A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte I: Um Breve Resumo da Trama

Hoje é um desses dias em que estava eu tranquila, abrindo meu e-mail sossegadamente e resolvendo pendências acadêmicas, examinando bem de perto alguns prazos que tenho para cumprir quando a amiga Ana Cristina Rodrigues me cutucou via gtalk me mandando uma notícia que segundo ela eu iria gostar MUITO de saber…

E então eu me senti como se trabalhasse no editorial de alguma revista, em um dia tranquilo e nada promissor, preparando alguma matéria sem muito gosto até que um grande evento ocorre e tudo o mais precisa parar para dar atenção a uma notícia quente e bombástica.

E a notícia que fez parar tudo foi bem essa: A EDITORA LEYA ANUNCIA O LANÇAMENTO DA SÉRIE A SONG OF ICE AND FIRE NO BRASIL.

O título da série no Brasil passou a ser Crônicas de Gelo e Fogo e o primeiro livro se chamará A Guerra dos Tronos.

***

Não é segredo para ninguém que a série A Song of Ice and Fire, do George R. R. Martin, é uma de minhas sagas literárias prediletas. Já tive a oportunidade de resenhar aqui, anteriormente, A Game of Thrones e A Clash of Kings, os dois primeiros livros da série. Pensei em resenhar os outros dois, mas pelo risco de esbarrar e não conseguir evitar alguns spoilers, o que não seria desejável, achei mais conveniente um texto que tratasse de toda a saga em si mesmo, de forma geral, pois sem dúvidas há muito a ser dito.

Só que farei este post EM PARTES. A saga é muito extensa e bastante rica em detalhes. Até agora, são mais de quatro mil páginas de texto riquíssimo em detalhes e informações. Então, primeiramente, algumas palavras sobre o enredo da saga. Claro, aqui está em resumo, com o mínimo de spoilers possível – e com direito a ilustrações bonitinhas que achei internet afora. :)

Então, vamos lá:

Uma Breve História de Westeros

Era uma vez o continente de Westeros, onde um verão pode durar décadas e um inverno toda uma vida. O descompasso entre as estações do ano acaba por trazer alguns inconvenientes, como, por exemplo, o ataque de criaturas míticas conhecidas como Os Outros (nenhuma referência a Lost aqui), que vivem no extremo norte do mundo onde a neve é eterna. Para evitá-los, há alguns milênios foi construída, com gelo, pedra e magia, pelos primeiros habitantes do continente (the First Men e the Children of the Forest – os Primeiros Homens e os Filhos das Matas) uma barreira (“the Wall”) para impedir seus ataques. Uma das principais famílias do norte, os Stark, desde então, vem sendo um dos principais mantenedores da barreira, esforçando-se para mantê-la.

Com o tempo, outros povos do mundo, como os Andals e os Rhoynar, migraram para o continente de Westeros, formando, com os povos que já o habitavam, sete reinos, que viviam em constante guerra entre si.

Até que, fugindo da poderosa cidade-estado de Valyria – que pouco depois foi destruída por um cataclisma conhecido como The Doom – Aegon Targaryen, acompanhado de suas duas irmãs e de seus três dragões, conquistou Westeros. Após alguns entraves políticos que duraram poucas gerações, os Sete Reinos estavam submetidos à Dinastia Targaryen, os reis de toda Westeros.

Porém há uma particularidade entre os Targaryen: para manter a linhagem “pura”, ou mesmo evitar conflitos de poder, os irmãos se casam entre si – talvez por isso a manutenção de características como cabelos prateados e olhos roxos e violetas – e há algo sobre eles digno de nota: “toda vez que nasce um Targaryen, os deuses jogam uma moeda: ou ele será brilhante, ou será um maníaco”.

Por trezentos anos os Targaryen governaram pacificamente, enfrentando apenas algumas rebeliões de fácil controle e eventos trágicos como a morte de todos os seus dragões, até o advento do rei Aerys II, the Mad King – que era, bom, louco. Seu filho mais velho e herdeiro, Rhaegar Targaryen, raptou Lyanna Stark, única filha da tradicional família do norte, o que acabou por desencadear uma violenta guerra civil.

Dentre os principais líderes dos rebeldes estavam Eddard Stark, irmão de Lyanna e herdeiro da Casa Stark, e Robert Baratheon, seu amigo de infância. Quando a guerra estava quase decidida, os Lannister, a família mais rica de Westeros, juntaram seus esforços às forças rebeldes para pôr um fim na dinastia Targaryen. Sobraram apenas a rainha, grávida de uma menina que se chamou Daenerys, e Viserys, seu filho pequeno, mandados para o exílio.

E assim começou o reinado de Robert Baratheon I…

Os Livros da Série

A série A Song of Ice and Fire tem previsão, no momento, de ser composta por sete livros (há também um spin-off, chamado Os Contos de Dunk e Egg, compostos até agora por três contos soltos – The Hedge Knight (O Cavaleiro Errante), The Sworn Sword (A Espada Jurada) e The Mystery Knight (O Cavaleiro Misterioso), que também se passam em Westeros, mas com personagens diferentes e cerca de setenta anos antes dos eventos da saga principal). Já foram lançados quatro livros – A Game of Thrones (1996), A Clash of Kings (1998), A Storm of Swords (2000) e A Feast for Crows (2004). O quinto livro, A Dance with Dragons, está previsto para sair “em breve” – um “em breve” que vem se estendendo desde 2005, mas enfim…

1. O Jogo de Tronos

1.1. O Jogo de Tronos

O primeiro livro da série, após um prólogo eletrizante que vem afirmar para os quatro ventos que esta é sim uma saga fantástica, nos apresenta Eddard Stark, o austero patriarca de Winterfell, o castelo do norte, que segue sua rotina normal juntamente de sua esposa, Catelyn, e de seus cinco filhos legítimos e seu bastardo. Um belo dia, recebe a notícia que Jon Arryn, o homem que o criou e que ocupava o cargo de Mão do Rei – uma espécie de primeiro-ministro, que faz o serviço pesado de administração do reino enquanto o rei bebe, caça e se diverte – está morto. Além disso, o rei Robert está a caminho, pois quer convidá-lo para ser a nova mão do rei.

Logo, chegam a Winterfell o rei Robert, sua esposa, a bela e arrogante Cersei Lannister, seus três filhos e os dois irmãos dela – Jaime, o belo e cruel guarda real, e Tyrion, o anão, que não é belo como seus irmãos, mas possui uma notável capacidade de raciocínio. Eddard – ou Ned, para os íntimos – enxerga a família Lannister com desconfiança, afinal o patriarca Tywin Lannister escolheu apoiar os rebeldes apenas quando a guerra já estava decidida e, principalmente, por Jaime Lannister, da guarda real, que jurara proteger o rei, ter matado Aerys II, e estava sentado no Trono de Ferro, com sua espada ainda suja de sangue – o que rendeu a ele a alcunha de Kingslayer (o Matador de Reis, o Matarreis) e o desprezo profundo por parte das demais pessoas.

Ned não está inclinado a aceitar o convite, mas uma carta recebida por sua esposa, Catelyn, com a indicativa de que na verdade Jon Arryn não morreu de causas naturais, mas foi assassinado, juntamente com uma tragédia familiar repentina, mudam toda a situação. O patriarca Stark vai para a Corte, conhecendo suas figuras boas e ruins, honradas e desonradas, e acaba, mesmo que sem querer, participando do Jogo de Tronos – o eterno jogo de manipulações e intrigas que tem a capacidade de retirar ou pôr este ou aquele rei no trono.

E, como diria a rainha Cersei, “No jogo de tronos, você ganha ou morre. Não há meio termo”. Há vários jogadores, vários trunfos, várias cartas na manga. E não são todos os participantes que jogam limpo ou de maneira honrada na grande parte do tempo. Agora, Ned vai ter de confiar nos seus instintos para fazer as melhores jogadas, ou confiar ou desconfiar das pessoas certas no momento certo.

1.2. A Muralha

Enquanto a trama na corte se sucede, temos também a história de Jon Snow. Ele é o filho bastardo de Ned Stark, criado com bastante amor e carinho por seu pai, juntamente a seus irmãos e irmãs. Todavia, a madrasta, Catelyn, sempre se ressentiu do bastardo que o marido trouxe para casa, de mãe desconhecida, que representa sua traição, um risco para seu primogênito, Robb – ambos regulam idade e são os melhores amigos um do outro – e que, golpe de misericórdia, é o único filho homem que herdou os traços físicos da família Stark.

Jon então cresce consciente que está em uma posição diferente e inferior à dos irmãos e que nunca poderá herdar Winterfell. Cresce também com um código de conduta quase tão rígido quanto o do seu pai e, encantado pelas histórias que ouviu durante a infância e também pelas contadas por seu tio Benjen Stark, além de consciente de que a bastardia não é o melhor cartão de visitas, parte para se juntar à Night’s Watch (Patrulha Noturna), que guarda a Muralha desde seus primórdios.

Como as histórias dos Outros viraram lendas, a Night’s Watch encontra-se em um momento de baixa. Salvo um ou outro membros de famílias tradicionais do norte, como o próprio Benjen Stark e alguns outros, é o perfeito lugar para “desovar” bastardos, criminosos e indesejáveis sociais diversos. A falta de recursos por parte do Rei também é evidente, e os homens devem matar um leão por dia para se manterem vivos e cumprirem suas funções de vigilância. Além disso, a ordem funciona como uma irmandade – seus membros precisam renunciar à antiga vida, bem como fazer votos de castidade e pobreza.

Então, o Bastardo de Winterfell, criado no conforto da casa grande, precisa aprender que nem todos saíram do mesmo berço nobre, perder resquícios de arrogância e aprender a levar sua nova vida gélida e dura da melhor maneira possível.

Acontece que coisas estranhas estão acontecendo Além da Muralha e Jon precisa manter todos os seus sentidos alertas…

1.3. A Rainha Do Outro Lado do Mar

Mas Aerys deixou uma herdeira, Daenerys, nascida após a morte de seu pai e enquanto sua mãe e irmão estavam no exílio. Ela nasceu durante a maior tempestade que assolou Westeros, ganhando assim o epíteto de Stormborn (Filha da Tormenta), que será apenas o primeiro de muitos que ganha ao longo da trama. A mãe acaba por morrer no parto, deixando-a sozinha no mundo, junto a seu irmão Viserys.

Os dois vivem a infância de cidade a cidade em seu exílio fora de Westeros, até que Viserys se aproveita do fato de ter uma irmã princesa, de sangue real valyriano e, quando ela entra na puberdade, a vende como esposa para Khal Drogo, o líder de uma tribo nômade de guerreiros criadores de cavalos em troca de um exército. Só que a moeda que os deuses jogaram para Viserys foi a da demência, tornando todos os seus planos de conquista infrutíferos.

Então, Dany precisa juntar força dentro de si para deixar os tempos de menina e tornar-se uma mulher, guerreira e estrategista, pronta para tomar para si seu reino de direto. Para isso, ela terá aliados – alguns deles, hmm… especiais, digamos assim – e inimigos, mas terá de contar principalmente com sua perseverança e força de vontade.

Mas o caminho do crescimento não é assim tão fácil…

2. O Choque de Reis

Conforme se torna previsível pela leitura do primeiro livro, o jogo de tronos se torna mais ativo do que nunca. Novos participantes interessados no Trono de Ferro se anunciam e uma guerra civil se avulta no horizonte, de proporções até mesmo fratricidas. Aqui, as ações de Robert e Eddard mostram suas consequências, e nem todas serão agradáveis para todas as pessoas.

São apresentados com maior vagar os outros irmãos Baratheon: Stannis e Renly, cada um deles aliado a uma das facções conflitantes. Stannis, por sua vez, associou-se com uma feiticeira, Melisandre, o que dá o gancho para um dos pontos que permeiam a saga: o conflito religioso entre a Fé dos Sete, seguida pela maioria do reino – e que em muito se assemelha com o catolicismo, desde analogia a dogmas como o Mistério da Santíssima Trindade até mesmo a forma de organização monástica, com “padres”, “freiras”, “monges” e até mesmo um “Papa” – e a crescente religião de R’hlorr, o deus da luz, em sua eterna batalha contra O Grande Outro, o deus das trevas.

Também são apresentados os Ironborn (“Filhos do Ferro” que, bom, não são Starks), residentes nas Ilhas de Ferro e uma espécie de piratas, que teve sua rebelião alguns anos atrás, de onde saíram perdedores, mas que agora tem sua oportunidade perfeita para vingança.

É também o início da ascensão de Tyrion Lannister como um grande jogador do Jogo de Tronos. É alguém que possui tudo contra – a aparência repulsiva aos olhos alheios, a desconfiança dos demais jogadores, a oposição explícita de sua irmã Cersei – mas uma capacidade de raciocínio e de leitura dos acontecimentos ímpar. É graças a ele que grandes alianças se firmam, grandes tragédias são evitadas e que a corte se move. E, graças à sua sagacidade e agudez mental, conquista aliados fiéis – e inimigos sedentos por seu sangue.

E o destino das duas filhas de Eddard, Sansa e Arya, começa a se delinear aqui: a primeira, criada para ser uma dama da corte, romântica e adoradora de livros e cañções, começa a duras penas aprender que o mundo real não é bonito, cor-de-rosa e cheio de nuvenzinhas. Pelo contrário: vai se tornando uma adolescente em uma bela prisão de ouro, abusada fisicamente e psicologicamente, esperando pelo cavaleiro andante belo, garboso e cheiroso que a salvará de seus fantasmas (minor spoiler, mas o único cavaleiro bonitão, garboso, cheiroso e sex symbol da trama gosta é de um outro cavaleiro bonito, garboso e conhecido como “o homem mais bem-vestido da corte”). Mas “o mundo não é uma canção” e atrás de faces bonitas há a injúria, e talvez o consolo esteja encoberto por uma camada de rudez e selvageria.

Já Arya, a mais nova, que sempre detestou as coisas de menina e que gostava mesmo era de lutas de espadas, perseguição a gatos e outras brincadeiras de meninos, também se perde em um mundo sujo, sangrento e desagradável, para também sofrer abusos físicos e psicológicos. Ao contrário de sua irmã, um passarinho frágil, ela cresce para se tornar um cão vira-lata e faminto, que não tem pudores para lutar por sua própria sobrevivência. Valar morghulis.

E neste livro, também, a magia do mundo de Westeros vai se intensificando mais e mais. Vai se tornando cada vez menos sutil e mais atuante, mas nem sempre será uma coisa boa, limpa e bonita de se ver, além de custar, às vezes, preços mais caros do que as pessoas estão dispostas a pagar.

E, claro, a guerra civil se inicia. Para quem gosta de batalhas, um prato cheio, que dura uma boa dezena de capítulos e é mostrada por vários ângulos: dos lados envolvidos no conflito e do lado inocente, que deseja apenas estar vivo para ver o sol do dia seguinte.

3. A Tempestade de Espadas

Este é o maior livro e também aquele onde mais coisas acontecem. Aqui, pode-se esperar twists diversos, cenas de efeito e impacto diversos, todas as plotlines e personagens atingindo pontos críticos de conflito e posicionamento. É o ápice dos quatro livros já lançados, também o preferido dos fãs e ganhador de prêmios. A ação ocorre do princípio ao fim, com muitas batalhas, traições, golpes certeiros, vitórias, derrotas, lágrimas e sangue.

É difícil falar sobre este livro por uma razão simples: a história toda – todinha – sofre alterações pelos acontecimentos deste volume. Várias tramas encontram seu fim aqui, com direito a uma das maiores traições literárias que eu me lembre, comparável ao cavalo de Troia, e que também é uma das sequências mais eletrizantes e inesquecíveis de toda a série.

Batalhas são vencidas, batalhas são perdidas, oportunidades aparecem e são aproveitadas, traições se revelam, acertos de contas acontecem, personagens aparentemente desconectados se encontram, conchavos são armados com sucesso, blefes são armados com sucesso e o balanço de poder é alterado de maneira definitiva.

Para não cair em spoilers, só digo que aqui temos a oportunidade de conhecer Jaime Lannister um pouco mais a fundo, saber suas motivações e sentimentos. É uma excelente oportunidade para enxergar um personagem que só foi visto pelos olhares dos outros personagens até agora, a maioria deles realçando seus defeitos, mas de dentro de sua própria cabeça e através de sua interação com Brienne, que é seu oposto polar em qualquer sentido ou direção que se olhe – e que é chave fundamental para entendê-lo.

Um Pequeno Interlúdio: Salto de Cinco Anos?

Era a intenção de George R. R. Martin que houvesse um salto de cinco anos entre o terceiro e o quarto livros da série, para que os personagens crianças pudessem crescer, algumas situações pudessem ficar melhor cimentadas, alguns desenvolvimentos óbvios pudessem ocorrer com calma.

Inclusive, no final do livro 3 alguns personagens foram colocados em locais estratégicos, onde poderiam passar cinco anos sem serem incomodados, com suas plotlines aparentemente resolvidas até ali, todo o caminho traçado para a pausa e amadurecimento. O autor falou várias vezes sobre seu arrependimento de ter colocado protagonistas tão jovens e essa parecia ser a maneira mais simples de fazer com que todo mundo envelhecesse um bocadinho – e também treinasse e desenvolvesse um bocadinho também.

SÓ QUE… Algumas plotlines, até primordiais, não ficariam em suspenso por cinco anos, não sem rios de flashbacks e explicações furadas. Alguns fatos que ocorreram no final de A Storm of Swords demandavam uma solução imediata em termos de continuidade e coerência. Simplesmente não havia a possibilidade de avançar o tempo cinco anos sem prejuízos irreparáveis à toda malha ricamente construída até então.

(e, claro, retcons, que são a coisa mais detestável do mundo, estão e sempre estiveram fora de questão).

Qual a solução, então? Dividir o quarto livro em duas partes, correspondendo ao quarto e quinto livros da saga, para resolver os assuntos pendentes, movimentar as peças no tabuleiro narrativo e servir de interlúdio para a segunda parte da trama, ainda a vir. Os dois livros preenchem o mesmo espaço de tempo, sendo que o primeiro trata dos fatos ocorridos na corte e terras próximas, no sul e na cidade de Braavos, enquanto o quinto tratará do Norte e das terras de Além-Mar.

Então, em 2004, após quatro anos de árdua espera, foi lançado o quarto livro da saga, A Feast for Crows…

4. Um Festim para Corvos

Este é, até então, o livro mais intimista da série.

A guerra civil acabou e uma pretensa e relativa paz começa a se estender por Westeros. Os mortos são contados e enterrados, o poder é reorganizado após sua mudança de mãos, mas o drama de quem realmente perde com a guerra é mostrado: as famílias que perderam seus pais e suas mães, as plantações que não foram colhidas, as terras que não foram semeadas, os milhares de desabrigados e desamparados que enchem os campos. Essas são as vítimas dos jogos de poder, são quem morrerá de fome porque a comida acabou, morrerá de frio porque não há mais casa, será morto porque a lei se foi e os criminosos e enlouquecidos pelas batalhas estão à solta.

É pelos olhos de Brienne, a moça pura e sensível, mas olhada com deprezo por sua aparência e modo de ser, que veremos as pessoas comuns lutando pelo seu restinho de dignidade e pela chance de lutarem por sua sobrevivência.

Mas mais do que isso, há um ponto comum em todas as plotlines deste livro: a identidade. Em metade deles, a busca pela identidade, tenha sido ela perdida muitos anos atrás e que precisa ser recuperada ou que precisa ser construída após uma vida de rejeição. Nos outros três, a perda da identidade – seja ela subtraída voluntariamente, por força das circunstâncias ou por um turbilhão mental de confusão e loucura. E essa privação da identidade também gera e gerará consequências.

São personagens que se procuram, que se opõem. Seja a feia, porém de coração nobre Brienne, que se opõe a belíssima e cada vez mais descolada da realidade Cersei, o destino cada vez mais cruel de Sansa e Arya, as jornadas de Samwell e Jaime, que em última análise buscam a mesma coisa.

Por fim, os Ironborn são revisitados, bem como o povo de Dorne, a província mais ao sul e mais isolada de Westeros. São os últimos jogadores para completar o Jogo de Tronos e esta é a hora de colocar as cartas na mesa. É bom ressaltar que a conclusão dos capítulos de Dorne é uma das mais arrepiantes de toda a série.

Neste livro estão os capítulos mais belos da saga, com ênfase naquele chamado Cat of Cannals e um dos capítulos de Brienne onde o religioso discursa sobre os homens destruídos pela guerra. Aqui, a prosa de George Martin encontra sua forma mais bela. Não é apenas a trama que é contada, mas também é possível saborear vagarosamente todos os detalhes, a escolha de palavras, cenas e sensações do leitor. É fazer da leitura prazerosa e saborosa.

Por não ser um livro agitado e cheio de reviravoltas como anterior – além da expectativa dos quatro anos de espera – este é um livro visto pelo rabo dos olhos de alguns fãs, mas a leitura é belíssima. E, claro, é uma leitura que vale a pena ser apreciada e degustada com carinho.

E agora estamos esperando o quinto livro, que está prometido desde 2005. Entramos no sexto ano de espera: será que desse ano não passa? Eu pressinto que sim. Espero estar certa para logo poder trazer a resenha de A Dance with Dragons para vocês :)

***

O link para os comentários está aberto! Deixe o seu!

***

Curioso para ler a série?

Livros em inglês, no original: A Game of ThronesA Clash of KingsA Storm of SwordsA Feast for Crows
Em português: A Guerra dos TronosA Fúria dos Reis

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21 Responses to A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte I: Um Breve Resumo da Trama

  1. BURP disse:

    Nem tem muito o que comentar, essa série é f*da. Li os três primeiros livros, o quarto ainda tá amadurecendo aqui na estante =P Certamente é o lançamento literário do ano dentro do gênero.

  2. Luis Felipe disse:

    Eu não posso ler essas coisas! Você sabe quando vai lançar essa série aqui no Brasil? Já pesquisei,mas não achei a data!

  3. Luis Felipe disse:

    Não vejo a hora! E parabéns pelo blog, está maravilhoso!

  4. Pingback: A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte II: Os Alicerces « Leitura Escrita

  5. Pingback: A Song of Ice and Fire – George R. R. Martin – Parte III: A Análise « Leitura Escrita

  6. Lidiany disse:

    Me perdi no meio do seu resumo e me interessei bastante pela série!
    Espero poder ler em breve!
    Acho que vou ler em inglês mesmo…se demorar demais =D
    Obrigada pela resenha!

  7. LidianyCS disse:

    Imagine, tava linkando seu post e achei meu comentário antes de ler a série.

    Tava justamente escrevendo que foi seu blog que me convenceu a ler e ser a viciada que sou hoje <3

    Obrigada Ana…

  8. Pingback: A Guerra dos Tronos – Tradução, lançamento e crítica « Leitura Escrita

  9. AdviSjet disse:

    Cheguei agora por aqui e já tendo lido o primeiro volume. Que história! Terminei o Guerra de Tronos em 15 dias e ao terminar me arrependi pois ainda não tem previsão do segundo! Torço pra que a Editora Leya mantenha seu compromisso de nos trazer os demais livros. E seu texto está muito bem escrito. Evita muitos spoiler mas não consegui ler a resenha dos outros livros: quero manter as surpresa ao máximo. E quem tem dúvidas se deve comprar Crônicas de Gelo e Fogo: A Guerra de Tronos que estás sejam extintas agora! Vale a pena sim, principalmente quem gosta de histórias de fantasia ou que tenha a sementinha plantada por outras séries a saber: Senhor dos Aneis, Elric, Conan, Eragon, etc.

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  16. Tavares disse:

    Ana, parabéns pelo seu blog. Estou assistindo a série (04 episódios) e está muito legal, intrigante e torna-se difícil ficar aguardando os próximos episódios. Acho que vou acabar comprando os livros. Você me deixou, ainda, mais curioso com a saga. Mais uma vez, PARABÉNS.

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