Diários de Nanny – Emma Mclaughlin e Nicola Kraus

Cometi um erro fatal neste fim de ano.
Deixei o maravilhoso romance que estava lendo em casa (não revelarei seu nome ainda, mas ele gerará uma das mais caprichadas resenhas deste blog) e trouxe para meu feriado dois livros técnicos. Só esqueci de um detalhe: ler sobre jurisdição e sobre processo civil brasileiro contemporâneo exige um certo preparo mental, não só a vontade de relaxar e viajar.
Resultado: depois de passar uma noite fazendo auditoria de um jogo de buraco (!) e ouvindo o especial do Roberto Carlos na televisão (!!!), percebi que as coisas não iam bem. Isso sem contar a longa conversa sobre teologia com o porteiro do Atlético

Minha amiga Mariana, solidária com minha situação, me emprestou alguns livros para que meus dias pudessem ser melhor preenchidos, dentre os quais Diários de Nanny. Como ela disse: “é um livro legal, foge daquele estereótipo de cinderela”.

Acredito que a literatura e a culinária se aproximam em vários pontos, então sempre recorro a analogias gastronômicas para explicar certos pontos. Pois então. Sabem aqueles dias em que tudo o que você quer jantar é o enroladinho de presunto e queijo da cantina da universidade? Pois então. Da mesma forma, há dias em que desejamos ler um livro leve e sem grandes pretensões literárias.

Nanny é uma universitária precisando de grana e, para arrecadá-la, ela se torna babá de um adorável garotinho filho de uma família de alta sociedade de Nova York. Claro, o garotinho Grayer não será a única pessoa de quem ela cuidará naquela casa, afinal sua mãe, uma madame de alta sociedade que sabe-se lá por qual razão teve um filho, também precisa de cuidados.

Não há o estereótipo da cinderela, ela não se apaixona pelo patrão (que é um ninfomaníaco safado, por sinal), mas há vários outros, como o da ricaça fútil e incapaz de enxergar um palmo adiante do nariz, o do ricaço ausente e colecionador de amantes e a da pobre criança perdida no meio desses adultos. Claro, ela come o pão que o diabo amassou no emprego, e o final merecia ser melhor.

As autoras se apresentam como ex-babás e dizem que o livro é uma sátira sobre aquilo que tiveram de aguentar em seu trabalho e sobre o fato de pessoas que delegam a criação de seus filhos a outras pessoas.

Mas o livro me tocou. Fiquei pensando no pobre garotinho e seus pais que sabe-se lá porque tiveram um filho, talvez para apresentá-lo à sociedade como um brinquedo de luxo. Quase o vi adolescente virando hippie, eco-terrorista, drogado ou qualquer outra coisa apenas para chamar a atenção de seus pais, que o levariam a batalhões de psicólogos e terapeutas sem saber que o que lhe falta é o mais essencial. Pensei que infelizmente é uma realidade que também vivemos aqui, também próxima demais. Tenho muita pena dessas crianças e muito medo do que elas poderão se tornar no futuro.

Enfim, valeu a leitura, serviu ao seu propósito de entretenimento e ainda provocou reflexão, ora vejam só!

(P.S.: Caso algum dia visitem a UFV, reservem um tempo para provarem algum salgadinho do DCE. Compensa trocar alguns jantares por eles de vez em quando).

O Senhor da Chuva – André Vianco

Este é um blog eclético, afinal a dona do blog é eclética (bom, dentro de certos parâmetros, não espere ver Augusto Cury aqui). Do mainstream ao underground, do clássico ao lançamento de ontem, a intenção do blog é trazer dicas de leitura que agradem a todos os paladares.

Então, aproveitando a temática natalina, vamos tratar de anjos.

Primeiro, algumas palavras sobre o autor. André Vianco é o cara que deu certo, na minha opinião. Esforçou-se, correu atrás, financiou seu primeiro livro e, hoje, é um escritor brasileiro profissional, com direito a livros nas listas de mais vendidos.
Sua história pessoal é uma história de alguém determinado, que lutou até atingir o seu objetivo, e que continua lutando. Além disso, é um participante bastante atencioso da comunidade orkutiana “Escritores de Fantasia”, onde é membro ativo e atuante. Para mim, o André é um exemplo a ser seguido. Algum dia meus futuros livros estarão aos lados dos dele.

Mas agora, vamos a este livro específico. O Senhor da Chuva trata da antiga, clássica e eterna batalha entre anjos e demônios, que começou no dia da Queda e durará para sempre. Este round específico envolve seu protagonista, um anjo que, ao desviar de suas funções habituais e ajudar a um traficante que tinha o potencial para ser salvo, acaba desequilibrando a ordem das coisas e provocando uma sangrenta batalha.

O começo é eletrizante. O leitor é envolvido logo de início pelos personagens e pela trama e logo faz parte das ações dos protagonistas, o anjo e o humano, que tem suas vidas reviradas ao avesso em uma sucessão de acontecimentos.

Como não poderia deixar de ser diferente nos livros do autor, o terror está presente, então dá-lhe sustos, sangue, gosma e criaturas bizarras. E, claro, a participação especial de alguns vampiros que acabam envolvidos nos acontecimentos.

O livro gira em torno da batalha iminente entre anjos e demônios. E, pela simbologia dessa batalha, pelo significado dos anjos significarem tudo aquilo que é bom, bonito e puro e os demônios a corrupção e a degradação, é natural que os primeiros acabem vencedores, ainda mais se o autor deseja passar uma mensagem de esperança. Nesse ponto, acho que está a falha gritante do livro.

O começo é realmente empolgante, o leitor sente vontade de seguir em frente, mas a empolgação vai indo embora com o decorrer da trama. A batalha final e o desfecho como um todo se arrastam devagar, é difícil ler as últimas páginas para se chegar ao final. O livro perde o fôlego e fica apenas aquela sensação do “já que cheguei até aqui quero ver o que acontece”.

Também em relação ao desfecho, a saída encontrada pelo autor soa forçada. Quanto mais um dos lados se fortalecia, mais eu como leitora pensava: “pois é, e agora como você vai sair dessa?”. E a solução soa forçada, não é natural. Não diria que é um deus ex machina, não chega a esse ponto, mas pareceu muito que o autor seguiu uma linha de raciocínio do tipo “essa é a melhor solução que eu posso encontrar nessa sinuca de bico que me meti”.

Outro ponto que achei estranho, apesar de não ser da construção da trama em si, é o fato da cidadezinha em que a trama se desenvolve ser de maioria protestante e batista. No Brasil, sem ser uma colônia? Isso me pareceu estranho, ainda mais sabendo que no interiorzão, há quase uma unanimidade católica e as comunidades protestantes, em sua maioria, são neopentecostais. Talvez se fosse uma colônia ou houvesse alguma explicação para isso soasse mais natural.

Como avaliação final do livro, diria que vale a pena ler se o leitor pretende refrescar a cabeça ou se pretende conhecer o trabalho de autores novos. Ou mesmo se é um dia chuvoso, pelo jogo de palavras que isso proporciona.

Apresentação

Creio que a melhor apresentação de um blog seja mostrar a aquilo que veio, portanto preferi começar já com uma resenha.

Sou uma leitora compulsiva (infelizmente não consigo ler tudo aquilo que desejo, mas me esforço bastante para isso), escritora ocasional e sempre tive vontade de aprender a fazer resenhas. Este blog surge dessa vontade: aprender a resenhar livros.

Não pretendo utilizar-me de critérios técnicos, visto que há sites e blogs que possuem uma bagagem e capacidade maiores do que as minhas para fazer isso. Minha intenção é tentar expressar um pouco a sensação da leitura e, mais do que tudo, indicar (ou desindicar) leituras para meus eventuais leitores.

De vez em quando, arrisco-me a deixar textos aqui, bem como a contar alguns “causos” cotidianos, já que aprecio bastante a conversa.

E é isso. Sejam todos muito bem-vindos.

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

Este é um dos livros mais apavorantes que já li.

Ele é geralmente classificado como “distopia”. Distopia, em um conceito rápido e objetivo, é o contrário de utopia. De acordo com a Wikipedia, ” Uma Distopia ou Antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma “Utopia negativa”. São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. Nelas, cai-se as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. Assim, a tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, de instituições ou mesmo de corporações.”

Mas não se trata de uma distopia. Apesar de escrito como tal, é a nossa própria realidade. E isso é apavorante.

Na trama do livro, Montag é um bombeiro que, nesse futuro, possui a função de queimar livros. Um belo dia, após trocar palavras com uma garota da vizinhança, começa a se questionar sobre sua vida e, por fim, o que haveria de tão perigoso nos livros que os fizeram ser banidos.

Apresenta-se então uma sociedade dominada pela mídia, em que as pessoas não conversam mais entre si, mas apenas com sua “família” – os personagens da programação da televisão onipresente. Em que as pessoas são fúteis, vazias, egoístas, hedonistas e insensíveis. Não há nem o que dizer sobre alienação – a sociedade como um todo é alienada e alienante. O valor mais importante é a diversão, então por que pensar sobre si mesmo ou questionar sua realidade? Isso não é divertido.

Exatamente por isso os livros foram banidos: cada minoria se melindrava com um determinado trecho, que era suprimido. Por fim, por que as pessoas gostariam de ler livros e ficar tristes com a reflexão subsequente? O importante mesmo é se divertir.

Esse é o ponto apavorante da história.

Quantas pessoas não conhecemos que são vazias, que não se lembram de fatos relevantes sobre si e sobre os outros, que os assuntos se resumem a roupas, carros, esportes ou à programação da TV, por absoluta falta de qualquer outro conteúdo?

Quantos hedonistas não vemos por aí, principalmente em minha geração? O que importa é o prazer e a diversão, por que a reflexão se ela pode ser tão dolorosa? O melhor é não pensar muito e viver para se divertir. Melhor nem falar sobre a insensibilidade e sobre o egoísmo. Assim como na obra, é tão comum vermos jovens pegando carros, dirigindo a toda velocidade e atropelando pessoas apenas por diversão… e isso ser absolutamente normal.

A mídia? Há quem viva para as novelas e se importe mais com fofocas de artistas do que com sua própria vida – vide as vendagens de revistas como a Caras. A companhia é a mocinha da novela, a paixão platônica, o galã, o inimigo capital, o vilão.
Com o advento da internet então, torna-se perfeitamente possível uma vida totalmente virtual, em que as amizades acontecem no Second Life, as conversas se estabelecem no MSN, a intimidade se esvai.

E as minorias ofendidas? O politicamente correto vem com força total. Isso não pode porque as feministas não gostam, aquilo não pode porque o movimento negro não gosta, aquilo outro então ofende aos homossexuais. E a sociedade pisa em ovos para que ninguém se melindre.

Os livros libertam a mente, ensinam sobre a alma humana, provocam a reflexão. Por isso são perigosos – por que derrubar uma linda e confortável torre de marfim eletrônico se viver na ignorância (em todo e qualquer sentido que “ignorância” possa ter) é tão mais confortável e agradável? Para que pensar se isso vai entristecer o indivíduo? Cabe então aos bombeiros combaterem essa maligna ameaça.

Outro ponto interessante do livro é como a mídia escapa daquilo realmente importante. Em determinado ponto, a guerra foi declarada e é iminente, mas todas as câmeras estão em cima da perseguição a um criminoso comum. E quanto a nós? Quantas vezes investigações importantes, projetos de lei particularmente discutíveis ou escândalos políticos não são abafados por pais que atiram criancinhas pela janela ou por namorados ciumentos que sequestram namoradas? Afinal, a novela sempre é mais interessante do que a vida coletiva.

Alguns pontos da escrita, principalmente no que dizem respeito à tecnologia, soam datados. Achei particularmente inverossímel o fato de existir um rio que não estivesse totalmente degradado pela poluição e a existência de um bosque tão próximo a uma cidade.

Apesar disso, naquilo que os livros trazem de melhor – o retrato da alma humana e da sociedade – a trama continua atualíssima, talvez muito mais atual do que era em 1953, seu ano de lançamento.

Vale a leitura e vale a reflexão subsequente (porque a reflexão pode ser dolorida, mas é extremamente necessária).

***

Quer conferir a história também? Leia o livro! Compre em (Submarino)