que os livros sao perigosos?

    Porque depois de ler um voce nunca mais eh o mesmo. Ler um distopia eh MUITO perigoso, por que pensamos no que vivemos.

    Farenheit 451 é um livro otimo. É uma pena haver poucas leituras distopicas, pq preferem auto ajudas =\

    triste, triste…

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